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Duas pesquisas do ICB-USP revelam funções de proteínas versáteis que controlam a identidade celular

Após o NUCOM-ICB ter recebido, revisado e editado o texto das Profas. Marilene Hohmuth Lopes e Nathalie Cella, o qual trata de duas pesquisas que revelaram novas funções de proteínas multifuncionais, divulgamos abaixo a íntegra desta matéria produzida por elas, devido à sua qualidade informativa*:


Em um feito incomum e de grande relevância científica duas professoras do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) tiveram artigos publicados em sequência no mesmo volume da Communications Biology, revista internacional de prestígio do portfólio Nature.

 

Os estudos, ambos financiados pela FAPESP, revelam novas funções de proteínas multifuncionais que ajudam a compreender como as células mantêm sua identidade e coordenam processos essenciais à vida. Embora enfoquem proteínas distintas, os trabalhos se unem por um tema central: a versatilidade proteica e seu papel como eixo de controle da organização e do destino celular.

 

STIP1:  a guardiã da pluripotência – A pesquisa liderada pela professora Marilene Hohmuth Lopes desvenda o papel crucial da proteína STIP1, conhecida por sua dupla função de co-chaperona e reguladora da homeostase proteica, na manutenção da pluripotência de células-tronco embrionárias.

 

Ao utilizar modelos murinos geneticamente modificados e linhagens de células-tronco, o grupo demonstrou que STIP1 é indispensável para o desenvolvimento embrionário, controlando a estabilidade genômica, a sobrevivência celular e a expressão de genes de pluripotência.

 

Esses resultados, fruto da tese de doutorado da aluna Camila Felix de Lima Fernandes, estabelecem STIP1 como um novo regulador central da proteostase em células-tronco, abrindo caminho para investigações sobre mecanismos fundamentais do desenvolvimento e estratégias em medicina regenerativa.

 

 

Descobrimos que STIP1 atua como uma espécie de guardiã das células-tronco, ela garante que o maquinário celular funcione com precisão durante as fases mais delicadas da vida”, destaca a Profa. Marilene Hohmuth Lopes.

 

 

Imagem representativa de blastocisto murino evidenciando a expressão uniforme da proteína STIP1 (verde) e do marcador de pluripotência Sox2 (amarelo), bem como a sobreposição dos sinais (Merge).

 

Maspin: um modulador da arquitetura celular – Já o grupo da professora Nathalie Cella explorou a dinâmica da proteína Maspin, proteína abundante e ubíqua nas células historicamente descrita como supressor tumoral. O estudo revelou uma nova função na regulação da morfologia e da arquitetura epitelial.

 

Combinando abordagens proteômicas, análises funcionais e de imagem, a equipe mostrou que Maspin interage diretamente com dois tipos de citoesqueleto durante a adesão e a divisão celular, atuando como um organizador estrutural que assegura a integridade dos tecidos.

 

Esses achados do trabalho de tese de doutorado de Luiz Eduardo da Silva ajudam a explicar por que Maspin pode ter papéis opostos,  protetor ou promotor tumoral, dependendo do contexto celular, e lançam luz sobre mecanismos críticos para a manutenção do epitélio e para doenças como o câncer.

 

 

“Nossa trajetória com Maspin mostra como a ciência básica, quando guiada pela curiosidade e pela persistência, pode revelar novos aspectos de proteínas já conhecidas e redefinir conceitos estabelecidos”, afirma a Profa. Nathalie Cella.

 

 

A imagem ilustra a diferença no arranjo dos fusos mitóticos durante a mitose. Nota-se que na ausência de maspina (painel inferior) a distância entre os polos (pontos de onde o fuso mitótico parte) é menor do que nas células normais (painel superior).

 

Embora investiguem moléculas diferentes, os dois trabalhos têm em comum o objetivo de convergir para uma mesma conclusão: proteínas multifuncionais são peças-chave para a identidade celular.

 

Como ressaltam as autoras, essas proteínas “podem atuar em diversos compartimentos,  do núcleo à membrana plasmática, e até serem secretadas, o que explica sua influência ampla em processos biológicos complexos”.

 

A publicação quase simultânea dos dois artigos na Communications Biology atesta a excelência da pesquisa básica brasileira. Este avanço, fruto de diferentes  linhas de investigação dentro do mesmo departamento do ICB-USP e de colaborações internacionais com o Dr. Marco Prado (University of Western Ontario) e Susanne Bechstedt (McGill University), ilustra como a ciência de fronteira desvenda os mecanismos da vida. 

 

“Avanços como esses só se concretizam com investimento contínuo em ciência básica e na formação de jovens cientistas”, enfatizam as pesquisadoras.

 

Essas descobertas projetam a ciência brasileira no cenário internacional. Elas são um testemunho claro da força do ICB-USP e de seu Programa de Pós-Graduação em Biologia de Sistemas em formar novos cientistas e produzir pesquisa de ponta com impacto global.

 

*Texto revisado e editado por NUCOM-ICB