Entre em Contato
Estudo revela ligação genética entre TDAH e dor crônica e aponta caminhos para repensar diagnóstico e tratamento

Pesquisa liderada por professor do ICB-USP sugere que a dor crônica pode ter origem neuropsiquiátrica, abrindo caminho para tratamentos integrados com foco no neurodesenvolvimento.


Um estudo liderado pelo professor Diego Rovaris, do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), revelou uma ampla sobreposição genética entre o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e a dor crônica de múltiplos sítios. Os resultados, publicados no periódico Biological Psychiatry Global Open Science, sugerem que as duas condições compartilham mecanismos biológicos relacionados ao neurodesenvolvimento, o que pode redefinir a forma como ambas são compreendidas e tratadas na prática clínica.

 

O trabalho tem como primeiro autor o pesquisador Nicolas P. Ciochetti, doutorando do laboratório PhysioGen Lab (ICB-USP), e foi realizado em colaboração com instituições como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), no contexto da Rede TDAH Brasil — a maior iniciativa de pesquisa sobre TDAH em adultos da América Latina.

 

Conexão genética – A partir de dados genéticos de larga escala, com amostras que somam até 766 mil indivíduos, os pesquisadores identificaram que a correlação genética entre TDAH e dor crônica é três vezes maior do que entre TDAH e enxaqueca (valores de correlação genética de 0,6 e 0,2, respectivamente). O estudo localizou 12 regiões do genoma compartilhadas entre TDAH e dor crônica, contra apenas uma região comum com a enxaqueca.

 

Além disso, mais de 80% das variantes genéticas compartilhadas entre TDAH e dor crônica apresentaram efeitos na mesma direção, ou seja, predisposições genéticas para TDAH também estavam associadas a maior risco de dor.

 

“Esses dados mostram que não se pode mais tratar a dor crônica apenas como uma condição somática. Há um componente ligado ao desenvolvimento do sistema nervoso, que se conecta diretamente com a biologia do TDAH”, explica Rovaris. “Isso muda a forma como devemos abordar o diagnóstico e o tratamento de ambos.”

 

Metodologias e validação – O estudo aplicou diferentes abordagens pós-GWAS (estudos de associação por varredura genômica), como LAVA, MiXer, conjFDR e análise de Randomização Mendeliana, para investigar as relações causais e o compartilhamento de variantes genéticas e de vias biológicas. Também foi utilizada uma amostra independente de 1.660 indivíduos brasileiros, o que permitiu validar os achados genéticos e associá-los a características clínicas, como gravidade dos sintomas de TDAH e presença de comorbidades como transtorno bipolar e dependência de substâncias.

 

Essa amostra apontou que os escores genéticos de risco para dor crônica estavam associados à gravidade dos sintomas de TDAH, especialmente impulsividade e hiperatividade, e a alterações estruturais no cérebro — como áreas corticais e subcorticais — compatíveis com o que se observa em pessoas com TDAH.

 

Implicações clínicas e terapêuticas – Dois relatos de caso mencionados pelos pesquisadores ilustram o potencial impacto das descobertas: pacientes com dor crônica de longa data tiveram redução dos sintomas de dor após iniciarem tratamento para TDAH. Embora sejam apenas relatos iniciais, eles reforçam a hipótese de que medicamentos usados no tratamento do TDAH podem atuar também sobre os mecanismos que causam dor.

 

“Esse estudo abre possibilidades para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas integradas, que considerem simultaneamente a dor e os sintomas do TDAH”, afirma Nicolas Ciochetti. “Ao investigar essas vias biológicas compartilhadas, podemos chegar a estratégias de tratamento mais eficazes para uma população que sofre com múltiplas condições associadas.”

 

Um novo olhar sobre o TDAH – O TDAH é uma condição altamente comórbida, associando-se frequentemente a depressão, transtorno bipolar, ansiedade, transtornos de aprendizagem e uso de substâncias. Nos últimos anos, estudos também vêm indicando sua associação com doenças do sistema imune, obesidade, diabetes tipo 2 e outras condições somáticas. O novo estudo reforça essa visão integrada, ao demonstrar que a dor crônica compartilha bases genéticas com o TDAH tão fortes quanto a depressão, o que pode justificar a alta frequência dessa queixa em pacientes com o transtorno.

 

“Estamos propondo uma mudança de paradigma. A dor crônica pode e deve ser considerada também como uma condição de saúde mental em muitos casos”, conclui Rovaris.

 

Artigo original: Genetic Interplay Between ADHD and Pain Suggests Neurodevelopmental Pathways and Comorbidity Risk, foi publicado na Biological Psychiatry Global Open Science, em 2025

 

Angela Trabbold | Acadêmica Agência de Comunicação

02/06/25
ICB-USP recebe visita de ex-aluno, pós-graduado em 1982, atualmente com 87 anos

Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do ICB-USP recebe a visita do Dr. Juan Ignácio Espinoza Espinoza, que concluiu a sua pós-graduação ali há mais de 40 anos


Aproveitando que estava no Brasil para a colação de grau de suas netas, o Dr. Juan Ignácio Espinoza Espinoza, acompanhado de sua esposa e de sua nora, fez uma visita ao Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento, antigo Departamento de Histologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em fevereiro de 2025. Em 1982, Espinoza concluiu seu mestrado no Departamento. Ele teve como orientador o Prof. Luiz Otávio Medeiros.

 

A visita foi articulada e agendada pela nora de Espinoza, Dra. Tânia, que fez todas as tratativas prévias com o Departamento. Eles foram recebidos por vários funcionários, em especial, pelo Sr. Gaspar, que já trabalhava ali na época em que Espinoza estudava no ICB-USP, e que o reconheceu.

 

A Sra. Renata, funcionária da biblioteca do ICB-USP, localizou a tese de Espinoza no acervo e fez questão de apresentar a ele, o que pode ser verificado em algumas das fotos que ilustram esta nota.  A Sra. Ana Lúcia, também funcionária do Departamento, relata que essa visita foi um momento raro e emocionante, quando um ex-aluno tão antigo volta para relembrar e prestar uma homenagem ao lugar que foi cenário de parte inicial e muito importante de sua carreira acadêmica posterior.  Em texto encaminhado a ela pelo filho de Espinoza, foi possível saber alguns fatos importantes de sua trajetória como professor universitário.

 

De janeiro de 1983 a setembro de 1990, Espinoza foi professor da Universidad Nacional San Luis Gonzaga de Ica, no Peru. No final de 1990, foi convidado a trabalhar como professor de histologia da Faculdade de Veterinária da Universidad Francisco de Miranda, na Venezuela. Lá, ele também foi coordenador de Histologia; chefe da unidade de Microscopia Eletrônica; orientador de teses de vários profissionais; bem como compôs diversas bancas de concursos para contratação de docentes para o Departamento de Sanidade Animal.

 

Espinoza encerra o texto enviado manifestando o seu eterno agradecimento aos professores do então Departamento de Histologia do ICB-USP, que lhe proporcionaram a oportunidade de realizar seus estudos de Pós-Graduação. Os aprendizados adquiridos no Instituto propiciaram que ele próprio pudesse transmitir todos esses conhecimentos a outros alunos em sua carreira de docente.

 

Altamir Souza | NUCOM-ICB

 

 

Espinoza, sua esposa e sua nora, Dra. Tânia, nas dependências do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do ICB-USP.

 

O casal Espinoza é recebido por funcionários do BMC-ICB.

 

A Sra. Renata, da biblioteca do ICB, apresenta à Espinoza a sua tese, que faz parte do acervo.

 

Espinoza relembra com carinho da sua tese.

 

Capa da dissertação de mestrado de Espinoza.

27/05/25
A unidade EMBRAPII CEINFAR-USP celebra três anos de inovação em fármacos e medicamentos

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo do professor Lucio Freitas Junior, que trata sobre a unidade EMBRAPII CEINFAR-USP, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por ele, devido à sua qualidade informativa:


O Centro de Inovação em Fármacos da Universidade de São Paulo (CEINFAR-USP) comemora, neste mês de maio, três anos de atividades dedicadas à transformação da pesquisa e inovação no campo biomédico e farmacêutico. Desde o seu credenciamento como Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), o CEINFAR tem sido um marco para a integração entre universidade, indústria e sociedade.

 

O CEINFAR-USP congrega pesquisadores de suas unidades formadoras, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. A Unidade, uma das nove já estabelecidas na USP, tem como proposta colocar à disposição da indústria as competências de seus pesquisadores e a estrutura de seus laboratórios para a realização de projetos de inovação em descoberta e desenvolvimento de fármacos e medicamentos.

 

Um dos destaques de atuação do CEINFAR é o projeto de descoberta de novos antimicrobianos, desenvolvido em parceria com a Eurofarma Laboratórios e a startup Phytobios, do Grupo Centroflora, e coordenado pelo Prof. Lucio Freitas Junior, do Departamento de Microbiologia do ICB-USP. Essa parceria celebra uma colaboração de muitos anos entre o Instituto e a Eurofarma, que se iniciou com a participação da empresa no programa Parceiros do ICB. Neste projeto pioneiro, a Eurofarma financiou a reforma do laboratório “Plataforma de Triagem Fenotípica”, uma das bases de inovação do CEINFAR.

 

Agora o CEINFAR busca ampliar sua área de atuação, trazendo novos projetos que poderão contribuir substancialmente para o desenvolvimento de novas soluções para o tratamento de importante demandas de saúde pública. Uma das estratégias de atuação é a integração do CEINFAR com outras iniciativas da USP como, por exemplo, o recém implantado curso de Mestrado Profissional, nas áreas de Inovação em Métodos de Diagnóstico e Desenvolvimento de Novos Fármacos e Medicamentos, oferecido conjuntamente pelo ICB e pela FCF em parceria com as empresas Eurofarma e Dasa. A parceria entre o CEINFAR e o Mestrado Profissional estreita os laços entre empresas nacionais e pesquisadores da USP, além de aportar recursos financeiros que viabilizem projetos de pesquisa e inovação na busca de novos fármacos.

 

Como parte da celebração de seus três anos de atividades, o CEINFAR participará da “SciBiz Conference 2025”, que ocorrerá na USP de 16 a 18 de junho de 2025.

 

Para saber mais sobre o CEINFAR, entre em contato com o prof. Lucio Freitas Junior (luciofreitas@usp.br)

22/05/25
Pesquisa inédita revela papel crucial do nervo simpático na resposta imunológica da sepse

Maior causa de mortes hospitalares, a sepse é uma inflamação ineficaz que desafia os tratamentos tradicionais. Estudo abre caminho para terapias personalizadas e mais eficazes.


Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), liderados pelo professor Alexandre Steiner, fizeram uma descoberta promissora que pode transformar o tratamento da sepse. O estudo revelou que o nervo simpático, especialmente sua ramificação conhecida como nervo esplâncnico maior, desempenha um papel fundamental na resposta imunológica. Essa ramificação regula seletivamente subgrupos de neutrófilos – células essenciais para a defesa do organismo, encarregadas de combater e eliminar patógenos durante infecções graves.

 

A descoberta é parte de um projeto temático iniciado em 2018 e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O estudo foi publicado na revista científica Brain, Behavior, and Immunity, de alto impacto na área interdisciplinar de neurociência, psicologia e imunologia.

 

Nova fronteira – Experimentos com modelos animais demonstraram que o nervo esplâncnico maior regula de forma seletiva os neutrófilos. Essas células, a “primeira linha de defesa” do sistema imunológico, são responsáveis por atacar e destruir patógenos como bactérias e fungos.

 

Os testes mostraram que a interrupção da comunicação desse nervo aumentou significativamente a eficácia de um subgrupo de neutrófilos ativados, especialmente no peritônio e no baço. Além disso, a remoção do nervo reduziu a presença de neutrófilos quiescentes, que possuem características imunossupressoras, sem interferir em outras funções do sistema imunológico, como as desempenhadas pelos macrófagos. Estes, conhecidos como “zeladores ” do organismo, ajudam a controlar a inflamação ao remover detritos celulares, entre outras funções.

 

Utilizando tecnologias avançadas, como o sequenciamento de RNA de célula única, os pesquisadores identificaram as mudanças específicas nas subpopulações de neutrófilos associadas à modulação pelo nervo esplâncnico. Esses achados ressaltam o potencial desse nervo como alvo para futuras terapias personalizadas no tratamento da sepse.

 

“Essa descoberta desafia o conceito tradicional de regulação generalizada pelo sistema nervoso. Mostramos que o nervo esplâncnico maior atua como um ‘potenciômetro’, ajustando de forma precisa a resposta imune no local da infecção. Isso pode abrir caminho para terapias personalizadas que maximizem a eficácia da resposta imune e minimizem danos colaterais,” explica o professor Steiner, coordenador do Laboratório de Neuroimunologia da Sepse do Departamento de Imunologia do ICB-USP.

 

Impactos futuros – Uma das implicações mais promissoras desse estudo é o uso da bioeletrônica para modular de forma localizada o nervo simpático e influenciar a resposta inflamatória. Contudo, desafios importantes permanecem, como a necessidade de desenvolver ferramentas rápidas para identificar os fenótipos específicos dos pacientes, algo essencial para personalizar os tratamentos.

 

“Hoje, exames como análises ômicas e expressão gênica levam semanas para serem concluídos, o que é incompatível com a dinâmica da sepse, que pode mudar drasticamente em poucas horas. Precisamos de métodos que forneçam resultados em tempo real, utilizando biomarcadores rápidos e sistemas automatizados de análise,” reforça Steiner.

 

Complexidade da sepse – A sepse ocorre quando a resposta imune se torna excessiva ou persistente mediante sua ineficácia em eliminar um patógeno, levando a danos colaterais que podem comprometer órgãos vitais e causar falência múltipla. É uma condição complexa, com sintomas variados como febre alta, hipotermia, confusão mental e queda de pressão arterial. Embora considerada uma síndrome única, a sepse apresenta diferentes padrões de resposta (fenótipos), que reagem de forma distinta às terapias, tornando seu tratamento um desafio clínico significativo.

 

Desde o início do projeto, a equipe liderada pelo professor Steiner tem avançado na compreensão da sepse. Entre os destaques, está a descoberta de um eixo de comunicação entre o baço e o fígado, mediado pelo leucotrieno B4 (LTB4). Essa molécula age como um mensageiro químico, ajudando o baço a enviar sinais ao fígado para regular a intensidade da inflamação, um mecanismo essencial para coordenar a resposta inflamatória sistêmica. Esses avanços culminaram na identificação do papel seletivo do nervo esplâncnico maior na modulação de respostas imunológicas específicas.

 

“Entender como órgãos diferentes interagem para controlar a inflamação sistêmica amplia nosso conhecimento sobre a sepse e pode abrir novas perspectivas para o tratamento de outras condições inflamatórias graves,” conclui Steiner.

 

Angela Trabbold | Acadêmica Agência de Comunicação

21/05/25
Avanço no combate à atrofia muscular espinhal combina ciência básica e edição epigenética

Em palestra no ICB-USP, Alberto Kornblihtt mostrou como conhecimento sobre splicing alternativo do mRNA levou a novas estratégias terapêuticas com resultados promissores em camundongos modelo da doença.


O splicing alternativo do mRNA— processo pelo qual um mesmo gene pode gerar diferentes variantes de RNA mensageiro e, com isso, múltiplas proteínas — está no centro de uma nova abordagem terapêutica para doenças genéticas. Foi o que demonstrou o biólogo molecular Alberto Kornblihtt, do Instituto de Fisiologia, Biologia Molecular e Neurociências da Universidade de Buenos Aires e do CONICET (IFIBYNE-UBA-CONICET), em seminário realizado no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), na última segunda-feira (12/05).

 

Estudioso desse mecanismo desde os anos 1980, Kornblihtt explicou como a velocidade de transcrição do RNA interfere diretamente na forma como os éxons — segmentos codificantes dos genes — são incluídos ou excluídos na molécula final de RNA. “Em pelo menos parte dos genes humanos, transcrições mais lentas podem favorecer a ligação de fatores que promovem a inclusão de determinados éxons, enquanto transcrições rápidas podem impedir essa associação”, explicou.

 

Esse princípio tem implicações diretas no tratamento da atrofia muscular espinhal (SMA), uma doença genética rara que compromete os neurônios motores. Kornblihtt explicou o mecanismo de ação do fármaco Spinraza (nusinersena), aprovado em diversos países, incluindo o Brasil desde 2017. Embora a SMA seja causada por mutações no gene SMN1, o medicamento atua sobre o gene homólogo SMN2, corrigindo seu splicing e favorecendo a inclusão do éxon 7. Isso possibilita a produção de uma proteína funcional com atividade semelhante àquela codificada pelo gene defeituoso. O uso do Spinraza tem contribuído significativamente para a melhora da qualidade de vida dos pacientes com SMA.

 

Mas os experimentos de seu grupo revelaram algo inesperado: o medicamento não atua apenas no RNA, como se pensava, mas também interfere no empacotamento da cromatina, que corresponde à forma como o DNA está organizado dentro das células. Essa mudança na “embalagem” do DNA pode dificultar a leitura de certos genes, o que, em alguns casos, pode reduzir a eficácia do tratamento. “Percebemos que o oligonucleotídeo pode gerar um efeito contrário ao desejado, ao tornar o DNA menos acessível para ser transcrito. E isso ocorre por meio da indução de marcas epigenéticas associadas ao silenciamento, como a metilação de histonas — proteínas que, quando modificadas, tornam a cromatina mais compacta e dificultam a transcrição.

 

Foi a partir dessa constatação que sua equipe passou a testar combinações terapêuticas, unindo o antissenso a inibidores de histona-desacetilase, como o ácido valproico (VPA). Esses compostos promovem a abertura da cromatina e aceleram a elongação da transcrição, contrabalançando o efeito silenciador inesperado provocado pelo antissenso. Em experimentos com camundongos modelo da doença, a combinação levou a melhora expressiva da sobrevida, ganho de peso e desempenho motor dos animais em comparação ao tratamento com Spinraza isolado.

 

“Não estamos propondo um protocolo terapêutico pronto para humanos, mas uma prova de conceito. O efeito combinado foi claro nos testes com camundongos”, disse. Os resultados também mostraram que o ácido valproico, por si só, não tem efeito relevante — mas amplifica os efeitos do antissenso quando administrado em conjunto.

 

Além disso, Kornblihtt apresentou experimentos inéditos de edição epigenética direcionada, usando o sistema CRISPR-dCas9 acoplado a um ativador de transcrição (VP64), para promover acetilação de histonas de forma localizada no gene SMN2. Dependendo da região do gene onde a modificação é induzida — próximo ao éxon 7 ou em seu promotor, por exemplo — os efeitos sobre o splicing se intensificam. Em outro experimento, sua equipe demonstrou que essas alterações epigenéticas localizadas podem inclusive alterar a estrutura tridimensional do DNA, promovendo o chamado looping gênico, com aproximação física entre regiões distantes, como o promotor e o final do gene.

 

Ao final da palestra, Kornblihtt ressaltou que a lógica que move sua pesquisa é a da ciência básica: “Estávamos estudando como o splicing funciona, e não buscando uma cura. Mas esse caminho nos levou a contribuir com uma das primeiras terapias efetivas para uma doença neurodegenerativa”. Ele também alertou para a lógica de mercado que impede a realização de ensaios clínicos com combinações terapêuticas acessíveis, como a do Spinraza com VPA, por falta de interesse da indústria farmacêutica. “Esse é um ensaio que só será feito se for financiado por recursos públicos”, afirmou.

 

Membro das academias de ciências da Argentina, França, Estados Unidos e, agora, da Academia Brasileira de Ciências, Kornblihtt encerrou a palestra reiterando seu compromisso com a ciência de base, a universidade pública e o acesso democrático ao conhecimento e à saúde.

 

Angela Trabbold | Acadêmica Agência de Comunicação

14/05/25
Instituto Federal de Sorocaba visita o ICB-USP para vivência científica em Parasitologia e Microbiologia

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo dos professores Rita de C. Café Ferreira e Mauro Javier Cortez Veliz (responsáveis da CCEx nos Departamento de Microbiologia e Parasitologia, respectivamente), que trata sobre visita dos alunos do Instituto Federal de Sorocaba ao ICB-USP, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por eles, devido à sua qualidade informativa:


Alunos do Ensino Médio participaram de atividades práticas, conheceram laboratórios do ICB-USP e reforçam o sonho de entrar na universidade pública.

 

No final de abril, os Departamentos de Microbiologia e Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP uniram esforços para receber a visita do professor Alexandre La Luna e seus 40 alunos do 3º ano do Ensino Médio do Instituto Federal de São Paulo – Campus Sorocaba. A ação, fruto de uma parceria de extensão entre os dois departamentos, teve como objetivo apresentar aos estudantes a pesquisa científica feita na universidade pública e estimular vocações para ciência e biotecnologia.

 

 

 

Vivência ciência na prática

 

A programação começou com uma recepção nos laboratórios de Parasitologia, onde os estudantes foram acolhidos pelos professores Mauro Cortez, Andrea Fogaça, Gerhard Wunderlich, Rodrigo Corder, Giuseppe Palmisano e suas equipes. Ali, os visitantes puderam conhecer diferentes parasitas e os métodos laboratoriais utilizados para estudá-los, promovendo uma primeira aproximação com o trabalho científico.

 

Na sequência, o grupo visitou o setor de Virologia, coordenado pelo professor Jansen de Araujo, que apresentou o laboratório de biossegurança de nível 3 (NB3), usado no estudo de microrganismos que requerem rigorosos cuidados de segurança.

 

 

 

 

“Foi incrível ver como a ciência acontece de verdade. Saí daqui querendo estudar na USP.

Aluna visitante, 3º ano do IFSP – Sorocaba

 

 

Biotecnologia em destaque

 

Os estudantes seguiram para os laboratórios de Bioprodutos, conduzidos pelos professores Luiziana Ferreira e José Gregório, onde conheceram pesquisas com bactérias capazes de degradar plásticos biodegradáveis – um exemplo prático e atual de biotecnologia aplicada à sustentabilidade. O interesse dos alunos foi notável, com perguntas e comentários que enriqueceram a visita.

 

Na Micologia, com a professora Kelly Ishida e monitoras, os alunos participaram de atividades práticas. Observaram fungos nos microscópios e aprenderam sobre seu papel fundamental na saúde humana e ambiental.

 

 

Com foco nas vacinas

 

Para encerrar a visita, os alunos conheceram o Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas, coordenado pelos professores Rita Café Ferreira e Luís Ferreira. Eles puderam entender melhor os antígenos bacterianos utilizados para elaboração de vacinas, da pesquisa básica à aplicação, e a importância dessas ações para saúde pública.

 

 

Experiência transformadora

 

A atividade foi marcada pelo entusiasmo dos estudantes e pelo engajamento dos docentes, monitores graduandos e pós-graduandos envolvidos. Muitos alunos relataram que a visita os motivou a sonhar com uma vaga na USP e considerar a carreira científica como uma opção real para o futuro.

 

Ao unir esforços, os Departamentos de Microbiologia e Parasitologia mostraram a força da colaboração na divulgação científica e no incentivo à formação e jovens talentos. A visita reforça o papel da universidade pública como espaço aberto à sociedade e comprometido com a educação, a ciência e transformação social.

 

Participantes:

  • Professores do Departamento MicrobiologiaRita de Cássia Café Ferreira (responsável da CCEx-ICB pelo evento), José Gregorio Cabrera Gomes, Kelly Ishida, Jansen de Araujo e Luiziana Ferreira;
  • Professores do Departamento Parasitologia – Mauro Javier Cortez Veliz (responsável da CCEx-ICB pelo evento), Andrea Fogaça, Gerhard Wunderlich, Rodrigo Malavazi Corder e Giuseppe Palmisano;
  • Professor do IF Sorocaba – Alexandre La Luna;
  • Alunos de pós-graduação, pós-doutoras e funcionários dos Departamentos de Microbiologia e Parasitologia do ICB-USP – Andrea Bacega, Beatriz I. Alonso, Fabio M Cavalcante, Fernanda P. Vizu ; Giovana Tarantini; Gustavo de O. Fenner; Lara Nardi Baroni; Leticia Serafim, Marcelly B. Nassar, Nicoli G. Picinin, Vitória M. Santos, Solange C. Antão e Irma Vanessa H. Mosquera, Hellen Paula Valerio, Priscila Robertina dos Santos Donado, Dr. Samuel Pereira e a Dra. de apoio técnico Tatiana A. dos Reis;
  • Alunos de graduação ICB-USP – Bruna Rodrigues Corrêa, Camily Vitória S. C. da Silva, Carolina D. Nastaro e Julio Cesar L. A. Cassoli.

 

 

 

 

 

13/05/25
Jogos criados por alunos do ICB-USP ensinam sobre ISTs para estudantes do Ensino Médio do IFSP Sorocaba

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo da Comunicação do CEPID-B3, que trata sobre atividades realizadas pelo projeto #Adote, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por eles, devido à sua qualidade informativa:


Ação de extensão do projeto “#Adote” leva conhecimento sobre sífilis e gonorreia por meio de jogos criados por alunos de graduação do ICB-USP para além do ambiente virtual. A atividade integrou Ciência, criatividade e promoção da saúde pública.

 

No último dia 24 de abril, o projeto “#Adote: Adote uma Bactéria, Vírus e Fungos nas Mídias Sociais”, liderado pela professora Rita de Cássia Café Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3), utilizou jogos didáticos desenvolvidos por alunos de graduação da USP para levar informações científicas sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) a estudantes do Ensino Médio. O evento teve como objetivo utilizar metodologias ativas de ensino para promover o aprendizado sobre o tema para estudantes do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) Sorocaba e faz parte da gama de atividades presenciais desenvolvidas pelo projeto.

 

Durante a ação, os participantes vivenciaram dois jogos educativos imersivos. O primeiro, intitulado Escape Room da Neisseria, ofereceu uma abordagem lúdica e colaborativa para explorar a bactéria Neisseria gonorrhoeae, causadora da gonorreia. Os estudantes se envolveram ativamente na resolução de enigmas que abordaram a transmissão, os sintomas, a prevenção e o tratamento da infecção, em uma dinâmica inspirada nos populares jogos de fuga. A segunda atividade, o jogo TrepoWAR, é uma adaptação do clássico game de estratégia chamado WAR e foi usada para ensinar sobre a sífilis – doença provocada pela bactéria Treponema pallidum. De maneira criativa, os participantes simularam batalhas entre a bactéria e o sistema imunológico, aprendendo de forma interativa sobre os mecanismos de infecção, resposta imune e os aspectos epidemiológicos da doença.

 

À esquerda, os criadores do jogo TrepoWAR, acompanhados pelos mediadores e pela professora coordenadora do Projeto #Adote, Rita de Cássia Café Ferreira; à direita, alguns dos autores do jogo Escape Room.

 

Rita Café Ferreira ressalta que ações como essa fortalecem a formação dos alunos de graduação, ao mesmo tempo que cumpre o papel social da universidade: “É fundamental aproximar o conhecimento científico da população, especialmente em temas de saúde pública”, afirma. “Quando o estudante universitário assume o papel de educador, ele aprende mais e contribui para a transformação da realidade ao seu redor”, argumenta a pesquisadora. A aplicação dos jogos foi acompanhada por um questionário de avaliação elaborado pelos alunos da USP, que demonstrou alto grau de engajamento e aprendizagem por parte do público participante. Ao final da atividade, os estudantes do Ensino Médio do IFSP avaliaram positivamente a experiência, destacando o caráter inovador e acessível da abordagem adotada.

 

A iniciativa faz parte da vertente presencial do projeto “#Adote”, tradicionalmente conhecido por sua atuação nas redes sociais, no qual os participantes “adotam” microrganismos e os representam por meio de perfis informativos e criativos. Ao ampliar sua atuação para além do ambiente virtual, o projeto busca fortalecer a interação entre universidade e comunidade, contribuindo para a promoção da saúde e da educação científica em diferentes níveis de ensino. O projeto segue ampliando seus formatos de atuação, integrando ciência, criatividade e comunicação para formar uma nova geração de cientistas capazes de dialogar com diferentes públicos – dentro e fora das redes sociais.

 

Alunos do IFSP jogando, respectivamente, Escape Room e TrepoWAR.

 

  • Jogo TrepoWar

Autores: Ana Luiza Nunes Goussain Filippo, Beatriz Rodrigues Seiler, Deborah Silva Rocha, Helena Cristina de Albuquerque Corrêa, Júlia Toneli Oliveira, Ketlin Scomparin da Silva, Maria Eduarda Portella Viana, Rafael Moura de Paula e Thamires Lopes Ferreira.

Mediadores: Bruna Rodrigues Corrêa, Carolina Diorio Nastaro, Gabriel Rezende Coelho e Matheus Gallardo Souza Inoue.

Coordenação: Rita de Cássia Café Ferreira e Msa. Bárbara Rodrigues Cintra Armellini.

 

  • Jogo Escape Room

Autores: Amanda Mendes Leite, Beatriz do Nascimento Barbosa, Bianca Ferreira Arruda, Débora Schivartche Wilder, Estela Correia dos Santos, Fernanda Marques de Sousa, Gabriel Mendes Duarte, Hellen Moraes Nascimento, Luiza Mutschele Sena e Murilo Camargo de Oliveira.

Mediadores: Bruna Rodrigues Corrêa, Rafael Moura de Paula e Matheus Gallardo Souza Inoue.

Coordenação: Rita de Cássia Café Ferreira

 

Texto: Bruna Rodrigues e Bianca Bosso | Comunicação CEPID B3

Apoio CEPID B3 e CCEx- ICB

13/05/25
ICB-USP elege nova Diretoria para a gestão 2025-2029

Carlos Pelleschi Taborda, atual vice-diretor, assume a Direção ao lado da professora Marinilce Fagundes dos Santos, atual vice-chefe do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento, eleita vice-diretora.


O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) elegeu, nesta terça-feira (6), os professores Carlos Pelleschi Taborda e Marinilce Fagundes dos Santos como diretor e vice-diretora do Instituto para o mandato 2025-2029. A chapa recebeu 58 votos, contra 53 da chapa concorrente, formada pelos professores Claudio Romero Farias Marinho e Vagner Roberto Antunes. Houve um voto nulo, totalizando 112 votantes. A posse será em julho deste ano. A eleição foi conduzida pela Comissão Eleitoral, composta por Prof. Jackson Cioni Bittencourt, Profa. Maria Tereza Nunes e Altamir Rodrigues de Souza, em parceria com a Assistência Acadêmica, que é chefiada por Marília Oliveira.

 

 

Prof. Carlos Taborda

            Prof. Taborda

Atual vice-diretor do ICB-USP, Taborda é professor titular do Departamento de Microbiologia. Biomédico, possui mestrado e doutorado em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo e pós-doutorado em Imunologia das Infecções Fúngicas pela Yeshiva University – Albert Einstein College of Medicine (EUA). Tem ampla atuação acadêmica e administrativa, com destaque para sua experiência em micoses sistêmicas e emergentes. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Microbiologia (2016–2019) e é atualmente coordenador adjunto da área de Ciências Biológicas III na CAPES. Também desenvolve projetos junto a Universidade de Exeter, na Inglaterra.

 

 

 

 

 

 

        Profa. Marinilce

A professora Marinilce Fagundes dos Santos é docente titular do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do ICB-USP. Graduada em Odontologia pela UNESP, possui mestrado e doutorado pela USP e realizou estágios de pós-doutorado na University of Tennessee e no National Institutes of Health (EUA). Ao longo da carreira, coordenou diversas comissões acadêmicas e foi cofundadora do CEFAP/USP, além de manter intensa atividade de pesquisa nas áreas de diabetes, cicatrização e sinalização celular. De 2020 até 2024, foi chefe do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento, no qual atualmente é vice-chefe. Também atuou na direção da Sociedade Brasileira de Biologia Celular de 2006 até 2022.

 

 

 

 

Ana Carolina Guerra | Acadêmica Agência de Comunicação e NUCOM-ICB

07/05/25
Estudo revela que formas silenciosas de malária desafiam planos de eliminação da doença no Brasil

Maioria das infecções por Plasmodium vivax em áreas urbanas da Amazônia pode ser assintomática e passar despercebida pelos exames de rotina.


Pesquisas lideradas pelo professor Marcelo Urbano Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP), revelam que, em contextos de baixa transmissão, a maioria das infecções por malária em áreas urbanas da Amazônia pode ser assintomática e não detectada pelos exames de rotina. A conclusão, fundamentada em estudos de base populacional realizados em Mâncio Lima e Vila Assis Brasil, no Acre — uma das regiões com maior incidência proporcional da doença no país —, tem implicações diretas para as estratégias de controle e eliminação da malária no Brasil.

 

A investigação demonstrou que, à medida que a transmissão da malária diminui, torna-se cada vez mais difícil detectar os parasitas causadores da doença por meio da microscopia — principal método diagnóstico utilizado na rede pública. “A redução da transmissão não significa o fim do problema. Pelo contrário, ela pode mascarar um reservatório oculto de infecções que continua sustentando a transmissão local”, afirma Ferreira.

 

Mais de 2.700 moradores da área urbana de Mâncio Lima foram acompanhados por meio de rodadas sucessivas de coleta de sangue ao longo de vários anos. As amostras foram testadas por microscopia e por métodos moleculares altamente sensíveis. Os testes de PCR detectaram até dez vezes mais infecções do que a microscopia tradicional. Além disso, mais de 90% dessas infecções eram assintomáticas — ou seja, os portadores não apresentavam febre, calafrios ou dores de cabeça, sintomas que normalmente acionam o diagnóstico clínico.

 

Diante desse cenário, o município passou a aplicar, ainda que de forma limitada a um período, a chamada busca ativa-reativa — estratégia recomendada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), mas ainda pouco implementada no Brasil. A metodologia consiste em visitar as residências de pessoas diagnosticadas com malária e testar seus familiares e vizinhos, mesmo que estejam assintomáticos. A abordagem esteve associada à redução sustentada dos casos notificados no município durante o período do estudo, embora outras variáveis também tenham contribuído para esse resultado.

 

Outro achado relevante é que, mesmo com densidades parasitárias semelhantes, a chance de um exame microscópico identificar o parasita caiu consideravelmente ao longo dos anos. Essa perda de sensibilidade torna mais difícil detectar e tratar os casos de forma eficaz. Os pesquisadores também mapearam a diversidade genética dos parasitas e identificaram que as linhagens circulam livremente entre áreas urbanas e rurais, o que pode representar um risco de manutenção ou reintrodução da doença em zonas urbanizadas mesmo após quedas expressivas nos casos clínicos.

 

No segundo estudo, focado na comunidade de Vila Assis Brasil, os pesquisadores observaram que, mesmo após a aplicação de larvicidas que reduziram a densidade de mosquitos transmissores, os índices de infecção detectados por métodos moleculares caíram menos do que os casos clínicos. Isso indica que a população passou a tolerar cargas mais altas de parasitas sem desenvolver sintomas, criando um desafio adicional para a vigilância baseada em sintomas.

 

Já um terceiro estudo, atualmente em andamento, aprofunda a compreensão de por que a malária persiste mesmo em contextos de baixa transmissão. A pesquisa mostra que cerca de 20% da população concentra até 80% das infecções por Plasmodium vivax, um padrão conhecido como princípio de Pareto. Esses indivíduos, mais suscetíveis por fatores genéticos, comportamentais ou imunológicos, tendem a ter recaídas frequentes e a desenvolver uma imunidade clínica que suprime os sintomas, mas não impede a infecção. Como resultado, tornam-se portadores assintomáticos que mantêm a transmissão viva na comunidade — mesmo quando os casos clínicos diminuem. A identificação e o monitoramento desses “superdisseminadores” são considerados cruciais para estratégias eficazes de eliminação da malária.

 

Esses resultados reforçam a necessidade de incorporar tecnologias moleculares no diagnóstico da malária, sobretudo em contextos de baixa transmissão, e de redesenhar estratégias de vigilância ativa que não dependam apenas da manifestação clínica. “Se o Brasil quiser alcançar a meta de eliminação da malária até 2035, será preciso investir em novos métodos de diagnóstico e em ações direcionadas a populações mais vulneráveis e móveis, como trabalhadores rurais e moradores de áreas periurbanas”, destaca Ferreira.

 

Os estudos fazem parte do projeto temático “Estratégias inovadoras para vigilância, controle e eliminação da malária na Amazônia Brasileira”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para o período de 2023 a 2028, com a participação de instituições brasileiras e internacionais.

 

Publicações científicas associadas ao estudo:

 

Angela Trabbold | Acadêmica Agência de Comunicação

06/05/25
Extensão: projeto #Adote encerra março com eventos sobre sustentabilidade, prevenção da dengue e vacinas

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo da Comunicação do CEPID-B3, que trata sobre atividades realizadas pelo projeto #Adote em março, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por eles, devido à sua qualidade informativa:


A equipe do projeto #Adote, vinculado ao Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3) e coordenado pela professora Rita de Cássia Café Ferreira, encerrou o mês de março com a realização de três eventos voltados à educação e à divulgação científica. Realizadas nos dias 28 e 31 de março e 1º de abril, as atividades reuniram estudantes e professores da educação básica, além de universitários, em dinâmicas, debates e apresentações sobre temas de interesse público, como sustentabilidade, prevenção da dengue e vacinação. Ao todo, cerca de 140 pessoas participaram das ações, que tiveram como objetivo promover a troca de conhecimentos, facilitar o aprendizado de forma acessível e interativa e conectar a ciência aos desafios atuais da sociedade. 

 

O primeiro evento da série, dedicado ao tema “sustentabilidade”, contou com a participação de dez mediadores – dois professores, seis alunos de graduação e três de pós-graduação – todos vinculados aos institutos de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). A atividade, intitulada “Diálogo Sustentável: USP e professores de Educação Básica juntos pelo meio ambiente”, reuniu 20 professores de educação básica da Escola Estadual Clorinda Danti e teve o objetivo de refletir sobre o ensino da sustentabilidade para alunos do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental I. A ação foi coordenada em parceria pelos professores José Gregório Gomes, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, e Rita C. Café Ferreira, membro do mesmo departamento e pesquisadora do CEPID B3. 

 

Em seguida, a equipe recebeu 50 estagiários do Museu de Ciências Catavento nas dependências do ICB para atividades sobre a importância da vacinação e o processo de desenvolvimento dos imunizantes. Além de oito estudantes e três professores da USP, o Prof. Jansen de Araujo, do Departamento de Microbiologia do ICB-USP, fez a abertura do evento com conceitos importantes sobre os vírus. Em seguida, a Dra. Ana Carolina Ramos Moreno, pesquisadora do Instituto Butantan, e o Dr. Gabriel Davi Marena falaram sobre as vacinas e seus diferentes tipos e destacaram o papel essencial da vacinação na promoção da saúde pública. Os visitantes também participaram de um tour no Departamento de Microbiologia e conheceram parte da infraestrutura laboratorial utilizada nas pesquisas desenvolvidas no local. 

 

 O último evento da série aconteceu na Escola Municipal de Ensino Fundamental Marechal Esperidião Rosas, no distrito de Jaguaré, em São Paulo. Intitulado “Todos Contra a Dengue”, o encontro começou com uma apresentação teórica sobre virologia para 70 alunos do 5º ano do Ensino Fundamental I, seguida por uma encenação teatral sobre a dengue e sua prevenção. A peça, escrita e atuada pelos alunos de graduação do ICB que fazem parte da equipe do projeto #Adote, antecedeu uma dinâmica prática que abordou a importância da vacinação e da prevenção no combate à dengue, além de introduzir conceitos como “imunização de rebanho” de maneira lúdica. A iniciativa contou com a participação especial de Jansen de Araújo, pesquisador em virologia no ICB. 

 

O projeto #Adote

O projeto #Adote é uma iniciativa de difusão e educação científica que utiliza diferentes abordagens de ensino em Microbiologia para facilitar o aprendizado de alunos do ensino básico e da graduação. As atividades abrangem desde apresentações teóricas até ações lúdicas e práticas, como jogos, peças teatrais e visitas aos laboratórios. A iniciativa também utiliza as mídias digitais como estratégia de produção e compartilhamento de conhecimento.

 

O CEDIP B3

O CEPID B3 é um centro de excelência financiado pela FAPESP que realiza pesquisas básicas na área de Microbiologia, com foco em bactérias e vírus que infectam bactérias (bacteriófagos). O projeto #Adote, vinculado ao CEPID B3, funciona como uma ponte entre esse conhecimento científico de ponta e a sociedade, especialmente por meio de ações educativas.

 

 

  • Evento dia 28/03:  
    • Professores: Rita de Cássia Café Ferreira e José Gregório Cabrera Gomez;
    • Alunos de pós-graduação: Camila Caldas Martins Correia, Giovana Tarantini e Fabio Moura Cavalcante;
    • Alunos de graduação: Bruna Rodrigues Corrêa, Carolina Diorio Nastaro, Ana Beatriz Piccolo Silva, Gabriela Queiroz Capuano, Lucas Antonio Sinoni Lima e Yasmin Nicolly dos Santos Fernandes.

 

  • Evento dia 31/03: 
    • Professores: Rita de Cássia Café Ferreira, Jansen de Araújo e Carlos Palleschi Taborda;  
    • Alunos de pós-graduação: Samuel Pereira, Lara Nardi Baroni, Nicoli Gonçalves Picinin, Gustavo de Oliveira Fenner, Fernanda Panicio Vizu, Giovana Tarantini; 
    • Alunos de graduação: Bruna Rodrigues Corrêa e Carolina Diorio Nastaro;
    • Pesquisadora Convidada: Ana Carolina Moreno.

 

  • Evento dia 01/04: 
    • Professores: Rita de Cássia Café Ferreira e Jansen de Araújo; 
    • Alunos de pós-graduação: Lara Nardi Baroni, Camila Caldas Martins Correia, Gustavo de Oliveira Fenner e Fernanda Panicio Vizu;
    • Alunos de graduação: Bruna Rodrigues Corrêa, Carolina Diorio Nastaro, Raphaela Machado Campos Lopes, Rafaela Augusto Maia e Matheus Gallardo Souza Inoue.

 

Confira a galeria de fotos das atividades aqui.

 

Bianca Bosso | CEPID-B3

10/04/25
ICB na escola: uma viagem divertida pelo mundo dos fungos

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo da Tatiana Alves dos Reis e da profa. Kelly Ishida, que trata sobre atividade de extensão realizada com alunos do Ensino Fundamental, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por elas, devido à sua qualidade informativa:


Ações educativas unem arte e ciência para apresentar a micologia a alunos do sexto ano.

 

Na última semana, membros do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) participaram de uma atividade educativa especial com três turmas do sexto ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Marechal Espiridião Rosas. A ação foi promovida pela Atividade de Extensão (AEX ICB 00018.01). A proposta buscou aproximar o universo da micologia ao cotidiano dos estudantes, por meio de ações criativas e didáticas.

 

A programação começou com uma peça de teatro interativa escrita e encenada pelos alunos de graduação e de pós-graduação em Microbiologia, que abordou de forma lúdica como os fungos estão presentes em nosso dia a dia. A apresentação destacou o papel dos fungos como agentes de deterioração e causadores de doenças, mas também como aliados da ciência e da saúde – como é o caso da penicilina.

 

 

Em seguida, foi ministrada uma aula teórica dinâmica que aprofundou o tema, aliando linguagem acessível e conteúdo técnico. O formato cativante contribuiu para manter o interesse dos alunos, que participaram ativamente. 

 

 

A terceira etapa da atividade contou com o apoio dos professores de Artes e Biologia da escola e consistiu em uma oficina prática, na qual os estudantes puderam explorar o mundo dos fungos de maneira científica e divertida. 

Durante a oficina, os estudantes observaram placas de Petri contendo fungos ambientais de diversas fontes, realizaram experimentos de fermentação com leveduras e acompanharam técnicas de isolamento de fungos a partir de diferentes materiais. Outra prática realizada foi a cultura das mãos antes e depois da lavagem ou da desinfecção com etanol 70%. 

 

Após a ação, os estudantes deram continuidade à atividade observando o crescimento dos microrganismos com o professor de Ciências, João Vieira, assim promovendo o aprendizado contínuo.

 

 

Por meio de desenhos, os alunos também demonstraram seu conhecimento sobre o Reino Fungi. Como estímulo à criatividade, a professora de artes, Marina Emiko Otsubo, anunciou que os alunos que produzirem desenhos sobre a atividade receberão nota extra, sendo os mais caprichados especialmente valorizados.

 

 

A experiência foi muito valiosa tanto para os alunos quanto para os organizadores. O entusiasmo e o envolvimento da equipe também foram destaque, como relataram Leticia Serafim, Andriéli Bácega, Vitória Velloso Fassina, Rafaela Araújo Ribeiro Guedes, Rónison Ricardo e Tatiana Reis: “Adoramos!”. “A experiência foi extremamente inspiradora!”, comentou a professora Kelly Ishida, uma das organizadoras da ação.

 

A atividade reforça o compromisso do ICB com a educação, a extensão universitária e a divulgação científica, promovendo o diálogo entre o conhecimento acadêmico e a formação de novas gerações.

 


Estudantes de graduação participantes: Rafaela Araújo Ribeiro Guedes (Farmácia, FCF/USP), Rónison Ricardo (Física, IF/USP) e Vitória Velloso Fassina (Farmácia, FCF/USP);

Estudantes de pós-graduação participantes: Andriéli Bacega e Leticia Serafim da Costa;

Funcionária participante: Tatiana Alves dos Reis;

Professores responsáveis pela AEX/ICB/USP: Rita C Café Ferreira, Jansen Araujo, Mario Henrique, Kelly Ishida, José Gregório e Robson de Souza;

Organização da atividade: Profa. Kelly Ishida (ICB/USP, São Paulo) e Prof. João Luís de Abreu Vieira (EMEF Marechal Espiridião Rosas, São Paulo).

10/04/25
Pesquisadores do ICB-USP recebem estagiários do Museu de Ciências Catavento para atualizações sobre vacinas

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo da Profa. Rita Café, que trata sobre a capacitação de estagiários do Museu de Ciências Catavento, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por ela, devido à sua qualidade informativa:


As atualizações “Vacinas em Foco: Da Teoria à Prática” capacitam os estagiários do Museu Catavento para serem multiplicadores da ciência.

 

 

Docentes, pesquisadores e alunos de pós-graduação do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP) apresentaram atualizações sobre “Vacinas em Foco: Da Teoria à Prática” voltadas para a capacitação de estagiários do Museu de Ciências Catavento. O objetivo foi aprimorar o conhecimento desses estudantes, que atuam como multiplicadores da ciência, levando informações sobre vacinas para escolas e para o público geral.

 

A atividade reuniu 50 estagiários do Museu de Ciências Catavento, que cursam Biologia em diversas universidades paulistas, e contou com uma programação abrangente. O professor Jansen Araujo, chefe do Laboratório de Vírus Emergentes, abriu o evento com uma palestra sobre a importância dos vírus e o impacto das endemias e pandemias ao longo da história. Na sequência, a Dra. Ana Carolina Ramos Moreno, do Laboratório de Desenvolvimentos de Vacinas, abordou os diferentes tipos de imunizantes, com destaque para as vacinas contra HPV e COVID-19. O Dr. Gabriel Davi Marena, pós-doutor no laboratório de Micologia, chefiado pelo Prof. Carlos Taborda, explorou a relevância dos fungos na microbiologia e sua relação com o desenvolvimento de vacinas.

 

A Profa. Dra. Rita C. Café Ferreira, do Departamento de Microbiologia e pesquisadora associada do CEPID-B3, encerrou a parte teórica destacando a importância da disseminação de informações seguras sobre vacinas e o impacto negativo das fake news.

 

 

Na etapa prática do treinamento, realizada pelos pesquisadores, alunos de pós-graduação e graduação, os estagiários visitaram os laboratórios e acompanharam as pesquisas voltadas ao desenvolvimento de vacinas. A iniciativa reforça a importância da educação científica e o papel dos estagiários do Museu Catavento na popularização do conhecimento, garantindo que a informação correta chegue ao maior número possível de pessoas.

 


Participantes do Depto. de Microbiologia ICB: Dr. Samuel Pereira, Ms. Lara Baroni, Ms. Nicole Picinin, mestrandos Gustavo Fenner, Fernanda Vizu, Giovana Tarantini e graduandos Bruna Rodrigues e Carolina Nastaro. 

Supervisor do Museu Catavento: Rodrigo Moura Silva

Fotos: Bruna Rodrigues, Carolina Nastaro, Ana Carolina Moreno e Gustavo Fenner


 

Confira a galeria de fotos da atividade aqui.

10/04/25
Frutose em excesso altera o intestino e pode aumentar o risco de diabetes tipo 2 e doenças no fígado, revelam cientistas

Estudo mostra que mudanças no intestino provocadas por alta ingestão de frutose precedem o descontrole glicêmico e o acúmulo de gordura no fígado.


Pesquisadores da Université Laval (ULAVAL), do Canadá, e do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), descobriram que o consumo excessivo de frutose – comum em dietas com alto teor de alimentos ultraprocessados – modifica a forma como o intestino responde à glicose, aumentando a absorção desse açúcar e comprometendo o controle da glicemia. Esses efeitos precedem a intolerância à glicose e o acúmulo de gordura no fígado, dois fatores ligados ao desenvolvimento do diabetes tipo 2 e da Doença Hepática Gordurosa Associada à Disfunção Metabólica (MASLD, na sigla em inglês). O artigo que descreve o estudo, High fructose rewires gut glucose sensing via glucagon-like peptide 2 to impair metabolic regulation in mice, foi capa da edição de março da revista científica Molecular Metabolism.

 

A pesquisa, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp), foi conduzida pelo pesquisador Paulo H. Evangelista-Silva, doutorando do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Biologia Funcional e Molecular do ICB-USP, em coautoria com Eya Sellami, pesquisadora da ULAVAL, e Caio Jordão Teixeira, pós-doutorando do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB-USP. O trabalho foi coordenado por Fernando Forato Anhê, professor assistente da Faculdade de Medicina da Université Laval e pesquisador do Institut Universitaire de Cardiologie et de Pneumologie de Québec (IUCPQ).

 

Absorção intestinal alterada é o gatilho do problema 

No estudo, camundongos foram alimentados durante sete semanas com uma dieta na qual 8,5% da energia vinha da frutose – proporção considerada elevada, mas ainda próxima do consumo humano médio. Em apenas três dias, os animais já apresentavam um aumento na capacidade do intestino de absorver glicose, antes mesmo do surgimento da intolerância à glicose. Após quatro semanas, a glicose já não era eficientemente removida do sangue, e ao fim do estudo, observou-se acúmulo de gordura no fígado – condição que pode evoluir para quadros mais graves, como a cirrose.

 

Curiosamente, mesmo com esses efeitos adversos, os camundongos não desenvolveram resistência à insulina nos músculos ou no tecido adiposo, indicando que o descontrole glicêmico inicial ocorre por alterações no intestino, e não por falha na resposta insulínica periférica.

 

A explicação para esse fenômeno pode estar na ação de um hormônio chamado GLP-2, produzido por células do intestino. Os pesquisadores constataram que o consumo excessivo de frutose eleva os níveis circulantes de GLP-2, hormônio que estimula o crescimento da superfície intestinal e o aumento da absorção de nutrientes. Ao bloquear o receptor desse hormônio (Glp2r) com uma droga, foi possível impedir o aumento da absorção de glicose, evitando tanto a intolerância quanto o acúmulo de gordura no fígado.

 

No entanto, a estratégia de bloqueio do Glp2r não é facilmente aplicável a humanos, pois esse mesmo receptor está envolvido na proteção da barreira intestinal contra infecções e inflamações. Isso reforça a complexidade do papel do GLP-2 na saúde metabólica.

 

“Mostramos que o aumento da absorção de glicose pelo intestino ocorre antes da intolerância à glicose. Isso abre caminho para o uso desse mecanismo como um biomarcador precoce”, afirma o professor Fernando Anhê. “O teste de absorção intestinal de glicose é barato, seguro e já utilizado em humanos — bastaria aplicá-lo em um novo contexto.”

 

Nova fase da pesquisa, com apoio do Canadian Institutes of Health Research (CIHR), vai investigar como o microbioma intestinal pode ser manipulado para reduzir os efeitos nocivos do excesso de frutose.

 

Frutas in natura continuam aliadas da saúde

O pesquisador Paulo H. Evangelista-Silva ressalta que os resultados do estudo se referem ao consumo de frutose adicionada a alimentos ultraprocessados. “Frutas in natura são ricas em fibras, que ajudam a retardar a absorção de glicose e aumentam a saciedade. Além disso, contêm nutrientes benéficos para a saúde intestinal e hepática”, explica.

 

A pobreza nutricional dos ultraprocessados, com baixo teor de fibras e altos níveis de açúcares adicionados – como o xarope de milho e o açúcar de cana –, sobrecarrega o organismo. Evangelista-Silva recomenda priorizar alimentos in natura, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira, desenvolvido pelo Ministério da Saúde com apoio da Opas/Brasil.

 

O açúcar de cana-de-açúcar e o xarope de milho são exemplos de açúcares ricos em frutose amplamente utilizados pela indústria em alimentos ultraprocessados. Confira abaixo uma lista com alguns exemplos de alimentos ultraprocessados que contêm frutose em excesso:

 

Alimentos ultraprocessados com alta concentração de frutose incluem:

  • Refrigerantes e sucos industrializados (mesmo os néctares “100% fruta”)
  • Cereais matinais e barras adoçadas
  • Biscoitos recheados e doces industrializados
  • Pães e bolos prontos (como bisnaguinhas e pão de forma)
  • Chás prontos e bebidas esportivas adoçadas
  • Molhos industrializados (ketchup, barbecue etc.)
  • Iogurtes adoçados, sobremesas lácteas e geleias

 

O estudo teve apoio das agências FRQS (Fonds de Recherche du Québec – Santé), Fondation IUCPQ e FAPESP (processos 2020/12201-4 e 2022/14545-8).

 

O artigo foi capa da edição de março da revista científica Molecular Metabolism.

Paulo H. Evangelista-Silva, pesquisador e doutorando do ICB-USP, conduziu a pesquisa.

 

O estudo foi realizado na Faculdade de Medicina da Université Laval, no Canadá.

Confraternização dos pesquisadores da Université Laval (ULAVAL), do Canadá, e do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

Ana Carolina Guerra | Acadêmica Agência de Comunicação e NUCOM-ICB

01/04/25
Período pós-natal é importante para a qualidade da microbiota intestinal e para o prognóstico da hipertensão arterial, revela pesquisa do ICB-USP

O estudo também mostrou que animais com predisposição para hipertensão arterial já apresentam desequilíbrio na microbiota intestinal antes do desenvolvimento da doença.


Pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) demonstrou a relação do período pós-gestacional, que compreende a amamentação, com a microbiota intestinal e a hipertensão arterial. O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e realizado durante o doutorado da biomédica Patrizia Dardi, com orientação da professora Luciana Venturini Rossoni. 
 

A pesquisa revela que ratos com predisposição genética para hipertensão arterial (SHR), quando amamentados por fêmeas com pressão arterial normal (normotensas), apresentam níveis de pressão arterial mais baixos na vida adulta em comparação aos SHR que foram amamentados por suas próprias mães hipertensas. Esse resultado reforça a importância do período pós-natal — especialmente o ambiente da amamentação — na formação da saúde cardiovascular futura.
 

Além disso, o estudo descobriu que os SHR já apresentam alterações na microbiota desde as primeiras semanas de vida, quando ainda são normotensos. Essa característica sugere que as mudanças na qualidade da microbiota precedem o desenvolvimento da hipertensão arterial, e indica que o período de amamentação é uma importante janela para a prevenção e/ou redução da elevação dos níveis de pressão arterial, contribuindo para a melhora do prognóstico dessa condição nos adultos.
 

Para avaliar a participação do período pós-gestacional sobre a estrutura, composição e função da microbiota, assim como nos valores de pressão arterial desenvolvidos, as pesquisadoras analisaram ratos controle (Wistar) e SHR submetidos a um protocolo chamado de “amamentação cruzada”. Nesse protocolo, os filhotes eram retirados de suas mães biológicas horas após o nascimento. As ninhadas provenientes das mães hipertensas eram realocadas para serem amamentadas por mães normotensas, enquanto as mães SHR receberiam os filhotes Wistar para amamentar (Imagem 1). Essa troca era mantida por todo o período de amamentação que, em ratos, leva 21 dias. Junto a esses dois grupos experimentais, o trabalho também contava com animais Wistar e SHR amamentados por suas próprias mães, que seriam os grupos controle, para demonstrar como o período pós-gestacional de cada linhagem estudada afetaria a microbiota dos filhotes e o desenvolvimento da hipertensão arterial durante seu crescimento. 

 

Imagem 1: Amamentação cruzada.

 

A pesquisa acompanhou os animais ao longo dos primeiros seis meses de vida, quando atingem a vida adulta, e detectou que os ratos hipertensos que foram amamentados na infância por fêmeas normotensas (mães de leite) apresentavam a pressão arterial 10 mmHg menor que os animais hipertensos amamentados por suas mães biológicas hipertensas, o que equivale a um valor 5% menor. “Essa queda não significa que o animal terá a pressão arterial no mesmo nível do grupo normotenso, ele ainda é hipertenso; porém, existem dados na literatura, em humanos, que apontam que uma queda de 10 mmHg na pressão arterial diminui o risco de lesão dos órgãos-alvo como o coração, rim, retina, dentre outros”, explica Rossoni.

 

Microbiota intestinal

Também foi analisada a microbiota intestinal dos ratos em suas primeiras semanas de vida, quando todos os grupos ainda eram normotensos (seis semanas). Os animais com predisposição para hipertensão arterial amamentados por mães de leite normotensas apresentaram uma melhora na “qualidade” da microbiota, que ficou mais parecida com a do grupo controle. 
 

Segundo Dardi, a microbiota é composta por grupos de microrganismos de maior e de menor abundância. O grupo de maior abundância, que é o mais avaliado em trabalhos da área, tende a ser semelhante em hipertensos e normotensos. A diferença foi notada no grupo de menor abundância, que apesar de não apresentar aumento da diversidade dos gêneros bacterianos, demonstrou um “refinamento” desses gêneros, aproximando a constituição da microbiota dos SHR amamentados por fêmeas normotensas daquela caracterizada nos filhotes normotensos controle, amamentados por suas próprias mães.
 

Os ratos normotensos amamentados por mães hipertensas também apresentaram mudanças na qualidade e função da microbiota, que se tornou uma mistura entre a microbiota da mãe biológica, que gestou o filhote, e da mãe de leite hipertensa. Porém, de forma interessante, na vida adulta esses animais não tiveram qualquer mudança dos níveis de pressão arterial, mostrando que o desenvolvimento da hipertensão arterial não depende exclusivamente de mudanças da microbiota e reafirmando a participação de vários fatores no surgimento dessa condição. As pesquisadoras planejam dar seguimento à pesquisa estudando quais são as consequências dessa alteração na microbiota nestes animais normotensos, agora verificando os órgãos-alvo envolvidos no controle da pressão arterial. 

 

A diferença da microbiota dos SHR que não passaram pelo protocolo de amamentação cruzada em relação ao grupo normotenso (Wistar) revela que a disbiose intestinal, que é o desequilíbrio da microbiota, surge antes da hipertensão arterial. Anteriormente a essa pesquisa, acreditava-se que a disbiose acompanhava o aumento da pressão arterial dos SHR e, portanto, seria adquirida juntamente ao desenvolvimento da hipertensão. 
 

Com os novos resultados apresentados, o estudo consegue chamar a atenção da comunidade cientifica para outro problema: a falta de informações sobre a microbiota intestinal da mãe hipertensa durante o período pós-natal. Uma vez que a microbiota da mãe é transmitida para o filhote durante o parto, na amamentação e nos momentos de cuidados, é fundamental entender se a disbiose intestinal do filhote não teria sua origem na microbiota da mãe. Com isso, o grupo planeja no futuro estudar a relação da disbiose intestinal com a hipertensão arterial também em fêmeas.

 

Funcionalidade da microbiota

Nos últimos anos, os estudos sobre a microbiota intestinal têm chamado bastante atenção para alguns gêneros bacterianos produtores dos chamados ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), como o propionato, o acetato e o butirato. Investigando essa linha, o estudo ainda revelou que os animais com predisposição para hipertensão arterial apresentavam menor quantidade de butirato quando comparado aos animais normotensos. 
 

Antes da pesquisa de Dardi, sabia-se os ratos SHR jovens apresentavam dificuldade de absorver os AGCC produzidos pela microbiota no intestino por apresentarem menor expressão de transportadores desses metabólitos. Contudo, acreditava-se que haveria uma alteração na produção desses metabolitos apenas na idade adulta, em consequência da disbiose intestinal, promovendo principalmente uma menor disponibilidade de butirato. A suplementação de SHR adultos com butirato já foi descrita na literatura promovendo redução dos valores de pressão arterial. Contudo, em humanos, um estudo clínico demonstrou que o tratamento com butirato resultou no efeito contrário, levando ao aumento da pressão arterial e sugerindo que o efeito desse AGCC sobre a hipertensão arterial ainda precisa ser melhor compreendido antes que possa ser empregado como ferramenta de controle dessa condição em pacientes. 
 

No trabalho de Dardi e colaboradores, foi demonstrado que a produção de butirato estava prejudicada nos SHR antes mesmo do surgimento da hipertensão arterial e que a amamentação dos SHR em fêmeas normotensas não alterava esse padrão. No entanto, a menor expressão dos transportadores de AGCC no intestino dos animais foi influenciada pela troca do ambiente pós-natal, independentemente do animal apresentar ou não a pré-disposição à hipertensão. 
 

Outro produto da microbiota avaliado no trabalho foi o sulfeto de hidrogênio (H₂S) que, em níveis considerados “fisiológicos’, apresenta importante papel na manutenção da integridade da parede do intestino. Segundo Dardi, acredita-se que o H₂S ajude no tratamento da hipertensão arterial nos SHR, visto que, quando administrado em um animal jovem, ocorre um retardo na elevação dos níveis de pressão arterial apresentados por esses animais. 
 

Por isso, achava-se que esses hipertensos tinham menor quantidade de H₂S do que os normotensos. Contudo, a pesquisa do ICB-USP comprovou que os SHR têm maior produção de H₂S nas fezes – padrão esse que também não foi alterado com a amamentação cruzada. A quantificação desse metabolito nas fezes dessa linhagem de animais hipertensos é inédita na literatura e abre novos caminhos para compreender como os diferentes produtos da microbiota intestinal podem influenciar o ambiente intestinal, a microbiota, o desenvolvimento e a manutenção da hipertensão arterial.

 

Confira o artigo na íntegra no link.

 

Ana Carolina Guerra | Acadêmica Agência de Comunicação e NUCOM-ICB

26/03/25
Microbiologia Sem Fronteiras: universitários compartilham ciência com Ensino Médio

Após o NUCOM-ICB ter recebido o texto abaixo da Profa. Rita Café, que trata sobre atividade de extensão desenvolvida pelo ICB-USP no IFSP, divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por ela, devido à sua qualidade informativa:


Alunos do Instituto de Ciências Biomédicas da USP compartilham a microbiologia com estudantes do Instituto Federal de São Paulo.

 

Na última semana, alunos do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP saíram da Universidade para compartilhar saberes de microbiologia com os estudantes do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em uma atividade de extensão que uniu teoria, prática e aprendizado lúdico.

 

Durante a atividade de extensão (AEX0018.01), os universitários apresentaram o fascinante mundo dos microrganismos, abordando vírus e bactérias de forma didática e interativa. A programação contou com uma introdução teórica, uma experimentação prática e a apresentação de uma cartilha educativa desenvolvida como parte do Projeto #Adote.  

 

A ação começou com a exposição teórica de um aluno de pós-graduação, que introduziu os vírus e destacou sua importância na saúde e no meio ambiente. Em seguida, os universitários conduziram a atividade “Sob as Lentes das bactérias”, permitindo que os estudantes observassem bactérias no microscópio e explorassem suas características.

 

O ponto alto da visita foi a apresentação da cartilha “O Rato Wellington: Uma Aventura pelo Mundo das Bactérias”, criada pelos alunos do ICB-USP. Nessa história envolvente, os estudantes “adotaram” uma bactéria do gênero Bacillus, uma bactéria envolvente que esporula e é interessante por sua resistência e versatilidade no ambiente.

 

Trazer materiais lúdicos e interativos para sala de aula torna o aprendizado mais acessível e envolvente, facilitando a compreensão dos principais conceitos da microbiologia. A troca entre universidade e alunos do Ensino Médio foi enriquecedora, despertando a curiosidade e interesse pela ciência e grande engajamento dos alunos.

 

Essa iniciativa dos universitários, com a supervisão dos professores, foi um grande sucesso, reforçando o papel das atividades extensionistas na disseminação do conhecimento científico e na construção de pontes entre universidade e escola.

 


Atividade de extensão promovida pelos:

  • alunos de graduação do ICB: Bruna Rodrigues Corrêa, Carolina DIorio Nastaro, João Pedro Andriolo Ramos, Maria Luiza Barbosa Bastos, Mariana Mayumi Hara Maciel, Nathaly Andreia Gabriel da Rocha e Rogers Andrade.
  • alunos de pós-graduação do ICB: Fernanda Panicio Vizu, Gustavo de Oliveira Fenner, Lara Nardi Baroni e Nicole Gonçalves Picinin.
  • coordenação: Profa. Dr. Rita de Cássia Café Ferreira e Prof. Dr. Jansen de Araújo, do ICB-USP. Prof. Dr. Flávio Krzyzanowski Junior, Camila Rodrigues Cabral e Nancy da Rocha Torres Pavione, do IFSP.
  • fotos: Bruna Rodrigues Corrêa.

Confira as fotos capturadas dos alunos do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) envolvidos na atividade de extensão promovida pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

 

 

 

25/03/25
Estudo revela possível caminho para tratar déficits respiratórios no Parkinson

Pesquisa do ICB-USP identifica relação entre falhas respiratórias e sono e aponta estimulação cerebral seletiva como alternativa promissora.


Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB-USP) descobriram um possível caminho para tratar déficits respiratórios em pacientes com Doença de Parkinson – um sintoma pouco estudado, mas que pode levar a complicações graves, como pneumonia, uma das principais causas de óbito nesses pacientes. Embora as dificuldades motoras sejam as manifestações mais conhecidas da doença, a pesquisa revelou que problemas respiratórios também ocorrem, especialmente durante o sono – que ainda não possui um tratamento eficaz. O estudo, publicado na revista iScience, mostrou que a estimulação seletiva de um núcleo cerebral foi capaz de reverter essas falhas respiratórias em camundongos, apontando para novas possibilidades terapêuticas.

 

“As complicações respiratórias no Parkinson geralmente surgem em estágios mais avançados da doença e, por isso, são menos exploradas. Mas elas têm um impacto significativo na qualidade de vida e na sobrevida dos pacientes”, explica a professora Ana Carolina Takakura, coordenadora do estudo. “Nosso objetivo foi entender quando essas alterações acontecem e se há uma forma de revertê-las. Descobrimos que elas ocorrem exclusivamente durante o sono, e conseguimos restaurar a função respiratória nos camundongos estimulando seletivamente um grupo específico de neurônios.”

 

Coordenado pela professora Takakura, do Departamento de Farmacologia do ICB-USP, o Laboratório Controle Neural Cardiorrespiratório dedica-se há mais de 10 anos ao estudo de problemas respiratórios causados pelo Parkinson. Sua prevalência está relacionada com os casos de pneumonia, uma das principais causas de óbito de pacientes. “Minha formação, desde o doutorado, tem sido voltada para o controle neural da respiração. Quando comecei a estudar o Parkinson, minha pergunta fundamental era: será que, além das regiões do cérebro responsáveis pelos movimentos, as áreas que controlam a respiração também se degeneram?”, explica a pesquisadora.

 

Ao longo dos anos, os resultados mostraram que sim: em animais — ratos e camundongos — submetidos ao modelo experimental da doença, há uma redução na frequência respiratória, além da degeneração de alguns núcleos específicos que controlam a respiração. O grande avanço do novo estudo, liderado pela pesquisadora Nicole Miranda, foi observar a relação de tudo isso com o sono.

 

“Apneias respiratórias são uma consequência comum da Doença de Parkinson: afetam, junto de outras alterações no sono, cerca de 70% dos pacientes. E, apesar de serem classificadas dentro de estudos do sono, as apneias também são um problema respiratório”, explica Takakura. Foi dessa intersecção, notada por Miranda durante seu doutorado, que surgiu a ideia de investigar se as alterações respiratórias observadas nos estudos anteriores possuíam alguma relação com o ciclo de sono. Antes, não se sabia se as mudanças na respiração aconteciam quando o animal estava acordado ou dormindo. Os camundongos estudados podiam dormir durante os registros, mas esse fator não era monitorado diretamente. “Foi algo que nunca havíamos medido antes. Com os novos experimentos, conseguimos finalmente estabelecer essa relação, o que abriu uma nova perspectiva para os estudos”, diz Takakura.

 

O primeiro passo de Miranda foi mapear, por meio de eletroencefalogramas e eletromiografias, as fases de sono dos camundongos e, paralelamente, observar a respiração dos animais. O estudo diferenciou as fases de sono R.E.M (movimento rápido dos olhos) e não R.E.M, que têm características distintas em termos de atividade cerebral e tônus muscular. O que foi constatado é que as alterações na respiração observadas em estudos anteriores não só eram mais expressivas durante o sono, como aconteciam exclusivamente nesse estado. Além disso, foi analisada a quantidade de episódios de apneia, que também foi maior enquanto os animais dormiam.

 

Com essa informação em mãos, buscou-se investigar possibilidades terapêuticas por meio do estímulo seletivo de algum núcleo do cérebro. “Escolhemos o núcleo tegmental látero-dorsal, também chamado de LDT, por ser um núcleo conhecido por sua correlação forte tanto com o sono quanto com a Doença de Parkinson e que, além disso, também se projeta para as regiões respiratórias”, explica a professora.

 

Para realizar esse estímulo, foi injetado um vírus no núcleo LDT, fazendo com que os neurônios desejados dessa região passassem a expressar um receptor — ou seja, deixando-os “capazes de serem estimulados seletivamente”. Depois, foi aplicado um fármaco, capaz de se ligar exclusivamente ao receptor e que foi responsável por provocar os estímulos nesses neurônios. Dessa forma, as alterações respiratórias foram revertidas, bem como o aumento na quantidade de apneias. “O núcleo LDT também sofre perda de neurônios devido à Doença de Parkinson, mas vimos que mesmo o estímulo dos neurônios restantes foi suficiente para tratar problemas respiratórios”, diz Takakura.

 

Denominado quimiogenética, o método ainda é pouco acessível e restrito às pesquisas clínicas, mas pode ser uma possibilidade futura para tratamentos. Segundo a professora, existem, atualmente, outras possibilidades terapêuticas de estímulo cerebral, mas que afetam regiões inteiras e não apenas tipos de neurônios específicos. “Não sabemos se uma estimulação geral teria o mesmo efeito, é algo a ser investigado. De qualquer forma, a estimulação seletiva é sempre melhor, pois elimina efeitos adversos. Existem estudos trabalhando para viabilizar uma estimulação seletiva, e quando isso acontecer, será um grande passo para o tratamento dos sintomas do Parkinson.” Ela ainda aponta que o metabólito clozapina-N-oxide (CNO), que é gerado a partir de uma substância injetada e atua ativando seletivamente os neurônios modificados no experimento, ainda precisa ser melhor estudado quanto à segurança e eficácia em humanos.

 

Hoje, um dos tratamentos para o Parkinson é a estimulação cerebral profunda, utilizada para melhorar os sintomas motores da doença. No entanto, essa abordagem não trata diretamente as alterações respiratórias, que continuam sem uma solução terapêutica eficaz.

 

Para o futuro, Takakura pretende caracterizar as alterações de sono em humanos, em uma parceria com o Instituto do Coração (InCor) e com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

 

Felipe Parlato | Acadêmica Agência de Comunicação

17/03/25