Após o NUCOM-ICB ter recebido, revisado e editado o texto do Prof. Luis Carlos de Souza Ferreira e Dra. Jéssica Pires Farias, o qual aborda pesquisa sobre variantes recentes da COVID-19 e a imunidade infantojuvenil, divulgamos abaixo a íntegra desta matéria produzida por eles, devido à sua qualidade informativa*:
Um trabalho brasileiro de alta relevância científica para o contexto da vacinação contra a COVID-19 no país foi publicado na Expert Review of Vaccines, uma das revistas internacionais mais importantes na área de vacinologia. Coordenado pelos professores Luís Carlos de S. Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), e Jaime Henrique Amorim, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), o estudo foi desenvolvido em colaboração com outros pesquisadores do ICB-USP, UNIFESP, Hospital Israelita Albert Einstein, UFPE e outras instituições.
O objetivo do estudo foi avaliar a resposta humoral de crianças e adolescentes que receberam as vacinas de primeira geração, ainda baseadas no vírus original de 2020. Para tanto, foram testadas três versões do vírus: Vírus ancestral (Wuhan), Omicron BA.1 (Omicron original) e Omicron JN.1, a variante mais recente e predominante no período do estudo. Além disso, a equipe realizou uma análise computacional detalhada para entender como as mutações das variantes afetam os “alvos” reconhecidos por anticorpos.
Os resultados mostraram que as crianças e adolescentes vacinados apresentaram bons níveis de anticorpos contra o vírus original, refletindo a eficácia das vacinas em induzir memória imunológica para aquela cepa. Entretanto, a capacidade desses anticorpos de neutralizar variantes como BA.1 e, principalmente, JN.1 foi reduzida, devido ao intenso acúmulo de mutações nessas versões mais recentes do vírus, revelando uma lacuna importante na proteção das crianças brasileiras contra as atuais variantes circulantes do SARS-CoV-2. Os achados não significam que esse público esteja “sem proteção”, mas reforçam a urgência de atualizar as formulações pediátricas, garantindo uma proteção mais robusta. A imunidade contra vírus respiratórios é multicamadas: envolve anticorpos, mas também respostas de células T e B de memória, que não foram avaliadas neste estudo e podem continuar oferecendo proteção importante contra formas graves da doença.
As primeiras autoras Dra. Jéssica Pires Farias – pós-doutoranda do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas (LDV) no ICB-USP, atualmente em estágio de pesquisa no exterior BEPE na Università degli Studi di Verona – e Msc. Milena Souza – doutoranda do IVOB/UFOB, atualmente em doutorado sanduíche na Universidade de Verona, sob supervisão do Prof. Dr. Donato Zipeto -, destacam que os achados indicam a necessidade de ampliar e atualizar a proteção vacinal desse público.
Elas ressaltam ainda que, diante do cenário atual dominado pela variante XFG, cujas mutações são ainda mais extensas que as observadas na JN.1, é possível que a capacidade de neutralização em crianças seja ainda menor ou até inexistente, caso o padrão de variação antigênica viral se mantenha. Por isso, reforçam que vacinas pediátricas atualizadas são essenciais para reduzir a vulnerabilidade das crianças e mitigar a transmissão comunitária, contribuindo para evitar o surgimento de novas variantes.
O artigo “Antigenic drift in SARS-CoV-2: diminished vaccine protection in pediatric populations against Omicron and its JN.1 subvariant” pode ser lido em: https://doi.org/10.1080/14760584.2025.2597455
Dra. Jéssica Pires Farias, primeira autora do estudo
Msc. Milena Souza, co-primeira autora do estudo
Dra. Jéssica Pires Farias, primeira autora do estudo
*Texto revisado e editado por NUCOM-ICB