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Além dos nove meses: como a gravidez reprograma o corpo feminino de forma permanente

Após o NUCOM-ICB ter recebido, revisado e editado o texto do servidor técnico administrativo Tegnus Franciscus Lamas, o qual relata pesquisa sobre como a experiência reprodutiva induz mudanças permanentes no corpo feminino, divulgamos abaixo a íntegra desta matéria produzida por ele, devido à sua qualidade informativa*:


A gravidez e a lactação são frequentemente descritas como os desafios fisiológicos mais intensos que o corpo feminino pode enfrentar. No entanto, a ciência está descobrindo que o impacto da maternidade vai muito além do nascimento do bebê ou do período do puerpério imediato. Novas pesquisas indicam que a “experiência reprodutiva” — um termo que engloba o acasalamento, a gestação, o parto e a amamentação — pode induzir mudanças permanentes na fisiologia, no cérebro e até mesmo na estrutura física das mulheres.

 

Um novo ponto de ajuste metabólico – Estudos com modelos animais mostram que, mesmo muito tempo após o desmame, as fêmeas que passaram pela experiência reprodutiva (RE) mantêm um peso corporal significativamente mais elevado do que as fêmeas virgens da mesma idade. Esse fenômeno sugere que, após a gravidez, é estabelecido um novo “ponto de ajuste” (set point) para o peso corporal.

 

O mecanismo por trás disso reside, em grande parte, no hipotálamo, a central de controle de energia do cérebro. Durante a gestação, ocorre um aumento na expressão da proteína SOCS3, que bloqueia a ação da leptina (o hormônio da saciedade), levando a um aumento no apetite para suprir as demandas energéticas do feto e da futura lactação. Se essa resistência à leptina persistir após o parto, ela favorece a retenção de gordura a longo prazo. Além disso, observou-se uma redução permanente na atividade física espontânea em fêmeas após a reprodução, o que contribui para a adiposidade.

 

A surpresa do crescimento permanente – O estudo brasileiro, publicado na Revista eLife na edição de agosto de 2026,  intitulado “Reproductive experience promotes permanent body growth independently of growth hormone” (A experiência reprodutiva promove o crescimento corporal permanente independentemente do hormônio do crescimento, em tradução livre), trouxe revelações surpreendentes sobre o anabolismo na gestação. Pesquisadores demonstraram que a primeira gravidez promove um crescimento somático permanente (aumento da massa magra e do comprimento do corpo) em camundongos. O artigo tem como primeiro-autor o pós-doutorando Gabriel Orefice de Souza e como orientador o professor José Donato Júnior, ambos do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

 

O dado mais relevante da pesquisa é que esse crescimento ocorre mesmo em animais com deficiência severa de Hormônio do Crescimento (GH), sugerindo que a gravidez ativa vias anabólicas alternativas e redundantes, que independem do eixo somatotrófico tradicional.

 

Essa descoberta não se limita aos laboratórios. O estudo investigou um grupo de mulheres em Itabaianinha (Sergipe) que possuem uma mutação genética rara que causa deficiência de GH. Os dados revelaram que as mulheres do mesmo grupo genético que tiveram filhos eram, em média, 7 cm mais altas do que as que nunca tinham engravidado. Relatos clínicos também indicaram aumentos permanentes no tamanho dos pés e no diâmetro dos dedos após o parto, confirmando que a gestação, em certas condições específicas, pode remodelar tecidos e estruturas ósseas em algumas mulheres.

 

Programação epigenética e o papel da amamentação – A ciência também está mergulhando no nível molecular para entender como essas mudanças se tornam duradouras. A combinação de gravidez e lactação induz modificações epigenéticas no hipotálamo, como o aumento da expressão da enzima HDAC8 e mudanças na acetilação de histonas em neurônios que regulam o balanço energético.

 

O papel da lactação revelou-se crucial: em alguns modelos, as mudanças metabólicas de longo prazo, como a redução da atividade física e o aumento da adiposidade periuterina, só ocorreram de forma marcante quando a fêmea também amamentava.

 

Um alerta para a saúde pública – Essas descobertas têm implicações profundas para a saúde das mulheres e para as políticas públicas no Brasil. Dados do sistema Vigitel mostram que o excesso de peso entre as mulheres brasileiras saltou de 38,5% em 2006 para 60,6% em 2024, enquanto a obesidade subiu de 12,1% para 26,7% no mesmo período.

 

Saber que a gravidez funciona como um “teste de estresse” metabólico significa que o período pós-parto é uma janela de oportunidade crítica. A retenção de peso pós-parto e as alterações na homeostase da glicose são preditores significativos para o desenvolvimento de diabetes tipo 2, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares em fases posteriores da vida da mulher.

 

Fontes:

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Vigitel Brasil 2006-2024: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal entre 2006 e 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_2006_2024_doencas_cronicas.pdf. Acesso em: 26 jun. 2026.

 

DE SOUZA, Gabriel O. et al. Reproductive experience promotes permanent body growth independently of growth hormone. eLife, [s. l.], v. 15, p. RP111456, 2026. DOI: https://doi.org/10.7554/eLife.111456.1.

 

LADYMAN, Sharon Rachel; KHANT AUNG, Z.; GRATTAN, David R. Impact of pregnancy and lactation on the long-term regulation of energy balance in female mice. Endocrinology, [s. l.], v. 159, n. 6, p. 2324-2336, jun. 2018. DOI: 10.1210/en.2018-00057.

 

TEIXEIRA, Pryscila D. S. et al. Brain STAT5 Modulates Long-Term Metabolic and Epigenetic Changes Induced by Pregnancy and Lactation in Female Mice. Endocrinology, [s. l.], v. 160, n. 12, p. 2903-2917, dez. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1210/en.2019-00639. Acesso em: 26 jun. 2026.

 

ZAMPIERI, Thais T. et al. SOCS3 deficiency in leptin receptor-expressing cells mitigates the development of pregnancy-induced metabolic changes. Molecular Metabolism, [s. l.], v. 4, n. 3, p. 237-245, mar. 2015. DOI: 10.1016/j.molmet.2014.12.005.

 

*Texto revisado e editado por NUCOM-ICB