Imunizante pioneiro, testado em camundongos, foi desenvolvido por meio de um esforço conjunto de diversas instituições.
Uma vacina intranasal contra Covid-19 apresentou 100% de eficácia contra o vírus, quando testada em camundongos. É o que aponta um estudo desenvolvido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em um convênio com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e parceria com pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e Instituto de Medicina Tropical (IMT), ambos da USP, além da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa, publicada na revista Vaccines, contou também com o apoio da Fapesp.
Uma alternativa às vacinas atualmente disponíveis, de aplicação intramuscular, o novo imunizante induz imunidade pela mucosa do corpo, podendo ser aplicado pelo nariz ou pela boca na forma de “spray”. O imunizante é um dos primeiros do formato a ser testado no mundo. “Como o SARS-CoV-2 é um vírus respiratório, foi natural propor uma vacina que pudesse neutralizá-lo já na área mais propensa às suas tentativas de entrada no corpo humano, ou seja, nas vias aéreas superiores”, conta Momtchilo Russo, professor do Departamento de Imunologia do ICB e um dos coordenadores do estudo. Nas mucosas, há uma grande produção de anticorpos, incluindo a Imunoglobulina A (IgA), proteína fundamental para a nossa imunidade de mucosa.
Direto no pulmão — A vacina, para despertar a imunidade, utiliza como antígeno a proteína Spike (S) — fornecida aos pesquisadores pela Profa. Leda Castilho, que coordena na UFRJ o Laboratório de Engenharia Celular —, de maneira similar a outras como a Oxford-Astrazeneca ou Janssen. Quando o indivíduo é infectado, o sistema imune detecta essa proteína S, presente no SARS-CoV-2 e induz a produção de anticorpos IgA, iniciando a ação contra o vírus no local.
A vacina contém também um adjuvante, já usado em seres humanos em outras ocasiões, o CpG. Composto por oligonucleotídeos contendo citosina e guanina, o CpG potencializa a eficácia da vacina. Para compor o produto final, o CpG e a proteína S são inseridos em uma partícula de lipídio (lipossoma).
“Trata-se de uma técnica fácil de realizar, se comparada, por exemplo, com as vacinas que usam os RNAs mensageiros, ou com as vacinas de adenovírus, que são mais complicadas de se produzir e armazenar, pois requerem temperaturas baixíssimas para a sua manutenção”, acrescenta Russo. Outra vantagem da vacina intranasal em relação às intramusculares diz respeito à sua eficácia no pulmão: ao circular pela mucosa, o imunizante atinge mais rapidamente esse órgão.
Testes em camundongos — No estudo, foi utilizado modelo animal com camundongos transgênicos que expressam o receptor do vírus nas células epiteliais do trato respiratório. Quando infectados pelo vírus, os animais desenvolvem pneumonia viral bilateral, perdem peso e a maioria sucumbe à infecção em sete dias.
Nos testes, 100% dos animais vacinados foram protegidos contra a infecção considerando a mortalidade ou perda de peso. A vacina intranasal mostrou-se mais eficiente na eliminação do vírus do pulmão e ao induzir a produção de anticorpos IgA, quando comparada com a aplicação subcutânea do mesmo imunizante. O fato de diminuir a carga viral no pulmão sugere que a transmissão do vírus pode ser menor com a vacina intranasal. Foi constatada a mesma proteção contra outras variantes de preocupação do SARS-CoV-2, incluindo a gamma, delta e ômicron.
“Nossa vacina também pode funcionar muito bem como reforço heterólogo, combinando-a com outros tipos de vacinas já aplicadas anteriormente, como com a AstraZeneca ou CoronaVac”, sugere o pesquisador.
Imunizante 100% nacional — O projeto surgiu com base em linhas de pesquisa anteriores de Russo, que possui experiência de mais de 30 anos em imunologia do pulmão e no conhecido papel das mucosas no sistema imune, e foi submetido pela Dra. Luciana Mirotti, que atuou como coordenadora geral. Durante seu pós-doutorado, a também imunologista trabalhou no laboratório do Prof. Russo em um modelo pulmonar buscando criar uma vacina contra asma alérgica. Posteriormente, já na Fiocruz, teve a oportunidade de participar de um projeto Inova — programa de pré-aceleração de projetos da Fundação — e convidou o antigo orientador para uma colaboração.
“Sugeri que adaptássemos nossa linha de pesquisa anterior para a produção de um imunizante contra o SARS-CoV-2. Então elaboramos uma pequena proposta de pesquisa, na qual demos como exemplo a vacina Sabin, contra a poliomielite, que é aplicada na forma oral induzindo imunidade de mucosa, algo muito positivo em face da fobia de agulha de muitas pessoas”, conta o professor.
A partir daí, iniciou-se um esforço colaborativo nas diferentes frentes e etapas necessárias à produção de uma nova vacina: produção do vírus e ensaios de neutralização no IMT da FMUSP, infecção dos camundongos, realizada no laboratório nível de segurança NB-3 da FCF-USP; imunização desses animais, realizada no ICB; e o já citado fornecimento da proteína Spike pela UFRJ, além da colaboração de pesquisadores da Fiocruz.
“Uma das ideias básicas para a implementação desse imunizante é que todos os insumos, instalações e expertise fossem disponíveis no nosso país, por isso o grande esforço de colaboração”, ressalta. O imunizante agora deverá avançar para outras etapas de teste.
Por Felipe Parlato | Editado por NUCOM ICB-USP
Aluna do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro teve destaque por trabalho que explora o papel da arginilação, mecanismo de degradação de proteínas, em diversas doenças.
A doutoranda Janaína Macedo da Silva, aluna do Prof. Giuseppe Palmisano, ganhou recentemente o primeiro lugar do 3 minutes Thesis Competition na HUPO 2023, em Busan, Coréia do Sul. “Eu apresentei dados sobre a modulação da arginilação de proteínas (uma modificação pós- traducional) durante a infecção pelo SARS-CoV- 2 e também durante a progressão do câncer cerebral glioblastoma. Estamos todos felizes e orgulhosos da premiação do nosso trabalho”, conta a aluna. O projeto premiado e o laboratório do orientador de Janaina contam com financiamentos da FAPESP, do CNPq e da CAPES.
A linha de pesquisa premiada – Desde o início do doutorado, Janaína vem trabalhando com uma modificação pós-traducional pouco explorada, chamada arginilação. Até o momento, a arginilação é bem caracterizada como um mecanismo de degradação de proteínas, mas ainda é preciso mais estudos para compreender melhor os reais efeitos da sua modulação. “Durante minha tese, nós estamos explorando o papel da arginilação em vários cenários, como, por exemplo, durante a infecção pelo SARS-CoV-2, que causa a COVID-19, e na progressão do câncer cerebral glioblastoma, entre outros. Nossos achados fornecem dados interessantes e inéditos, lançando um novo campo para explorar o contexto dessas doenças”, explica Janaína.
A aluna entende que a novidade trazida por seus dados foi fundamental para a premiação, uma vez que é mais comum estudar outras modificações pós-traducionais mais bem descritas. Além disso, a comissão organizadora estabeleceu alguns critérios que seriam julgados, como, por exemplo: linguagem corporal, animação ao apresentar, conexão com o público, entre outros. Assim, ela e seu orientador, Prof. Giuseppe, elaboraram uma apresentação com base nesses critérios, o que acredita ter contribuído para a premiação.
O momento da premiação – Janaína relata que o evento foi fantástico, reunindo muitos pesquisadores da área, proporcionando a ela adquirir muito conhecimento e ter novas ideias. Diz que fez um pedido para receber um travel grant e foi contemplada, obtendo da organização do evento uma ajuda de custo para as passagens aéreas. Destaca que mesmo em um evento grande como esse, o único trabalho relacionado a arginilação foi o dela.
Ela conta que a premiação foi realizada no fechamento do evento e que estava bem apreensiva. Sabia que existia a possibilidade de ser contemplada, mas ainda assim estava insegura, porque os concorrentes também haviam apresentado bons trabalhos, com dados bastante relevantes. Antes da premiação, já estava se sentindo muito feliz, porque havia sido cumprimentada por pesquisadores renomados da área, que a congratularam e disseram ter gostado muito da sua apresentação, e que estariam torcendo por ela. “Mas, claro que ao final, ver meu nome em primeiro lugar me deixou muito mais feliz e realizada. A sensação que tenho é que estamos no caminho certo, mas que ainda há muito a fazer”, conclui a doutoranda.
Por Felipe Parlato e Altamir Souza | NUCOM ICB-USP
O funcionário, muito querido e respeitado por todos, se aposenta após trabalhar por trinta anos no ICB
Na manhã da última segunda-feira, 27 de novembro, na área do saguão da Diretoria do ICB, foi prestada uma homenagem ao Sr. Airton Santos, por seu aniversário e por sua aposentadoria, após trinta anos de serviços prestados ao ICB.
A cerimônia, organizada sem o conhecimento do homenageado e para sua surpresa, vinha sendo preparada pela Administração do ICB há alguns dias, e contou com a participação dos funcionários da área administrativa, financeira e acadêmica, assim como de alguns docentes, principalmente dos ICBs I e III, locais onde o servidor trabalhou durante a sua longa passagem pelo Instituto.
O evento incluiu a entrega de presentes e lembranças ao “aposentando”, bem como de uma placa comemorativa, passada às mãos do funcionário pela diretora do ICB, Profa. Patrícia Gama.
Dentre as lembranças recebidas pelo funcionário, talvez a mais emblemática seja a camisa do uniforme oficial da zeladoria do ICB autografada por seus colegas de serviço. Muito emocionado, após receber essas honrarias e um lindo relógio de presente, o Sr. Airton proferiu algumas palavras sobre este momento de sua vida profissional, lembrando que agora é o encerramento de uma etapa da sua trajetória pessoal, para que outras possam vir. Em seguida, agradeceu a todos os presentes pela deferência com a sua pessoa.
Após esse primeiro momento, acontecido no hall de entrada, todos foram convidados a participar de um brunch preparado para a ocasião, o qual foi encerrado com a parabenização ao homenageado também pelo seu aniversário de 75 anos, completados nesta semana.
Seja feliz, Sr. Airton, é o que desejam todos os seus colegas, após ter finalizado essa linda e longa etapa da trajetória profissional!
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(Fotos: Marilene Guimarães)
NUCOM – ICB
Pesquisa de Brenda Kischkel tem como foco diversas espécies de fungos, incluindo a esporotricose, infecção que pode ser transmitida por animais, sobretudo gatos; tratamentos atuais possuem alta toxicidade e baixa eficácia.
Fungo Sporothrix schenckii
Fonte:Wikimedia Commons
Novas vacinas podem ajudar a diminuir a agressividade dos tratamentos de infecções fúngicas. É o que aponta a tese de doutorado de Brenda Kischkel, do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). O estudo abordou vias de inflamação em infecções fúngicas endêmicas e potenciais novas estratégias de tratamento para as doenças.
Seu estudo resultou em dois trabalhos, desenvolvidos parte no Brasil e parte no Radboud University Medical Center, na Holanda, em colaboração com os pesquisadores Leo A. B Joosten e Mihai G. Netea. Foram investigadas duas espécies do fungo Sporothrix: Sporothrix schenckii, encontrado em todo o mundo, e o Sporothrix brasiliensis, espécie recém-descoberta no Brasil e que causa doenças mais graves que a primeira. Endêmicas no país, as infecções causadas por esses dois fungos têm crescido nos últimos anos, em parte devido ao aumento de indivíduos imunocomprometidos — o Sporothrix brasiliensis já causou surtos no Rio de Janeiro, São Paulo e outras regiões do país.
Esses fungos são causadores de uma doença chamada esporotricose, que, ao contrário da maioria das infecções fúngicas, que afetam apenas indivíduos imunocomprometidos — portadores de HIV ou recém-transplantados, por exemplo — pode acometer qualquer pessoa. Para prevenir contra essas infecções e evitar casos graves, são necessárias novas formas de tratamento, sobretudo de imunização.
Os trabalhos discutem a vacinação a partir de diferentes estratégias. O primeiro, publicado na revista Frontiers in Immunology, busca estimular o sistema imunológico do hospedeiro, potencializando o tratamento, que viria associado com antifúngicos já disponíveis no mercado.
“Eu selecionei peptídeos, partes das proteínas da parede celular dos fungos, que não apresentam similaridades com o tecido humano. Verifiquei então que alguns desses peptídios poderiam induzir uma resposta imune por parte do organismo”, explica a pesquisadora. A partir daí, o próximo passo será sintetizar essas moléculas em uma vacina, trabalho que está sendo continuado no Laboratório de Micologia Médica do ICB. “Pensando inclusive na possibilidade de uma vacina multifúngica, selecionei peptídeos que estão presentes nas paredes celulares de várias espécies diferentes”, ressalta Kischkel.
O segundo trabalho, publicado na revista Cellular Immunology, explorou a resposta imune induzida pelo próprio fungo. A pesquisadora expôs células humanas a componentes da parede celular de diversas espécies de fungos — como os já citados Sporothrix brasiliensis e Sporothrix Schenckii. A partir disso, foram identificadas citocinas — moléculas que geram a resposta imune — com potencial para serem inibidas por meio de medicamentos específicos e, desta forma, reduzir a agressividade das inflamações que levam à destruição do tecido do paciente, o que permitiria um tratamento mais seguro utilizando os antifúngicos.
Seu doutorado foi ganhador do Prêmio Capes de Melhor Tese, a principal premiação para pós-graduandos no Brasil, na categoria “Ciências Biológicas (Microbiologia)”. A pesquisadora teve como orientador o professor Carlos Pelleschi Taborda, vice-diretor do ICB e coordenador do Laboratório de Micologia.
Outros tratamentos têm alta toxicidade — Entre 1992 e 2015 a esporotricose teve no país cerca de 5 mil casos em humanos, dentre os quais 782 ocasionaram hospitalizações. Ainda que em número relativamente baixo, os casos têm apresentado uma expansão geográfica, hoje afetando quase todo o Brasil. A doença é uma zoonose: é transmitida por animais, sobretudo gatos, o que também facilita sua disseminação nas áreas urbanas; além de ser sistêmica, ou seja, pode afetar diversos órgãos do corpo, inclusive a pele, se atingir a corrente sanguínea.
“Um problema grande das infecções fúngicas é que elas são muito debilitantes e agressivas, sobretudo em indivíduos com HIV. Diferente de infecções bacterianas, muitas vezes resolvidas com um antibiótico, as fúngicas têm um tratamento difícil e mais longo, podendo comprometer vários tecidos e órgãos devido a infecção ou pela toxicidade do tratamento”, explica Kischkel.
Segundo a pesquisadora, essa dificuldade surge pelo fato de que a célula humana é muito similar à célula fúngica em comparação com a célula bacteriana. Essa similaridade, em diversos componentes estruturais que constituem as células humanas e fúngicas, levam a casos de reações cruzadas pois o alvo do antifúngico possui um similar na célula humana, explicando a alta toxicidade de alguns antifúngicos. Em alguns casos, se o tratamento não for realizado corretamente, a infecção pode retornar em momentos de baixa imunidade do indivíduo.
Em função da alta toxicidade, a microbiologista chama a atenção para a necessidade de cautela no desenvolvimento de novos tratamentos: “as inibições das vias de citocina devem ser tópicas, pontuais, e não sistêmicas [completas]. A resposta imune tem sua função na luta contra a infecção, e bloqueá-la completamente pode ser perigoso.”
Para a pesquisadora, a doença é tida como negligenciada no Brasil e no mundo, o que pode ter sido um dos motivos pelos quais sua pesquisa obteve destaque na premiação. “Foi um trabalho que envolveu grupos internacionais de pacientes, e tratou de um fungo endêmico no Brasil. Iniciamos uma pesquisa que pode ser continuada por outros no futuro.”
Além de Kischkel, a pesquisadora Cristina Kraemer Zimpel, da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, recebeu o prêmio na categoria Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses. Seu trabalho “Adaptação do hospedeiro de Mycobacterium tuberculosis e Mycobacterium bovis: uma abordagem genômica e transcricional” teve orientação de Ana Márcia de Sá Guimarães, professora do ICB e coordenadora do Laboratório de Pesquisa Aplicada à Micobactérias (LaPam).
Por Felipe Parlato | ICB-USP
A laureada recebeu o prêmio por projeto que busca biomarcadores para diagnóstico da malária placentária, forma específica de infecção em que o parasita se aloja na placenta da gestante.
A Dra. Jamille Gregório Dombrowski, pós-doutoranda do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e bolsista FAPESP, recebeu menção honrosa no “Prêmio Pós-Doc USP” por seu projeto “Identification of Predictive Biomarkers of Placental Dysfunction in Malaria”. O trabalho, que faz parte do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro, tem a supervisão do Prof. Claudio Marinho, docente do Departamento de Parasitologia do Instituto.
Fruto de trabalhos anteriores da pesquisadora com a malária durante a gravidez, o estudo surgiu da necessidade, percebida por ela, da busca de formas mais eficientes de diagnosticar a doença em gestantes. “Quando o parasita infecta a gestante e atinge a placenta, o diagnóstico para malária placentária só poderá ser feito no momento do parto. Quando chega nesse ponto, não há muita margem para ação: o bebê já nasceu com baixo peso, ou a mulher teve um aborto, ou um parto prematuro”, explica Dombrowski, que integra o Laboratório de Imunoparasitologia Experimental do ICB. Dessa forma, a pesquisa é focada em identificar novos biomarcadores para diagnosticar a doença ainda durante a gestação.
Uma consequência adversa grave da malária gestacional, a malária placentária ocorre quando o protozoário causador da doença deixa de circular apenas no sangue periférico e se aloja na placenta da gestante, atingindo também esse órgão. Apesar de não representar todos os casos, a infecção é frequente — estudos mostram que ela pode afetar mais de 50% das gestantes infectadas.
A pós-doutoranda também explica a diferença entre os parasitas. O Plasmodium vivax, prevalente aqui no Brasil, não adere ao tecido placentário, ao contrário do Plasmodium falciparum, espécie que gera manifestações mais graves. “O parasita fica aderido ao tecido placentário, o que dificulta a sua eliminação e pode causar um intenso processo inflamatório, o principal motivo dos efeitos adversos que nós observamos nesses quadros”.
A doença no Brasil — Sobre a incidência atual da malária no Brasil, Dombrowski menciona um estudo publicado pelo grupo na revista Lancet Americas, que apresenta um levantamento realizado entre 2004 e 2018, o qual demonstra que a grande maioria dos casos de malária gestacional no Brasil se concentra na região amazônica. “Sabemos que é uma região com poucos recursos, e apesar de já termos o diagnóstico e o tratamento de forma precoce nas infecções convencionais, estamos observando que ainda há esses efeitos adversos nas gestantes, que representam cerca de 5,8% dos casos de malária entre as mulheres em idade fértil no Brasil”, esclarece.
O diagnóstico funciona de duas maneiras. No caso da malária gestacional, o exame é idêntico ao dos indivíduos em geral: por microscopia (gota espessa – padrão ouro) através da coleta de sangue por punção digital da paciente. No caso da malária placentária, o exame é feito com a coleta do sangue placentário para análise por microscopia e confirmado por histologia — análise do tecido afetado —, e necessita de um profissional altamente qualificado para realizar a coleta adequada de uma amostra da placenta logo após o parto, conservá-la e analisá-la em laboratório. Há também a opção de diagnóstico por biologia molecular. Esta alternativa, contudo, é inviável nas regiões mais afetadas pela doença, por ser uma técnica de alto custo, que necessita de infraestrutura especializada.
Uma possibilidade, investigada pela doutora no trabalho premiado, seria buscar no próprio sangue periférico das gestantes proteínas que indiquem alterações, causadas pela infecção, na formação e desenvolvimento da placenta. O estudo acompanhou 600 mulheres durante todo o período gestacional, concentrando-se na primeira infecção, quando esta ocorre no primeiro ou no segundo trimestre da gravidez. Após coletado o sangue, foi feita a separação do plasma, que foi analisado utilizando técnicas diversas para detecção de biomarcadores. “A ideia, ao final, é encontrar e padronizar um conjunto de biomarcadores que possam ser facilmente mensurados durante os exames de pré-natal, utilizando os equipamentos encontrados na rede pública de saúde, para o diagnóstico precoce das alterações ou lesões placentárias associadas à infecção na gestação”, explica.
Do painel de 30 biomarcadores, já foram obtidos os resultados de 15. O objetivo é reduzir o escopo a uma combinação de até cinco, com base em parâmetros diversificados de alterações e lesões placentárias, e por fim utilizá-los no diagnóstico. A mensuração deve ser concluída até o fim deste ano, e o estudo até maio do ano que vem.
Como foi a premiação — A premiação da pesquisadora, na categoria “Ciências da Saúde”, fez parte da última edição do Congresso de Pós-doutorandos da USP, que ocorreu nos dias 17, 18 e 19 de outubro. O evento, que teve como tema “Papel e Perspectivas dos Pós-Docs no Brasil”, contou com diversas palestras e workshops, além das apresentações dos trabalhos.
A pesquisadora destacou a importância das atividades do congresso, que viu como uma oportunidade para “sair da bolha” e conhecer o que outros pós-doutorandos estão fazendo. Sobre as atividades, ela ressalta as que tiveram como tema o financiamento de pesquisa e a mobilidade na carreira. “Foi muito bom ter entendido que a nossa carreira pode seguir por diversos caminhos. Também gostei das apresentações sobre as formas de financiamento de pesquisa no Brasil, e da oportunidade de ouvir, num mesmo ambiente, representantes das principais agências de fomento e canais de financiamento da ciência”.
Por Felipe Parlato | Editado por NUCOM-ICB
Alunas do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Sistemas produziram a análise para a disciplina Tópicos Avançados em Biologia de Sistemas II, que visa estimular a reflexão sobre temas da atualidade na ciência.
As alunas Alícia Moraes Tamais, Carolina Zerbini e Katia Sakimi Nakadeira, pós-graduandas da Disciplina de Tópicos Avançados em Biologia de Sistemas II, oferecida no segundo semestre de 2023, apresentam abaixo o resultado de uma das atividades desenvolvidas por elas na disciplina: uma análise sobre a DORA – San Francisco Declaration on Research Assessment, um documento que critica o fator de impacto como principal métrica para definir a importância de trabalhos científicos. A disciplina, coordenada pelas Profas. Maria Luiza Barreto-Chaves e Patrícia Gama, junto ao Programa de Biologia de Sistemas do ICB, tem como objetivo induzir a reflexão por parte dos estudantes de temas da atualidade que, muitas vezes, passam despercebidos durante a pós-graduação. Confira:
DORA na teoria — Uma das principais métricas utilizadas para avaliar a qualidade de um trabalho científico é o fator de impacto da revista em que este foi publicado. O fator de impacto é calculado por meio da média de citações recebidas em um determinado ano pelos artigos publicados na revista nos dois anos precedentes. Isso significa, por exemplo, que o fator de impacto de uma revista para o ano de 2022 é calculado a partir da divisão do número de citações que os artigos publicados nos anos de 2020 e 2021 receberam em 2022 pelo número de artigos publicados nos anos de 2020 e 2021. A princípio, o fator de impacto era uma métrica utilizada apenas pelos bibliotecários, de forma a auxiliar na escolha das revistas a serem adquiridas. No entanto, nas últimas décadas, o fator de impacto tem sido utilizado para avaliar a produção científica a nível de indivíduos. E, como o fator de impacto é uma medida, que assim como qualquer outra, pode ser manipulada por meio de políticas editoriais, ela tem sido muito criticada quanto ao seu uso para medir a qualidade da produção científica dos pesquisadores. É nesse contexto que surge a DORA ou San Francisco Declaration on Research Assessment.
Concebida no ano de 2012, no Annual Meeting of The American Society for Cell Biology (ASCB), em São Francisco (EUA), a declaração tem como público-alvo pesquisadores, revisores, agências de fomento científico e instituições. Nesse documento, o uso do fator de impacto como métrica da qualidade de uma pesquisa é criticado veementemente. Além disso, fica evidente o posicionamento a favor da migração de parâmetros de avaliação quantitativos para parâmetros qualitativos, que levam em conta características pessoais dos indivíduos analisados nos processos de recrutamento, avaliação e seleção, por exemplo.
DORA na prática — Segundo o documento, um indivíduo acadêmico pode trilhar seu caminho de diferentes modos além do que é tradicionalmente feito (trabalho de pesquisa e publicação de artigos). Um exemplo é a divulgação científica. Tal atividade normalmente não afeta seu índice-h ou número de citações científicas, mas tem imenso valor para a ciência e, sendo assim, deve ser levado em consideração quando o indivíduo for avaliado, seja para conseguir financiamento, seja num processo de seleção. Outros exemplos de atividades que impactam o desenvolvimento científico de um pesquisador e não são considerados atualmente também são apresentados na DORA, como a atuação de pesquisadores em discussões de equidade de gênero e raça, e a atuação de pesquisadores no ensino em universidade.
Para contornar essa supremacia dos fatores quantitativos, então, a DORA dá diversas dicas do que pode ser feito. O primeiro passo para a adesão à DORA é a discussão do problema e a divulgação das diretrizes da DORA. São sugeridas palestras, uso da comunicação interna das instituições e de promoção de mesas redondas ou debates. Ainda, há a presença de estudos de caso, com laboratórios que já aderiram ao documento.
Além da DORA, há também o Manifesto de Leiden, que é um documento organizado durante a 19th International Conference on Science and Technology Indicators, no ano de 2014, e que propõe dez princípios para guiar a avaliação da pesquisa científica. Esse manifesto apresenta algumas sugestões práticas que complementam as ideias concebidas na DORA. Dentre elas, há a recomendação de se considerar diferentes tipos de produção, dependendo da área em que o pesquisador está inserido. Por exemplo, na área de humanidades, é comum que a produção científica seja na forma de livros e até mesmo de artigos na língua portuguesa. Além disso, dependendo da linha de pesquisa, o tema pode ser relacionado a uma questão regional, e que dificilmente terá destaque internacional como nos artigos publicados nos grandes periódicos de língua inglesa. Dessa forma, colocar a qualidade da produção científica em primeiro lugar, – como pontuado tanto pela DORA quanto pelo Manifesto de Leiden – é essencial para que os pesquisadores possam se libertar da pressão de ter que publicar muito, e para que possam fazer o que realmente importa: ciência.
DORA na pós-graduação — Como as ideias contidas nesses documentos poderiam ser aplicadas no contexto da pós-graduação? Pensando no cenário de pós-graduação da USP e, mais especificamente, no programa de Biologia de Sistemas (BioS), palestras sobre a DORA e mesas redondas com os estudantes do programa seriam um excelente jeito de abordar a necessidade de diferentes métodos de avaliação científica. Esse tipo de prática é importante para a formação de futuros profissionais que, por exemplo, aplicarão esses métodos de avaliação em futuras bancas de concurso. Além do mais, pensar sobre a avaliação científica é uma oportunidade de pensar sobre o próprio projeto de pesquisa e avaliar se o que o aluno está fazendo pode ser considerado relevante ou não. É importante ressaltar que essas mudanças não vão ocorrer de uma hora para outra, mas dependem de uma gradual transformação na cultura acadêmica. Nesse sentido, é importante pontuar que os atuais professores dos programas de pós-graduação possuem um importante papel nessa transformação cultural, visto que, primeiro, são eles que vão formar as próximas gerações de pesquisadores, e, segundo, são eles que vão avaliar esses alunos, seja no final do curso ou seja em futuras bancas para novos professores.
Em outras palavras, não basta as novas gerações de alunos entenderem as diferentes formas de contribuir para a ciência – as quais vão muito além de publicar um artigo -, é preciso que elas sejam avaliadas nesse contexto. Nesse sentido, é problemático, por exemplo, a existência de programas na universidade que exigem a publicação de um artigo científico ao final do curso. Além de estar indo contra ao que é recomendado pelo DORA, essa prática amplifica a crise de reprodutibilidade que vivemos hoje em dia, pode promover a má conduta científica e estimula a publicação de artigos muitas vezes de baixa qualidade científica, apresentando resultados preliminares e de pouca significância biológica e sendo frequentemente publicados em revistas predatórias.
Considerando tais pontos, a análise de currículo deve ser sempre repensada no contexto da pós-graduação. Ainda, alinhar os objetivos humanos do Instituto com os alunos ingressantes é importante: a exemplo, podemos considerar novamente que a divulgação científica, que tanto trouxe visibilidade para o ICB e para a pesquisa brasileira durante a pandemia, poderia ser um critério de favorecimento do candidato em diferentes editais. Trabalhos voluntários voltados para o “ensinar”, como a vivência em cursinhos populares e projetos sociais, poderiam ser também colocados como pontos importantes em editais, de modo a favorecer o ingresso de estudantes mais humanos e preocupados com os objetivos de desenvolvimento social. Assim, o aluno seria avaliado como um pesquisador de uma forma mais completa, não apenas baseado no número de artigos publicados.
Portanto, é importante que, no contexto da pós-graduação, não apenas os alunos, mas também os professores discutam isso e trabalhem em conjunto para promover essa transformação na cultura acadêmica. Dessa forma, poderíamos começar a pensar em humanizar nossa torre de marfim, e gerar pesquisadores mais engajados em trabalhar de forma científica e não mecânica, onde as pesquisas em si teriam mais valor do que suas citações ou locais de publicação.
Texto: Alícia Moraes Tamais, Carolina Zerbini e Katia Sakimi Nakadeira | Editado por NUCOM
Proposta visa despertar, de modo lúdico, o interesse do público para o mundo da microbiologia.
Alunos de graduação do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) produziram uma história em quadrinhos digital sobre a bactéria Escherichia coli. Presente no intestino, o microrganismo possui diversas variantes, que podem ou não causar doenças. O material foi desenvolvido durante a 10ª edição do “Adote uma Bactéria”, projeto de divulgação científica realizado na disciplina de Bacteriologia do curso de Ciências Biomédicas.
Com o título “A vingadora do mundo microbiano”, o gibi foi desenvolvido para despertar o interesse dos demais alunos e do público leigo para o mundo da Microbiologia, fazendo um paralelo com o mundo dos super-heróis. Na história, Peter é infectado pela bactéria e discute suas características com Bruce, ambos inspirados em cientistas do universo dos quadrinhos.
Um resumo, feito pelos próprios alunos explica, ao final da história, as motivações para a criação da obra: “Uma fusão entre microbiologia e o universo dos super-heróis? É isso mesmo! Nesta história, a bactéria queridinha dos cientistas, a Escherichia coli, uma verdadeira anti-heroína, é apresentada de uma forma lúdica, descomplicando a microbiologia e propagando conhecimento científico para todos os públicos”.
“A vingadora do mundo microbiano” foi desenvolvido pelas alunas Beatriz Dinat Labone Silva, Bruna Gennari Rosa, Fernanda Ayumi Nagay Yoshihara, Giovanna Matos Rodrigues, Giovanna Tresso Custodio, Isabelle Carolina Cotrim Gozzi, Isadora Medeiros e o aluno José Ricardo Ferreira de Lucena, da turma 11 do curso, sob coordenação da Profa. Rita Café Ferreira, idealizadora do projeto.
Para ler a HQ completa, basta clicar na imagem acima.
Texto: Isabelle Carolina Cotrim Gozzi | Editado por NUCOM-ICB
Principal objetivo da proposta é disseminar o interesse pela Microbiologia em alunos de escolas públicas da educação básica.
No último dia 27 de setembro, estudantes universitários, tanto de graduação quanto de pós-graduação, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), participaram de uma iniciativa de extensão dedicada ao ensino e à disseminação da Microbiologia na Educação Básica. O evento ocorreu na escola pública EMEF Profa. Wanny Salgado Rocha, situada na Vila União, Zona Leste de São Paulo. A ação mobilizou cerca de 400 alunos da educação básica (do 6º ao 9º ano), além da diretora, professores e coordenadores pedagógicos.
As atividades foram desenvolvidas e apresentadas por estudantes do ICB como parte do Projeto “Adote uma Bactéria”, coordenado pela Profa. Rita Café Ferreira. O evento teve início com uma apresentação da docente, que enfatizou a importância da Microbiologia e das iniciativas de extensão promovidas pelo ICB-USP para a sociedade. Em seguida, houve a apresentação de uma peça teatral e brincadeiras envolvendo um jogo de tabuleiro.
A peça teatral, intitulada “Micro Tribunal”, abordou temas relacionados à microbiota e à problemática da resistência microbiana. Já o jogo “Respingo Letal” abordou os conhecimentos básicos sobre a tuberculose e seu agente etiológico, a Mycobacterium tuberculosis.
Integrantes do projeto “Adote uma Bactéria” com os alunos da escola pública EMEF Profa. Wanny Salgado Rocha
Agradecimentos — Gostaríamos de expressar nossa gratidão pelo empenho das coordenadoras pedagógicas da EMEF Profa. Wanny Salgado Rocha, professoras Brígida A. Carvalho Maia Brito e Flávia Cardoso dos Santos, bem como da diretora Maria Sueli Santos da Silva, e pelo comprometimento dos estudantes de graduação do Curso de Ciências Biomédicas do ICB: Bruna Rodrigues, Carolina D. Nastaro (IC-CEPID B3/FAPESP), Matheus Gallardo, Raphaela C. Lopes, Rafaela Maia, Samantha Maia (PUB/ICB) e Gabriel Coelho (Graduado IFSP). Além disso, agradecemos também às estudantes de pós-graduação Ms. Bárbara Armellini (CNPq) e Lara Baroni (CAPES), ambas bolsistas pelo Projeto #Adote.
A realização desse evento só foi possível graças ao apoio do Departamento de Microbiologia e da Comissão de Cultura e Extensão do ICB-USP, do CEPID B3/FAPESP, além, é claro, da EMEF Profa. Wanny Salgado Rocha.
Confira as fotos e vídeos do evento neste link.
Profa. Dra. Rita Café Ferreira | Editado por NUCOM-ICB
Testes foram feitos em hamsters, em células VERO e humana. Composto também apresentou baixa toxicidade.
Uma pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) mostra que uma variação da calpeptina, a calpeptina S, tem grande potencial para se tornar um fármaco eficaz contra o SARS-CoV-2 e suas variantes. Em testes com hamsters, após o quinto dia de infecção, a molécula reduziu a produção de partículas virais na traqueia do animal. Em células VERO, de macacos, baixas concentrações do composto (na faixa de nanomolar) foram capazes de eliminar a carga viral, e em célula humana houve uma redução de até 80% nas alterações causadas pela invasão viral.
A calpeptina é uma molécula inibidora da calpaína, uma proteína que utiliza o cálcio do corpo humano para acelerar a quebra de moléculas de água, promovendo reações químicas. A molécula já vinha sendo estudada para tratamento de diversos cânceres e doenças crônicas. “No caso da covid-19, o diferencial em relação aos demais medicamentos já aprovados ou em estágio mais avançado de desenvolvimento, é que a calpeptina não só ataca a Mpro [proteína que atua na replicação do coronavírus] como também atua com mais intensidade na catepsina-L, uma das formas de acesso do coronavírus às células humanas”, afirma Edmarcia Elisa de Souza, pesquisadora do Unit for Drug Discovery, laboratório coordenado pelo professor Carsten Wrenger no Departamento de Parasitologia.
Alvo inédito – Ela explica que a catepsina-L é uma das proteases responsáveis pelo trabalho do lisossomo – organela que digere e elimina moléculas que não devem ser aproveitadas pela célula, como as moléculas do vírus, por exemplo. No entanto, no caso da covid-19, o efeito é reverso. As partículas virais, que entram na célula por meio de endocitose, são processadas pela catepsina-L presente nos lisossomos, o que acaba por aumentar a liberação do vírus, espalhando-o pelas células. “Como a catepsina-L está pouco sujeita a mutações, diferentemente das proteínas do próprio SARS-CoV-2, isso aumenta o potencial inibitório do composto em comparação com os demais fármacos”, afirma.
Em razão dos testes bem-sucedidos com células Vero e humana, validados por ensaios genéticos e de microscopia de fluorescência, a expectativa é que a calpeptina S seja ainda mais potente no organismo humano.
O composto também não causou efeitos tóxicos nas células testadas. “Havia dúvida se a calpeptina poderia alterar a estrutura da catepsina-L e produzir efeitos que pudessem prejudicar a funcionalidade das células, mas essa hipótese foi descartada nos nossos ensaios, o que explica porque o composto só se mostrou tóxico em doses muito maiores do que as necessárias para eliminar os vírus”, conta a pesquisadora.
Agora, com os resultados obtidos, os pesquisadores irão avaliar se a calpeptina S mantém boa performance contra a variante ômicron — como se imagina que aconteça. “Sabemos que a ômicron utiliza preferencialmente o mecanismo de endocitose para entrada nas células humanas. Isso indica que o fármaco deverá atuar com alto grau de inibição contra essa variante”, afirma.
Testes complexos – A calpeptina foi selecionada por pesquisadores alemães a partir de um estudo publicado em 2021 na revista Science. Entre 35 concorrentes, ela foi a molécula que obteve a melhor performance em uma triagem feita por meio de testes de cristalografia de raio-x. No processo, a calpeptina foi fundida a proteína, a Mpro.
Apesar de apresentar bons resultados, a calpeptina permanecia por pouco tempo nos organismos, o que reduzia a sua eficácia. A partir disso, os pesquisadores desenvolveram uma nova molécula, a calpeptina S, que é fundida com uma molécula oriunda do enxofre, para potencializar o fármaco. “Comparamos a calpeptina S com a calpeptina original no ICB e atestamos que a nova molécula foi efetiva para combater o vírus”, afirma.
Em seguida, foram realizados diversos ensaios enzimáticos e de cristalografia de raio-x para avaliar com qual das sete variações de catepsinas (que existem no corpo humano e que são responsáveis pelo espalhamento do vírus nas células), a calpeptina S interagia melhor e como funcionaria a interação entre elas e a Mpro.
Projeto internacional – Os resultados da pesquisa foram relatados em um estudo publicado na Communications Biology, revista do grupo Nature, feito em colaboração com pesquisadores da Universidade de Hamburgo e do Deutsches Elektronen-Synchrotron (DESY), ambos da Alemanha. O artigo contou ainda com a colaboração de grupos de pesquisa dos Departamentos de Biologia Celular e do Desenvolvimento e Microbiologia do ICB-USP.
O potencial do fármaco contra o SARS-CoV-2 foi identificado pelos pesquisadores alemães. Já os testes de validação da ação do composto contra o vírus em modelos animais e em células foram realizados no laboratório BSL3 Cell Culture Facility for Vector and Animal Research, de nível três de biossegurança (NB3), do ICB-USP.
A célula humana foi cedida pelo Laboratório de Biologia Celular e Molecular, coordenado pela professora Glaucia Maria Machado-Santelli, do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento; os vírus foram fornecidos pelo Laboratório de Virologia Clínica e Molecular, coordenado pelo professor Edison Durigon; e os ensaios em animais foram realizados em conjunto com o Laboratório de Pesquisa Aplicada à Micobactérias (LaPam), coordenado pela professora Ana Marcia de Sá Guimarães — ambos docentes da Microbiologia.
Por Gabriel Martino | Acadêmica Agência de Comunicação
Alunas do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Sistemas produziram a análise para a disciplina Tópicos Avançados em Biologia de Sistemas II, que visa estimular a reflexão sobre temas da atualidade na ciência.
As alunas Alícia Moraes Tamais, Carolina Zerbini e Katia Sakimi Nakadaira, pós-graduandas da Disciplina de Tópicos Avançados em Biologia de Sistemas II, oferecida no segundo semestre de 2023, apresentam abaixo o resultado de uma das atividades desenvolvidas por elas na disciplina: uma análise sobre a DORA – San Francisco Declaration on Research Assessment, um documento que questiona o fator de impacto como principal métrica para definir a importância de trabalhos científicos.
A disciplina, coordenada pelas Profas. Maria Luiza Barreto-Chaves e Patrícia Gama, junto ao Programa de Biologia de Sistemas do ICB, tem como objetivo induzir a reflexão por parte dos estudantes de temas da atualidade que, muitas vezes, passam despercebidos durante a pós-graduação. Confira:
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DORA na teoria — Uma das principais métricas utilizadas para avaliar a qualidade de um trabalho científico é o fator de impacto da revista em que este foi publicado. O fator de impacto é calculado por meio da média de citações recebidas em um determinado ano pelos artigos publicados na revista nos dois anos precedentes. Isso significa, por exemplo, que o fator de impacto de uma revista para o ano de 2022 é calculado a partir da divisão do número de citações que os artigos publicados nos anos de 2020 e 2021 receberam em 2022 pelo número de artigos publicados nos anos de 2020 e 2021. A princípio, o fator de impacto era uma métrica utilizada apenas pelos bibliotecários, de forma a auxiliar na escolha das revistas a serem adquiridas. No entanto, nas últimas décadas, o fator de impacto tem sido utilizado para avaliar a produção científica a nível de indivíduos. E, como o fator de impacto é uma medida, que assim como qualquer outra, pode ser manipulada por meio de políticas editoriais, ela tem sido muito criticada quanto ao seu uso para medir a qualidade da produção científica dos pesquisadores. É nesse contexto que surge a DORA ou San Francisco Declaration on Research Assessment.
Concebida no ano de 2012, no Annual Meeting of The American Society for Cell Biology (ASCB), em São Francisco (EUA), a declaração tem como público-alvo pesquisadores, revisores, agências de fomento científico e instituições. Nesse documento, o uso do fator de impacto como métrica da qualidade de uma pesquisa é criticado veementemente. Além disso, fica evidente o posicionamento a favor da migração de parâmetros de avaliação quantitativos para parâmetros qualitativos, que levam em conta características pessoais dos indivíduos analisados nos processos de recrutamento, avaliação e seleção, por exemplo.
DORA na prática — Segundo o documento, um indivíduo acadêmico pode trilhar seu caminho de diferentes modos além do que é tradicionalmente feito (trabalho de pesquisa e publicação de artigos). Um exemplo é a divulgação científica. Tal atividade normalmente não afeta seu índice-h ou número de citações científicas, mas tem imenso valor para a ciência e, sendo assim, deve ser levado em consideração quando o indivíduo for avaliado, seja para conseguir financiamento, seja num processo de seleção. Outros exemplos de atividades que impactam o desenvolvimento científico de um pesquisador e não são considerados atualmente também são apresentados na DORA, como a atuação de pesquisadores em discussões de equidade de gênero e raça, e a atuação de pesquisadores no ensino em universidade.
Para contornar essa supremacia dos fatores quantitativos, então, a DORA dá diversas dicas do que pode ser feito. O primeiro passo para a adesão à DORA é a discussão do problema e a divulgação das diretrizes da DORA. São sugeridas palestras, uso da comunicação interna das instituições e de promoção de mesas redondas ou debates. Ainda, há a presença de estudos de caso, com laboratórios que já aderiram ao documento.
Além da DORA, há também o Manifesto de Leiden, que é um documento organizado durante a 19th International Conference on Science and Technology Indicators, no ano de 2014, e que propõe dez princípios para guiar a avaliação da pesquisa científica. Esse manifesto apresenta algumas sugestões práticas que complementam as ideias concebidas na DORA. Dentre elas, há a recomendação de se considerar diferentes tipos de produção, dependendo da área em que o pesquisador está inserido. Por exemplo, na área de humanidades, é comum que a produção científica seja na forma de livros e até mesmo de artigos na língua portuguesa. Além disso, dependendo da linha de pesquisa, o tema pode ser relacionado a uma questão regional, e que dificilmente terá destaque internacional como nos artigos publicados nos grandes periódicos de língua inglesa. Dessa forma, colocar a qualidade da produção científica em primeiro lugar, – como pontuado tanto pela DORA quanto pelo Manifesto de Leiden – é essencial para que os pesquisadores possam se libertar da pressão de ter que publicar muito, e para que possam fazer o que realmente importa: ciência.
DORA na pós-graduação — Como as ideias contidas nesses documentos poderiam ser aplicadas no contexto da pós-graduação? Pensando no cenário de pós-graduação da USP e, mais especificamente, no programa de Biologia de Sistemas (BioS), palestras sobre a DORA e mesas redondas com os estudantes do programa seriam um excelente jeito de abordar a necessidade de diferentes métodos de avaliação científica. Esse tipo de prática é importante para a formação de futuros profissionais que, por exemplo, aplicarão esses métodos de avaliação em futuras bancas de concurso. Além do mais, pensar sobre a avaliação científica é uma oportunidade de pensar sobre o próprio projeto de pesquisa e avaliar se o que o aluno está fazendo pode ser considerado relevante ou não. É importante ressaltar que essas mudanças não vão ocorrer de uma hora para outra, mas dependem de uma gradual transformação na cultura acadêmica. Nesse sentido, é importante pontuar que os atuais professores dos programas de pós-graduação possuem um importante papel nessa transformação cultural, visto que, primeiro, são eles que vão formar as próximas gerações de pesquisadores, e, segundo, são eles que vão avaliar esses alunos, seja no final do curso ou seja em futuras bancas para novos professores.
Em outras palavras, não basta as novas gerações de alunos entenderem as diferentes formas de contribuir para a ciência – as quais vão muito além de publicar um artigo -, é preciso que elas sejam avaliadas nesse contexto. Nesse sentido, é problemático, por exemplo, a existência de programas na universidade que exigem a publicação de um artigo científico ao final do curso. Além de estar indo contra ao que é recomendado pelo DORA, essa prática amplifica a crise de reprodutibilidade que vivemos hoje em dia, pode promover a má conduta científica e estimula a publicação de artigos muitas vezes de baixa qualidade científica, apresentando resultados preliminares e de pouca significância biológica e sendo frequentemente publicados em revistas predatórias.
Considerando tais pontos, a análise de currículo deve ser sempre repensada no contexto da pós-graduação. Ainda, alinhar os objetivos humanos do Instituto com os alunos ingressantes é importante: a exemplo, podemos considerar novamente que a divulgação científica, que tanto trouxe visibilidade para o ICB e para a pesquisa brasileira durante a pandemia, poderia ser um critério de favorecimento do candidato em diferentes editais. Trabalhos voluntários voltados para o “ensinar”, como a vivência em cursinhos populares e projetos sociais, poderiam ser também colocados como pontos importantes em editais, de modo a favorecer o ingresso de estudantes mais humanos e preocupados com os objetivos de desenvolvimento social. Assim, o aluno seria avaliado como um pesquisador de uma forma mais completa, não apenas baseado no número de artigos publicados.
Portanto, é importante que, no contexto da pós-graduação, não apenas os alunos, mas também os professores discutam isso e trabalhem em conjunto para promover essa transformação na cultura acadêmica. Dessa forma, poderíamos começar a pensar em humanizar nossa torre de marfim, e gerar pesquisadores mais engajados em trabalhar de forma científica e não mecânica, onde as pesquisas em si teriam mais valor do que suas citações ou locais de publicação.
Obras desenvolvidas por Carolina Lixandrão, estudante de artes visuais na ECA-USP, buscam preservar a memória dos professores anatomistas e dão ênfase a partes do corpo que usualmente são ocultadas.
Na próxima segunda-feira (16), às 14 horas, o Museu de Anatomia Humana Alfonso Bovero (MAH), do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP), inaugurará a exposição fotográfica “De Humani Corporis Fabrica”. Nela serão apresentadas imagens do extenso acervo do Museu, que conta com muitas peças preservadas há mais de 70 anos.
Realizado pela estudante de graduação em artes visuais na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) Carolina Lixandrão, a exposição faz referência a obra homônima, de Andreas Vesalius, uma série de livros com ilustrações anatômicas publicada em 1534. E tem o intuito de preservar a tradição da conservação e da representação de peças anatômicas, que vai do desenho e gravura à fotografia.
“O trabalho busca disseminar as diversas compreensões que, ao meu ver, o Museu traz. Trata-se da compreensão científica, do estudo da medicina e da biologia; a compreensão da história, no trabalho com acervo e preservação da memória dos professores anatomistas como o professor Bovero; e a compreensão artística, que está presente na disposição das peças no museu e no registro que fazemos delas, de ideias e maneiras de representação da vida e do corpo humano”, afirma a artista.
A exposição foi desenvolvida no período em que Lixandrão trabalhou como monitora do Programa Unificado de Bolsas (PUB). Para realizá-la, a autora buscou ressaltar partes do corpo humano que costumam passar despercebidas, uma vez que o MAH conta com peças do corpo humano que vão desde órgãos, ossos e tecidos até um coração afetado pela Doença de Chagas ou uma série de fetos com anomalias raras.
“As peças do museu mostram o corpo humano de uma maneira que usualmente nos é oculta, olhá-las e registrá-las sempre é um exercício filosófico, de percepção da vida como algo para além de nós mesmos. Nas fotografias procurei trabalhar a composição e a impressão de maneira a levar essas imagens a um lugar que também é do desenho, de sombra, luz e texturas, sempre me inspirando nas gravuras e manuais históricos de anatomia”, detalha.
O MAH fica localizado no prédio ICB III (Av. Prof. Lineu Prestes, 2415 – Butantã, São Paulo). A exposição é gratuita e estará disponível até o dia 21 de dezembro. As visitações estarão abertas de terça a sexta-feira, das 13 às 16 horas.
A iniciativa foi viabilizada por meio do 8º EDITAL SANTANDER/USP/FUSP de Fomento às Iniciativas de Cultura e Extensão, promovido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da Universidade.
Serviço
Evento: Exposição fotográfica “De Humani Corporis Fabrica”
Local: Museu de Anatomia Humana Alfonso Bovero (Av. Prof. Lineu Prestes, 2415 – Butantã, São Paulo)
Data e horário: de 16/10 a 21/12. Visitas das terças às sextas-feiras, das 13 às 16 horas.
Por Gabriel Martino | Acadêmica Agência de Comunicação
Em continuidade às tratativas com os estudantes e o Centro Acadêmico Rosalind Franklin, a diretoria do ICB expõe os seus pontos de vista, já de conhecimento dos alunos, a toda a comunidade, assim como se coloca de forma aberta ao diálogo sobre essa importante questão.
Aos estudantes, servidores técnicos e administrativos, terceirizados e docentes do ICB:
Em 22 de setembro recebemos a informação de que nossos estudantes iriam aderir ao movimento de greve iniciado em outras unidades da Universidade de São Paulo. Imediatamente recebemos os dirigentes do Centro Acadêmico Rosalind Franklin e conversamos sobre a pauta definida pela assembleia deles. Esse documento foi encaminhado aos coordenadores de disciplinas e aos chefes de departamento e desde então estamos mantendo o diálogo aberto.
As mesmas considerações foram abordadas na reunião 447 da Congregação do ICB em 27 de setembro. Nesse momento, trazemos a todas e todos as informações que já foram repassadas aos estudantes:
Sobre o ICBV– centro de pesquisa em Montenegro, Rondônia- trata-se de uma instalação destinada ao apoio à pesquisa e ao ensino, que vem sendo coordenada pelo Prof Luis Marcelo Aranha Camargo, que é docente do ICB. Para conhecimento e revisão das informações, seguem os documentos sobre a fundação e a missão dessa instalação (e-book), o regimento do centro e o último relatório apresentado referente ao ano de 2022. Reforçamos que o centro requer apoio continuado, em função de sua localização e atividades, e nossa direção e administração atuam constantemente nesse sentido. Já foram realizadas visitas ao centro e foram mapeados diferentes aspectos que podem contribuir para o uso otimizado da área. Com o retorno às atividades didáticas após a pandemia, disciplinas do ICB estão sendo planejadas e organizadas, tanto na graduação quanto na Pós-Graduação, para garantir que os cursos e expedições ocorram com as devidas condições de trabalho e segurança.
Sobre a reposição de docentes e servidores técnicos e administrativos:
A Reitoria definiu que a reposição de docentes seria feita, inicialmente, por meio da comparação do quadro atual com o quadro de 2014. Cabe-nos lembrar que em 2014 foram suspensas as contratações em função da crise financeira em que se encontrava a Universidade de São Paulo. A partir do ofício GR-109 2022, essa comparação foi feita, e o ICB recebeu 8 vagas, que foram divididas em dois lotes. Além dessas, tínhamos duas atribuídas na gestão anterior, duas recebidas do edital da PRP de 2019, e 1 do edital da Comissão de Claros Docentes em 2023. O quadro comparativo e as observações seguem abaixo, e as contratações estão ocorrendo conforme o minucioso planejamento de concursos, e sem atrasos.
Quanto à reposição de servidores técnicos e administrativos, fizemos duas comparações que estão apontadas abaixo. A primeira em relação ao ano de 2014 e a segunda ao ano de 2018, sendo esse período definido, uma vez que em 2015 e 2016 foram feitos dois processos de demissão voluntária (PIDV), e em 2017 foi baixada a Resolução 7344 sobre o plano de sustentabilidade da Universidade, que indica o teto de gastos com pessoal. Assim, o ano de 2018 representa o ponto de comparação após esses eventos.
As reposições de servidores ocorrem a partir da saída da Universidade e as vagas são devolvidas ao quadro da unidade no ano seguinte. Para os servidores técnicos e administrativos, em 2023, o retorno foi de 4 vagas em nível superior, que foram discutidas e atribuídas de acordo com a situação de cada área contemplada.
Fonte: DRH
Fonte: DRH
Entendemos que as informações estão apresentadas e dúvidas podem ser encaminhadas a nossa Diretoria. Estamos mantendo o diálogo aberto com o CARF, com o movimento, com outros diretores e com a Reitoria, e consideramos que esse seja o melhor canal para a instituição. A compreensão do contexto por todos e pelas partes é fundamental para que os posicionamentos sejam observados e entendidos. Precisamos da sensatez de todos para que nossa autonomia, o caráter público da Universidade, e a liberdade de expressão não sejam avaliados erroneamente por aqueles que estão fora de nossos muros.
Pertencemos a uma unidade que é excelente em pesquisa e ensino, que vem galgando esse mesmo patamar em extensão, e que prima por uma administração coesa, justa e eficiente. Contamos com todas e todos para que esse nível seja mantido e estamos certos de que a compreensão e o diálogo são as chaves para isso.
Patrícia Gama e Carlos Taborda
Diretoria ICB-USP
Evento contou com transmissão ao vivo pelo YouTube.
Aconteceu, dia 25 de agosto, às 17 horas, a cerimônia de colação de grau das turmas de bacharelado em Ciências Biomédicas da segunda turma de 2023. O evento, que aconteceu no Anfiteatro Trabulsi, no ICB III, foi conduzido pela diretora do Instituto, a Profa. Patrícia Gama, e contou com a presença das professoras Simone Cristina Motta, Luciana Venturini Rossoni e Eliana Hiromi Akamine.
As fotos da ocasião podem ser visualizadas e baixadas neste link.
A gravação do evento também está disponível. Para acessar, clique aqui.
Fotos — Marilene Guimarães | ICB-USP
Pesquisa coordenada no ICB-USP descreve um aumento na produção de autoanticorpos em pessoas com mais de 50 anos; descoberta também está relacionada com a incidência de casos de trombose.
Imagem: Freepik
A produção de autoanticorpos — anticorpos que reconhecem moléculas do nosso próprio corpo – cresce significativamente em pacientes com mais de 50 anos infectados com a covid-19, e isso pode explicar por que a severidade dos casos aumenta com o avanço da idade. É o que aponta uma pesquisa coordenada pelo professor Otávio Marques, pesquisador associado do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, cujo estudo aliou conhecimentos de imunologia e técnicas de análise de dados por meio de aprendizado de máquina.
O estudo é fruto de uma colaboração entre cientistas do Brasil, Estados Unidos, Israel e Alemanha, e acaba de ser publicado na revista npj Aging, do grupo Nature. A partir de dados coletados em diversos hospitais dos EUA, os pesquisadores mapearam os autoanticorpos ativados na doença, destacando o papel da idade na desregulação do sistema imune e a ação de moléculas relacionadas a casos de trombose, doença caracterizada pela formação de coágulos em vasos sanguíneos.
“Observamos que a probabilidade desses autoanticorpos influenciarem em um caso severo de covid é maior em pacientes com mais de 50 anos e piora conforme a idade avança, assim como a incidência de trombose”, afirma Marques. “A trombose é uma das complicações mais graves da covid-19, que ocorre em cerca de 15% dos pacientes e pode até levar a morte”, acrescenta.
Para chegar a essas conclusões, foram analisados dados de 232 indivíduos não vacinados, 159 dos quais testaram positivo e 73 que não tinham contraído a doença. A partir de um conjunto de dados de 58 autoanticorpos, detectou-se que 16 sofreram um desequilíbrio significativo, sendo que dois deles, a antiglicoproteína plaquetária e a anticardiolipina, apresentaram um desbalanço ainda mais expressivo e estão relacionados com a incidência de casos de trombose.
Esses 16 autoanticorpos, sobretudo os dois citados, atuam por todo o organismo. “Assim como a covid-19, que afeta todo o corpo, esses autoanticorpos podem provocar complicações diversas, que vão desde trombose assintomática até a morte súbita. Nos casos dos pacientes com comorbidades, ou infectados por uma variante mais inflamatória, essa desregulação imunológica é ainda maior”, explica Marques.
“Apesar de também existirem em indivíduos saudáveis, os 16 autoanticorpos estavam com seus níveis séricos [relativos a substâncias do sangue] aumentados nos pacientes mais graves. Esse desequilíbrio pode ocorrer por diversos fatores”, conta Dennyson M. Leandro Fonseca, doutorando do ICB-USP e primeiro autor do artigo.
“O principal deles é que com o passar dos anos, nosso organismo passa pelo processo de imunossenescência ou envelhecimento imunológico, que está associado ao progressivo declínio da função do sistema imune. Isso cria uma situação propícia para a desregulação do sistema imunológico e o aumento na gravidade de inflamações”, detalha.
Porém, segundo Marques, é possível retardar essa imunossenescência por meio de hábitos saudáveis como alimentação regrada, prática equilibrada de esportes e cuidados com a saúde mental.
Os 16 autoanticorpos encontrados no estudo se juntam com autoanticorpos como o anti-IFN do tipo I, que já haviam sido identificados anteriormente, para explicar por que o aumento da idade e a severidade dos casos de covid andam lado a lado. “Esse conhecimento amplo sobre o tema abre um leque maior de possíveis alvos terapêuticos”, afirma o professor.
Classificação estatística — Vários algoritmos de aprendizado de máquina foram utilizados no estudo como o support vector machine, que analisa os dados e reconhece padrões, dividindo-os em diferentes classes, e o RandomForest, que se baseia no modelo de árvores de decisão, em que uma decisão é tomada pelo sistema com base em duas alternativas da mesma classe. A diferença para outros softwares desse tipo é que no caso do RandomForest são criadas diversas árvores diferentes aleatoriamente — no estudo, cerca de 5 mil.
Isso permitiu mostrar com maior precisão quais desses autoanticorpos são capazes de classificar os pacientes de acordo com a severidade da doença. “É feito um ranqueamento de qual anticorpo é mais expressivo de acordo com cada característica. O que aparece mais vezes, entendemos como mais importante. É um modelo muito eficiente, com grande reconhecimento internacional”, explica Igor Salerno Filgueiras, segundo autor do estudo.
Segundo Marques, além da covid-19, o trabalho abre portas para a investigação do comportamento de autoanticorpos em contextos de outras doenças, como a sepse — resposta inflamatória intensa provocada por infecções graves. “A trombose é um fenômeno muito frequente nos pacientes com sepse grave, e muitos acabam morrendo. Possivelmente esse trabalho abrirá portas para investigar o papel dos autoanticorpos nesses outros contextos e usar isso como biomarcador para avaliar a eficácia de um tratamento ou para o desenvolvimento de novas terapias, por exemplo”, afirma o professor.
Por Felipe Parlato | ICB -USP
Wesson se notabilizou com pesquisas básicas e clínicas e trabalhos de extensão sobre o “acid stress”, condição em que a acidez excessiva reduz a concentração de bicarbonado do sangue e pode contribuir para a progressão da doença renal crônica.
O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) receberá de forma virtual, no dia 14 de setembro, às 13 horas, o Dr. Donald E. Wesson, médico nefrologista reconhecido internacionalmente por estudar os mecanismos renais envolvidos na defesa do pH do organismo contra a carga ácida diária imposta pela dieta.
Na apresentação, que será realizada às 13 horas via Zoom, o pesquisador abordará suas pesquisas envolvendo acid stress, condição em que a acidez excessiva reduz a concentração de bicarbonado do sangue e pode contribuir para a progressão da doença renal crônica (DRC), e como contextos socioeconômicos dos indivíduos podem estar relacionados com esse risco.
Durante o acid stress, ocorre um acúmulo progressivo de ácido — decorrente de uma dieta rica em carboidratos, lipídios e proteínas e pobre em frutas e vegetais — e do metabolismo desses nutrientes. Esse acúmulo pode levar a acidose metabólica crônica — quando há uma diminuição da concentração de bicarbonato no plasma sanguíneo e, consequentemente, desequilíbrio do balanço ácido-base do organismo — e tem efeitos danosos sobre os rins e outros órgãos.
Wesson demonstrou que, mesmo quando o acúmulo de ácido não é suficiente para se manifestar como acidose metabólica, ainda assim pode levar à lesão renal e à progressão da DRC. Demonstrou também que a ativação de mecanismos para amenizar o acid stress contribui para a lesão renal.
Além disso, o pesquisador falará sobre seus programas comunitários realizados no estado do Texas, nos Estados Unidos. “O pesquisador traduziu suas observações científicas obtidas em modelos de camundongos, em programas que visam melhorar o funcionamento dos rins de indivíduos com doença renal que vivem em áreas carentes. Esse programa se baseia na intervenção educativa na dieta, priorizando frutas e vegetais, e têm sido muito bem-sucedido”, diz Raif Musa Aziz, professora do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB-USP e co organizadora do evento.
“Com isso, o pesquisador trouxe melhorias em todo o sistema de saúde a comunidades carentes da região, reduzindo a procura por serviços de emergência e hospitalização. Ajudou também a criar uma clínica de atenção primária dentro de um centro recreativo do estado do Texas, uma integração bem-sucedida entre estratégias de saúde pública e intervenção sobre determinantes sociais prejudiciais à saúde”, destaca Aziz.
No evento, o médico também chamará atenção para os riscos de certas dietas para a lesão renal e doenças cardiovasculares, e trará as recomendações de saúde pública para dietas menos ácidas.
A DRC é uma doença silenciosa em que os rins gradualmente vão perdendo a sua função, o que dificulta seu diagnóstico precoce (de suma importância para o sucesso do tratamento). “Quando o quadro é diagnosticado, muitas vezes o paciente está em falência renal, o que traz como únicas alternativas terapêuticas a hemodiálise e o transplante renal”, diz Carla Roberta de Oliveira Carvalho, professora do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB, presidente da Comissão de Cultura e Extensão do Instituto e co organizadora do evento.
A incidência e a prevalência da doença estão aumentando em todo o mundo, e o prognóstico ainda é limitado e os custos do tratamento são altos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), de 2019, cerca de 850 milhões de pessoas sofrem de DRC no mundo e 2,4 milhões morrem anualmente. No Brasil, estima-se que existam mais de 2 milhões de portadores de algum grau de disfunção renal e, dentre eles, mais de 140 mil pessoas realizam diálise, que é a principal forma de tratamento.
Donald E. Wesson é presidente da Baylor Scott & White Health and Wellness Center at Juanita J. Craft Recreation Center e vice-presidente sênior da Baylor Scott & White Weight Management. Foi professor de medicina interna de fisiologia e vice-diretor da Texas A&M University College of Medicine, além de professor de nefrologia no Houston VA Hospital.
O evento é direcionado a alunos de graduação, pós-graduação, pesquisadores em nível de pós-doutorado e docentes da área de ciências biomédicas, sendo aberto a todos os públicos interessados, de dentro e fora da USP. “Acredito que a carreira do Dr. Wesson na pesquisa experimental, formação de estudantes, prática clínica e política de saúde pública certamente será um exemplo e estímulo para toda comunidade”, afirma Aziz.
Para participar, não é necessário se inscrever. A Comissão de Cultura e Extensão poderá emitir certificados de participação, caso solicitada pelo e-mail raifaziz@icb.usp.br.
Felipe Parlato | ICB-USP
Grupo coordenado pelo Prof. João Agostinho Machado-Neto foi o primeiro colocado na categoria Pesquisa em Oncologia, no 14º Prêmio Octavio Frias de Oliveira.
Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP) e da Faculdade de Medicina (FMUSP) foram os vencedores da categoria Pesquisa em Oncologia na 14ª edição do Prêmio Octavio Frias de Oliveira, iniciativa do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) em parceria com o Grupo Folha.
O prêmio, que ocorreu na última sexta, 11 de agosto, busca estimular a pesquisa científica na esfera do combate e da prevenção ao câncer. A premiação foi concedida à doutoranda Keli Lima, da FMUSP, primeira autora da pesquisa, seu marido e supervisor do estudo, João Agostinho Machado-Neto, professor do Departamento de Farmacologia do ICB, o docente e orientador Eduardo Magalhães Rego.
Os pesquisadores foram premiados, entre 32 projetos inscritos, por um artigo que mostrou a capacidade do fármaco THZ-P1-2 de combater células da leucemia. No estudo, realizado em parceria com a Universidade de Groningen, na Holanda, o composto aumentou as mortes celulares programadas, travou o fluxo autofágico — ciclo de degradação e reciclagem de componentes celulares defeituosos — e danificou as mitocôndrias, responsáveis pela produção de energia nas células.
“Nosso trabalho foi o primeiro a mostrar a atuação do THZ-P1-2 em células leucêmicas. Agora, podemos tentar identificar outros tipos de câncer que também dependem desse metabolismo”, afirmou Machado-Neto à Folha de S.Paulo.
A cobertura completa da Folha de S.Paulo pode ser conferida neste link. Confira aqui também um vídeo, produzido pelo jornal, que detalha a trajetória dos pesquisadores e o impacto da pesquisa.
Por Felipe Parlato | ICB-USP