Estudo utiliza replicação viral para ativar morte do mosquito Aedes aegypti.
Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) estão testando um novo método para combater a transmissão de arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. “Controlar o mosquito é difícil devido a abundância de criadouros e ao aumento da resistência a inseticidas nas populações de vetores. Queremos controlar a transmissão da doença por meio do mosquito Aedes aegypti geneticamente modificado, que, em contato com o vírus, tem morte celular”, diz a bioquímica Margareth Capurro, professora do Departamento de Parasitologia do ICB-USP e coordenadora da pesquisa. “A ideia não é fazer a supressão total da população desse mosquito, mas apenas daqueles infectados”.
Os primeiros resultados do estudo, focados em dengue tipo 2, acabam de ser publicados em artigo na revista Nature. “Nosso artigo mostra que a infecção viral pode ser usada para induzir a apoptose [morte celular] dos mosquitos transgênicos infectados. Trata-se de uma prova de conceito da potencialidade do estudo, que, entretanto, precisa ser aprimorado”, relata Capurro “Até agora conseguimos eliminar, por meio da replicação viral, cerca de trinta por cento das fêmeas infectadas, mas estamos trabalhando para que esse número atinja cem por cento”.
A pesquisa começou em 2008, no ICB-USP. “Nessa época, nossa equipe trabalhava com diferentes construções de genes, principalmente para combater a malária. Sabíamos que se bloqueássemos noventa e nove por cento do parasita dentro do mosquito, este um por cento restante continuaria transmitindo a doença. Então veio a ideia: será que a gente não consegue fazer um modelo em que o mosquito morre ao ficar infectado?”, lembra Capurro.
Para chegar a esse estágio descrito no artigo da Nature, a equipe do estudo desenvolveu uma proteína quimérica que utiliza o sistema de replicação viral e ativa a mortalidade celular nos mosquitos. “Nossa meta era descobrir de que forma poderíamos ativar o mecanismo de mortalidade celular no decorrer desse processo”, conta a pesquisadora.
Como se sabe, o vírus da dengue é composto por um filamento único de ácido ribonucleico (RNA). “O RNA entra inteiro na célula hospedeira e produz uma poli proteína. Esta, para ser processada, utiliza enzimas (proteases) da célula hospedeira para liberar pedaços do vírus e assim montar a partícula viral. Nesse processo, ocorre a formação do complexo N2B/NS3, que é uma protease específica do vírus. Ela é responsável pela clivagem da proteína capsídeo, que é importante na estrutura final da partícula viral”, diz a especialista.
O próximo passo foi utilizar o sítio de clivagem da N2B/NS3 na construção da proteína quimérica. Desta forma, ao entrar em contato com as partículas virais, o sistema de replicação viral reconhece o sítio de clivagem da poliproteína da dengue, assim como a proteína quimérica. Esse processo resulta na liberação da proteína Michelob-x (Mx). “A protease viral N2B/NS3 desencadeou a morte das células do mosquito infectado ao liberar no citoplasma a proteína Mx, que é ativada pela presença do vírus da dengue tipo 2”, prossegue Capurro. “A consequência da liberação da Mx é ativação da cascata de morte celular programada”.
De acordo com a especialista, o artigo publicado na revista Nature mostra que é possível criar um Aedes aegypti transgênico que carrega a forma inativa do Mx. “No caso, o Mx, gatilho que leva à morte celular, será ativado apenas na presença do vírus da dengue tipo 2”, afirma Capurro. “Nossa cepa transgênica exibiu uma taxa de mortalidade significativamente maior que o controle não transgênico infectado pelo vírus da dengue tipo 2”.
Com a morte dos Aedes aegypti infectados, sobram os mosquitos que não carregam o vírus e, portanto, não vão transmitir a doença. “O Aedes aegypti seria então apenas uma praga urbana, como pernilongo ou borrachudo. Ele vai trazer incômodos, como picadas, mas nada além disso”.
Outra vantagem é poder combater todas as formas de transmissão do vírus. “A forma mais comum é quando as fêmeas de Aedes aegypti picam os humanos e provocam a doença, mas essa não é a única maneira de espalhar o vírus”, diz Capurro. “Entre os mosquitos, há a transmissão vertical, que acontece de mãe para filho, e a larva, seja macho ou fêmea, nasce com o vírus. E também entre eles existe a transmissão venérea, quando o macho inocula o vírus na fêmea durante a cópula. Queremos eliminar todas essas possibilidades”.
Atualmente, o projeto se debruça sobre o desenvolvimento de linhagens transgênicas de Aedes aegypti relativas a outras arboviroses. A lista inclui dengue tipos 1,3 e 4, além de febre amarela, zika e chikungunya. Como aponta o artigo, doenças arbovirais provocam a morte de centenas de milhares de pessoas por ano no mundo e afetam, econômica e socialmente, milhões de indivíduos. “Isso enfatiza a necessidade urgente de abordagens inovadores para suprimir a transmissão de arbovírus pelo Aedes aegypti”, aponta a pesquisadora. “Em nossa pesquisa pretendemos produzir linhagens de mosquitos que possam ser utilizadas para se espalhar naturalmente e assim erradicar a transmissão das arboviroses urbanas”, finaliza.
Por Angela Trabbold | Agência Acadêmica Comunicação
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Um dos cinco projetos CEPID – Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão recentemente aprovados na FAPESP foi o Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3), coordenado pelos Profs. Shaker Chuck Farah e Aline Maria da Silva do Instituto de Química da USP. O CEPID B3 inclui pesquisadores de diferentes Universidades do Estado de São Paulo, sediados em São Paulo (IQ-USP, ICB-USP), Campinas (IB-UNICAMP, IAC), Ribeirão Preto (FCFRP-USP, FMRP-USP) e Rio Claro (IB-UNESP).
Esta equipe multidisciplinar apresenta expertises que são complementares e assim a interação entre os membros fortalecerá todos os grupos envolvidos, originando uma rede de pesquisa de alta competência. Dentre os pesquisadores envolvidos estão sete docentes do Departamento de Microbiologia do ICB-USP, que ao longo dos anos vêm estreitando os laços com os pesquisadores do Departamento de Bioquímica do IQ-USP e dos outros centros.
A missão do CEPID B3 é desenvolver pesquisa de ponta na área de microbiologia molecular, para compreender os mecanismos envolvidos na reprodução, comportamento, competição, interação com o hospedeiro, com o ambiente e com bacteriófagos. As metodologias propostas incluem análises globais em larga escala com ferramentas avançadas de bioinformática, biologia estrutural experimental e computacional, biologia sintética, plataformas de triagem de potenciais moléculas de interesse, entre outras.
Este conhecimento obtido do estudo de diferentes modelos bacterianos, visa eventualmente desenvolver estratégias para interferir em seus processos fisiológicos, buscando alvos para futuras abordagens de controle. O Centro tem também como objetivo o desenvolvimento de novas tecnologias que podem ser de interesse do setor farmacêutico, envolvendo novos antimicrobianos e estratégias de controle de patógenos na saúde humana e na agricultura. Além disso, o Centro irá também desenvolver dois projetos de Extensão, um envolvendo o uso de Microbiologia experimental para o ensino de conceitos matemática (Micromath), e o outro envolvendo o estudo de bactérias patogênicas (Adote uma Bactéria). Estes projetos de ensino serão desenvolvidos junto a escolas públicas e privadas de ensino Médio.
Na 3ª Conferência Iberoamericana de Espectrometria de Massas, quatro pesquisadores se destacaram com seus estudos em doenças infecciosas
Quatro pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) foram premiados na última edição da Conferência Iberoamericana de Espectrometria de Massas por seus trabalhos envolvendo doenças infecciosas. A terceira edição do evento, realizada pela Sociedade Brasileira de Espectrometria de Massas (BrMASS) e pela Sociedade Brasileira de Proteômica (BrPROT), aconteceu entre 10 e 15 de dezembro de 2022, no Rio de Janeiro, e contou com diversas apresentações envolvendo a espectrometria de massas, ferramenta essencial no processo de identificação e quantificação dos mais diversos tipos de moléculas.
As apresentações dos doutorandos Janaina Macedo da Silva e Deivid Martins Santos, alunos do Programa de Pós-Graduação em Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro e integrantes do Laboratório de Glicoproteômica no Departamento de Parasitologia do ICB-USP, foram premiadas pela BrMASS como dentre as melhores da conferência. O laboratório, coordenado pelo professor Giuseppe Palmisano, recebe financiamento da Fapesp, do CNPq e da CAPES, e tem enfoque na glicoproteômica, estudo das proteínas e os açúcares a elas ligados, relacionadas às doenças infecciosas.

O trabalho de Macedo da Silva foi um dos primeiros a avaliar a arginilação no estudo da COVID-19. O processo de arginilação consiste na adição do aminoácido arginina em uma proteína após ela ter sido sintetizada, ocorrendo naturalmente nos processos biológicos e indicando que a proteína em questão deve ser degradada, a fim de manter a homeostase celular. O estudo observou que células infectadas pelo vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19, têm maiores níveis de arginilação, fazendo com que a inibição desse processo tenha possível valor terapêutico.
Já o trabalho de Santos envolveu a caracterização de um modelo de cultura celular não-convencional, denominado air-liquid interface (ALI). Neste modelo, a célula fica em contato com o ar na região apical (voltada para o meio externo) e em contato com o meio líquido na região basal (voltada para o tecido conjuntivo). Esta condição de cultura faz com que a célula, a linhagem imortalizada Calu-3, se polarize tornando-se uma célula epitelial de pulmão produtora de muco. Nesse ponto, o ALI se difere do modelo de cultura celular convencional, em que a célula fica completamente submersa e cresce em uma só camada. O modelo ALI ainda não era suficientemente caracterizado em um nível molecular, apesar comumente utilizado no desenvolvimento de drogas, o que motivou o estudo.
“Após um processo de polarização, essas células passam a produzir muco, e pouco se sabe dos efeitos biológicos desencadeados por esse processo. Usando espectrometria de massas, apresentei os dados de proteômica [estudo de proteínas] dessa célula, no qual observamos que as proteínas reguladas e os processos celulares ativados na célula Calu-3 polarizada em ALI apresentaram alta semelhança com o epitélio de pulmão humano”, explica o pesquisador. O estudo mostrou que o processo de polarização de Calu-3 aumenta o grau de diferenciação desta célula, conseguindo mimetizar de forma mais eficiente um epitélio de pulmão humano, o que pode aumentar a robustez dos resultados obtidos.
Outra integrante do laboratório, a pesquisadora Claudia Blanes Angeli, recebeu menção honrosa como um dos melhores pôsteres, na categoria de pós-doutor. O prêmio foi concedido pela Sociedade Brasileira de Proteômica. Angeli realizou um trabalho voltado para o desenvolvimento e testagem de métodos analíticos para a detecção de biomoléculas. No caso, o objetivo era identificar o método mais eficaz para a coleta de proteínas de células oculares e para isso foram feitas várias abordagens, utilizando diferentes tampões de coleta. A abordagem mais eficiente foi então aplicada a um estudo à parte que buscou responder a uma pergunta biológica: qual a relação entre a exposição ao zika vírus na gestação e alterações oculares em crianças.

Nesse evento, foi também premiada Lívia Rosa Fernandes, do Laboratório de Imunoparasitologia Experimental, coordenado pelo professor Cláudio Marinho, também do Departamento de Parasitologia. Ela recebeu o prêmio Gilberto B. Domont for Young Investigators, da Sociedade Brasileira de Proteômica, que reconhece o conjunto de trabalhos de jovens pesquisadores. A cientista se destacou por ter trabalhado em duas emergências de saúde pública: a pandemia da COVID-19 e epidemia do zika vírus, em 2015. “No caso do zika vírus, no início nem sabíamos como o vírus chegava ao cérebro do bebê através da placenta. Primeiro trabalhamos com minicérebros in vitro, para entender essa infecção, sempre caracterizando o proteoma”, relembra.

O trabalho, que também envolveu os professores Edison Luiz Durigon, no isolamento do vírus, e Patrícia Beltrão Braga, no uso da tecnologia dos minicérebros, estudou o comprometimento no desenvolvimento e diferenciação de células cerebrais.
Outro foco da pesquisa de Rosa Fernandes foi o estudo da circulação de proteínas no organismo das mães, com o objetivo de constatar a possibilidade ou não de se detectar alterações no organismo do bebê antes mesmo do nascimento. O monitoramento dos bebês após o nascimento também foi alvo do seu trabalho.
“Aqui o desafio era descobrir formas não-invasivas de coleta de proteínas, o que foi solucionado com o desenvolvimento da metodologia CImPA (Cytology Impresion Proteomics Assay) e os resultados gerados mostraram que as crianças expostas ao Zika vírus no período gestacional tem necessidade de acompanhamento médico, mesmo as que nasceram sem microcefalia”, detalha a pesquisadora.
Os estudos receberam apoio da Fapesp, CNPq e do programa PNPD/Capes. O esforço de pesquisa voltado para a epidemia contou com parcerias entre grupos de pesquisa do próprio ICB e de outras universidades no Brasil e no exterior.
Resultados só foram possíveis devido à espectrometria de massas – Os pesquisadores destacaram a importância da tecnologia de espectrometria de massas na proteômica, como um denominador comum em todos os trabalhos. A técnica utilizada consiste na extração das proteínas de uma amostra biológica, podendo ser células, tecidos ou fluidos biológicos, que são então digeridas pela enzima tripsina para reduzi-las em peptídeos. Os peptídeos são então separados por técnicas de cromatografia líquida e injetados no espectrômetro de massas. Este, por sua vez, fornece a relação massa/carga dos peptídeos para que softwares possam identificar e quantificar as proteínas da amostra original. O processo permite, dessa forma, mapear a composição proteica de qualquer material biológico.
“Cada um apresentou uma temática, metodologias e perguntas biológicas diferentes, mas a forma que utilizamos para detectar o proteoma é a mesma. Não existe outra técnica tão eficiente quanto a espectrometria de massas para trabalhar com uma quantidade tão grande de dados”, comenta Rosa Fernandes.
Macedo da Silva destaca a importância do acesso a dados já existentes, obtidos pelo processo de espectrometria de massas, em sua pesquisa: “Pudemos analisar dados públicos para encontrar uma via de interesse para os nossos estudos, e a partir daí realizar outros experimentos para validar esses achados. Essa é também uma possibilidade interessante”, diz.
Confira abaixo os estudos citados no texto.
Por Felipe Parlato | ICB-USP
Editado por Gabriel Martino | Agência Acadêmica Comunicação
Novo instituto de um convênio firmado para a criação da Plataforma Científica Pasteur-USP, coordenada pelo professor Luís Carlos de Souza Ferreira, do ICB.
Em uma cerimônia nesta 6ª feira, em Paris, o presidente do Institut Pasteur, professor Stewart Cole, e o reitor da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Gilberto Carlotti Junior, assinaram o contrato social do Institut Pasteur de São Paulo, uma organização privada sem fins lucrativos, de acordo com a lei brasileira. A missão do instituto, membro associado da Rede Pasteur, é realizar pesquisas no campo em biologia que contribuam para o desenvolvimento da saúde humana e promover atividades de extensão, educação, inovação, transferência de conhecimento e medidas de saúde pública.
O Institut Pasteur de São Paulo ficará sediado no campus da Cidade Universitária, em um amplo espaço de 2 mil metros quadrados (m²) com 17 laboratórios, uma unidade de bioinformática e vários laboratórios multiusuário. Quando estiver em pleno funcionamento, o novo instituto abrigará mais de 80 cientistas do Brasil e outros países que realizarão pesquisas de nível internacional sobre doenças transmissíveis, não transmissíveis, emergentes, reemergentes, negligenciadas e degenerativas, inclusive as doenças neurodegenerativas progressivas.
O Institut Pasteur de São Paulo surgiu de um convênio entre o Institut Pasteur e a USP, assinado em 2017 e renovado em 2022. Pelo acordo, os dois parceiros se comprometeram a desenvolver uma plataforma científica, estágio intermediário antes da constituição formal de um instituto. O Institut Pasteur de São Paulo assumirá os direitos e obrigações da Plataforma Científica Pasteur-USP (SPPU, na sigla em inglês), e permanecerá como membro associado da Rede Pasteur. A Rede Pasteur é uma vasta comunidade científica com mais de 30 membros em cerca de 20 países, trabalhando juntos para ajudar a melhorar a saúde global.
A SPPU foi inaugurada em junho de 2019 sob a coordenação conjunta da Dra. Paola Minoprio (Instituto Pasteur) e do Prof. Luís Carlos Souza Ferreira, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Inicialmente, contava com cinco equipes de pesquisa, mas, com a eclosão da pandemia da covid-19, uma sexta equipe foi rapidamente montada para estudar o vírus e a doença. À época, a SPPU também aderiu à Rede USP de Diagnóstico de COVID-19 (RUDIC), uma força-tarefa de diversos laboratórios do Estado de São Paulo composta para realizar diagnósticos em larga escala.
Em 2022, a SPPU contava com sete pesquisadores principais e 29 doutorandos e pós-doutorandos, tendo estabelecido parcerias com mais de 20 instituições. Desde a sua fundação, a SPPU publicou mais de 60 artigos científicos, vários deles durante a pandemia da covid-19.
“A assinatura do contrato social do Institut Pasteur de São Paulo marca um grande passo que fortalecerá a cooperação entre o Institut Pasteur e as instituições brasileiras. Gostaria de destacar em especial a importância e relevância do trabalho realizado pelas equipes na Plataforma Científica Pasteur-USP, especialmente durante a pandemia da covid-19, e a inserção integral da plataforma no ecossistema de pesquisas do Estado de São Paulo. O Institut Pasteur de São Paulo busca proporcionar excelência científica em benefício das populações locais”, declarou o professor Stewart Cole.
“Uma das principais prioridades da nossa equipe gestora na reitoria é fortalecer os vínculos da Universidade de São Paulo com a sociedade. A criação do Institut Pasteur em São Paulo, em parceria com o Institut Pasteur, representa um grande passo nessa direção e complementa outras iniciativas em andamento, inclusive diversas parcerias com outras universidades e centros de
pesquisa franceses. É um marco importante da contínua internacionalização da nossa universidade. A França tem desempenhado um papel estratégico ao longo de nossa história, desde que a USP foi fundada, há quase 90 anos”, acrescentou o reitor Carlos Gilberto Carlotti.
O contrato social foi assinado em cerimônia no Institut Pasteur, em Paris, com a presença de autoridades francesas e brasileiras, inclusive Tarcísio Gomes de Freitas, governador do Estado de São Paulo; Marco Antonio Zago, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); Michèle Ramis, diretora para as Américas e Caribe do Ministério das Relações Interacionais da França; e Yves Teyssier d’Orfeuil, cônsul geral da França em São Paulo.
A criação do Institut Pasteur de São Paulo ajudará a fortalecer a cooperação entre a França e o Brasil, abrindo caminho para que os países trabalhem juntos em medidas prioritárias de saúde pública.
“Esta cerimônia de assinatura é um momento histórico para a entidade científica que inauguramos. Ela fortalece a colaboração entre o Estado de São Paulo, a Universidade de São Paulo e o Institut Pasteur. O novo status de nossa estrutura como “Institut Pasteur de São Paulo” e membro associado da Rede Pasteur não teria sido possível sem o compromisso inabalável de nossas instituições e o apoio das autoridades francesas e brasileiras, que é um grande exemplo de colaboração científica internacional“, afirmou a coordenadora da SPPU, Paola Minoprio.
Homenageada compareceu virtualmente na cerimônia, proposta pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas
Foi realizada no último dia 21 de março, na Sala do Conselho Universitário da Universidade de São Paulo, a cerimônia de outorga do título de Doutora Honoris Causa à farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes. A cerimônia, proposta pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade (FCF-USP), contou com diversos representantes de instâncias e unidades da USP. O evento pode ser conferido na íntegra no YouTube.
A mesa foi composta pelo Magnífico Reitor, Prof. Carlos Gilberto Carlotti Júnior; pela farmacêutica homenageada, de modo virtual, a Maria da Penha Maia Fernandes; pela vice-reitora, Profa. Maria Arminda do Nascimento Arruda; pela secretária-geral, Profa. Marina Helena Cury Gallottini; e pelo diretor da FCF-USP, Prof. Humberto Gomes Ferraz.
Referência no ativismo pelo direito das mulheres no Brasil e no mundo, Maria da Penha graduou-se em Ciências Farmacêuticas em 1966, pela Universidade Federal do Ceará, tendo concluído o seu mestrado em Análises Clínicas na USP no ano de 1977.
Em 1983, Maria da Penha foi vítima de duas tentativas de homicídio perpetradas pelo seu então marido. Esse atentado deixou-a paraplégica, e a busca por justiça durou mais de dezenove anos. Em 1994, Maria da Penha publicou o livro Sobrevivi…Posso Contar, no qual relata toda a violência que sofreu.
Em seu discurso de abertura, o Prof. Ferraz chama a atenção de todos para o título do livro, que nos alerta que muitas mulheres, ao contrário da autora, Maria da Penha, não sobrevivem para contar suas histórias de violência e dor. O diretor lembra a recorrência do assunto na grande mídia, e reitera a importância da luta da farmacêutica e de outras mulheres para que seja possa viver em um mundo civilizado.
Foi essa luta que inspirou a elaboração e promulgação da Lei Federal nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que hoje é um marco na proteção das mulheres de todo o país, e considerada uma das mais avançadas em todo o mundo, prevendo proteção às potenciais vítimas e punição mais rigorosa para os infratores.
Após aceitar oficialmente o título, Maria da Penha agradeceu pela homenagem e por ter feito parte do corpo discente da USP, entre 1974 e 1977, e se emocionou.
No encerramento do evento, a vice-reitora, Profa. Maria Arminda, ainda trouxe comentários sobre o significado da homenagem para a Universidade e para a luta contra a violência doméstica.
Por Altamir Souza | ICB-USP
Editado por Felipe Parlato (ICB-USP) e Gabriel Martino (Agência Acadêmica Comunicação)
Resultados foram obtidos em modelos experimentais e células de pacientes, por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas e da Faculdade de Medicina da USP. Em adultos, mortalidade das doenças pode chegar à mais de 50% dos casos.
Foto: Spring Library
Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP) e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) identificaram um possível novo tratamento para as leucemias agudas — tipos de câncer cuja mortalidade em adultos pode chegar à mais de 50%. Com a molécula sintética THZ-P1-2, recém-lançada pela indústria farmacêutica, foi possível eliminar mais de 80% dos tumores em ensaios ex-vivo (células retiradas de pacientes).
As leucemias agudas são divididas em duas categorias: as leucemias mieloides agudas (LMA) e as leucemias linfoblásticas agudas (LLA). A maior parte dos casos da LLA acontece em crianças e não costuma levar a óbito pois há muitas terapias já consolidadas para esses casos, o que não ocorre com os adultos. Já a LMA é mais comum em adultos, o que, pela falta de opções terapêuticas para a faixa etária, ajuda a explicar a alta taxa de mortalidade. “Ambas são muito agressivas; em pessoas que não receberam nenhum tratamento podem levá-las a óbito em poucos meses”, explica João Agostinho Machado-Neto, professor do Departamento de Farmacologia do ICB-USP.
Publicado na Blood Cancer Journal, revista de referência na área e do grupo Nature, no estudo foram realizados testes em células de 40 pacientes do Hospital das Clínicas (HC-FMUSP) e 25 pacientes do Centro Médico da Universidade de Groningen, na Holanda, parceiro na pesquisa. O trabalho foi coordenado por João Agostinho Machado-Neto, do Laboratório de Biologia do Câncer e Antineoplásicos do ICB-USP, e pelo professor Eduardo Magalhães Rego, líder da divisão de oncologia e hematologia clínica do HC-FMUSP.
Trata-se do primeiro estudo que descreve com detalhes o mecanismo de ação dessa molécula, inibidora das proteínas PIP4K2s, no tratamento de câncer. Os resultados são baseados em duas hipóteses desenvolvidas anteriormente no laboratório do ICB-USP: “Os quadros de pacientes com LMA, com maiores níveis das PIP4K2s, evoluem mais rapidamente e têm mais chances de levar a óbito; já pacientes com polimorfismos [variantes genéticas e hereditárias] no gene PIP4K2A têm maiores chances de desenvolver a LLA”, explica Keli Lima, doutoranda em Ciências Médicas pela FMUSP e primeira autora do estudo.
Molécula seletiva – Parte da eficácia pode ser explicada por um diferencial da molécula THZ-P1-2. “Ela ataca os tumores de múltiplas formas, causando: apoptose [morte celular programada], autofagia [comer a si mesma], mudanças no metabolismo das células e indução de diferenciação celular [diferenciar células cancerosas das células saudáveis]. Tudo isso aumenta as chances de sucesso do tratamento”, detalha a pesquisadora.
O inibidor também se mostrou seguro, pois não houve qualquer tipo de ameaça à integridade das células não tumorais. “Também aplicamos a molécula em células hematopoiéticas [precursoras das células do sangue] saudáveis e não houve qualquer efeito. Vimos que a molécula tem uma boa seletividade, sendo capaz de atacar preferencialmente as células tumorais”, explica Machado-Neto.
A THZ-P1-2 aparentou ser mais indicada para a LLA, pois a molécula gerou efeitos nas células de todos os pacientes com essa condição. Enquanto na LMA, cinco pacientes não tiveram nenhum tipo de resposta.
Os resultados foram obtidos por meio de ensaios de curva concentração-resposta para avaliar viabilidade celular (testes colorimétricos), análises por citometria de fluxo, expressão gênica e proteica realizados no ICB-USP. Também foram realizados ensaios de citometria de fluxo, respirometria de alta resolução e proteômica na Universidade de Groningen. “Em colaboração com o grupo holandês, nós conseguimos definir com maior precisão os marcadores de resposta ao THZ-P1-2, o que nos permitirá identificar, no futuro, quais são os pacientes com mais chances de resposta ao novo fármaco”, destaca o professor.
Maior eficácia – Segundo Machado-Neto, as terapias atuais se restringem aos transplantes de medula óssea e a quimioterapia. No entanto, muitas pessoas, principalmente os pacientes com mais de 60 anos, não são elegíveis aos transplantes, por se tratar de um procedimento de risco à essa população. Acabam se submetendo à quimioterapia, mas sempre em baixas doses, devido à toxicidade do tratamento. Esses pacientes podem então receber o venetoclax, um medicamento cuja eficácia é significativa apenas para uma parcela deles.
“Além de sozinha já obter uma alta eficácia, a molécula THZ-P1-2 ainda se mostrou capaz de melhorar a resposta das células leucêmicas ao venetoclax e de outros fármacos que atualmente não são eficazes o bastante para serem utilizados no tratamento, podendo atuar em conjunto com eles em um coquetel”, explica.
Estudos clínicos – O composto também obteve bons resultados em um estudo (ainda não publicado) realizado com modelos animais por um grupo de pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Cornell em associação com a Petra Pharma, ambas dos Estados Unidos. Nesse estudo, os pesquisadores identificaram que a molécula levou a uma rápida regressão dos tumores e não apresentou toxicidade. Isso a credencia para ensaios clínicos. “Caso esses estudos com humanos se iniciassem hoje, já poderíamos saber em dois a quatro anos se o medicamento é seguro e eficaz”, afirma o professor do ICB-USP.
A THZ-P1-2 está sob patente de uma farmacêutica, portanto cabe a essa empresa realizar esses estudos. Os pesquisadores do ICB irão agora analisar outros inibidores das proteínas PIP4K2s. “Depois que a THZ-P1-2 foi lançada, outras empresas desenvolveram moléculas similares. Nosso trabalho agora é testá-las para verificar qual obtém os melhores resultados”, destaca Machado-Neto. “O mais difícil, que foi identificar o mecanismo de ação dos inibidores à nível celular e molecular, nós já fizemos”, avalia Lima.
Gabriel Martino | Acadêmica Agência de Comunicação
Pós-graduandos foram premiados por seus trabalhos em workshop de biologia molecular da Unicamp.
Dois alunos de pós-graduação e uma pós-doutoranda do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) foram entrevistados como parte da 3ª edição do volume 119 da revista científica Molecular Microbiology. Nas entrevistas, os alunos Gabriel Araújo, do Laboratório de Estrutura e Evolução de Proteínas, Julia Takuno Hespanhol, do Bayer-Santos Lab, e Letícia Veloso Franco, do Laboratório de Biogênese Mitocondrial, comentam sobre suas pesquisas e principais descobertas.
Os pesquisadores do Departamento de Microbiologia foram entrevistados por terem recebido prêmios no 2º Workshop de Biologia Molecular Microbiana, organizado pelo programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular da Unicamp.
Araújo, orientado pela professora Cristiane Guzzo, recebeu o prêmio de melhor poster pelo seu trabalho de doutorado, no qual determinou por criomicroscopia eletrônica a estrutura da secretina PilQ, um canal de membrana essencial para motilidade da bactéria Xanthomonas citri, causadora do cancro cítrico. A entrevista completa pode ser conferida neste endereço.
Já Hespanhol, orientanda da jovem pesquisadora Ethel Bayer, recebeu o prêmio de melhor apresentação oral pelo seu trabalho de mestrado, em que buscou caracterizar toxinas secretadas pelo sistema de secreção tipo VI da bactéria Salmonella bongori, que nunca haviam sido estudadas. As toxinas são capazes de eliminar bactérias competidoras no intestino, abrindo caminho para a contaminação de células do intestino do hospedeiro. Sua entrevista pode ser conferida neste link. O ICB-USP elaborou uma matéria sobre o estudo publicado recentemente, confira aqui.
Franco também recebeu o prêmio de melhor apresentação oral, por seu trabalho realizado no Laboratório de Biogênese Mitocondrial, coordenado pelo professor Mario Henrique Barros. O estudo envolveu a biogênese mitocondrial na levedura Saccharomyces cerevisiae, com ênfase na montagem das enzimas que produzem a maior parte do ATP humano. Para acessar a entrevista, acesse este endereço.
Além dos alunos do ICB, outros alunos de universidades estaduais paulistas receberam o prêmio e deram entrevistas. Bianca Batista, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, e Enzo Sichi de Mello, da Universidade Estadual de Campinas, receberam o prêmio de melhor poster, enquanto Thiago Rodrigo dos Santos, do Instituto de Química da USP, recebeu o prêmio de melhor apresentação oral.
Por Felipe Parlato | ICB-USP
Pesquisadores do ICB-USP e da Universidade da Pensilvânia desenvolveram imunizantes que se mostraram capazes de eliminar os tumores que causam o câncer do colo do útero sem a necessidade de tratamentos adicionais.
Pesquisadora Jamile Ramos Silva no Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas.
Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) obtiveram resultados promissores com três imunizantes capazes de eliminar tumores induzidos pelo HPV (papilomavírus humano), causa de mais de 95% dos casos do câncer do colo do útero. As vacinas usam a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) e eliminaram, com apenas uma dose, 100% dos tumores que expressam proteínas do HPV-16, principal tipo de HPV associado com a doença em seres humanos, em modelo animal. Os resultados demonstraram que o tratamento foi capaz de agir com eficácia sem precisar estar associado a outros tratamentos, como cirurgia ou quimioterapia.
“Diferentemente dos imunizantes que evitam a transmissão do vírus HPV, as vacinas que estamos desenvolvemos são focadas na cura da doença – e isso é muito importante porque trata-se do quarto tipo de câncer mais incidente entre as mulheres no mundo; no Brasil, é o quarto mais mortal entre as mulheres”, afirma Jamile Ramos Silva, primeira autora de um artigo sobre a pesquisa que acaba de ser publicado na revista Science Translational Medicine do grupo Science.
As novas vacinas foram desenvolvidas no Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas (LDV) do Departamento de Microbiologia do ICB-USP, coordenado pelo professor Luís Carlos de Souza Ferreira. O trabalho foi feito em parceria com uma equipe de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, liderada pelo prof. Norbert Pardi com participação da bioquímica Katalin Karikó, pesquisadora que está à frente da pesquisa e do desenvolvimento das vacinas da Pfizer-BioNTech contra a Covid-19. O estudo recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
O trabalho é fruto da tese de doutorado da Dra. Jamile Ramos Silva, sob orientação do Prof. Luís Carlos de Souza Ferreira, pelo programa de pós-graduação do Departamento de Microbiologia do ICB. A tese recebeu o Prêmio CAPES de Tese e menção honrosa no Prêmio Tese Destaque USP. A pesquisa ainda contou com a parceria de pesquisadores da Universidade das empresas Acuitas Therapeutics, do Canadá, BioNTech, e da Imunotera Soluções Terapêuticas, uma startup formada da USP.
Abordagem inovadora – “O trabalho teve uma boa repercussão no meio acadêmico porque, além de induzir memória imunológica e evitar o reaparecimento de tumores, propõe uma nova estratégia. Ao contrário dos imunizantes terapêuticos atualmente utilizados, não é necessário aplicar várias doses para levar à destruição do tumor”, explica Ferreira. “Os imunizantes que desenvolvemos ensinam o sistema imune a reconhecer e destruir as células tumorais de maneira ativa, uma estratégia semelhante às vacinas convencionais”.
No estudo, foram utilizadas vacinas desenvolvidas por meio de três estratégias diferentes baseadas em RNA mensageiro (mRNA). Todas codificam o mesmo antígeno vacinal gDE7, que contém a E7, uma proteína do vírus envolvida na formação de tumores. Essa proteína foi geneticamente fusionada à glicoproteína D do herpes vírus simplex tipo 1 (HSV-1), aumentando seu potencial de gerar respostas do sistema imune. Dessa forma, tornam-se capazes de treinar as células do sistema imune para que possam reconhecer e destruir as células tumorais. Para a entrega do mRNA às células, as vacinas foram incorporadas dentro de nanopartículas lipídicas, uma espécie de capa de gordura, produzida em parceria com a empresa canadense, que tem a função de impedir a degradação do mRNA.
O trabalho comparou lado a lado três tipos de vacinas baseadas em mRNA convencionais ou autorreplicativas. A primeira delas utiliza o mRNA convencional ou não replicante, que permite que o próprio hospedeiro (no caso as células humanas) produza a molécula de interesse. A molécula de mRNA é sintetizada in vitro sem modificações. Quando administrada in vivo, simula uma infecção viral, o que permite avaliar o papel da inflamação induzida na montagem de uma resposta contra os tumores, embora tal reação possa reduzir a produção do antígeno alvo.
Outra abordagem, utiliza a mesma tecnologia empregada nos imunizantes da Pfizer e Moderna contra a covid-19, que aplica moléculas de mRNA não replicantes com modificações na sua composição de forma a evitar uma inflamação exacerbada das células. “A estratégia evita que o sistema imune reconheça a vacina como uma molécula viral e ative uma forte resposta inflamatória, o que levaria à destruição das células que receberam o mRNA e reduziria a produção dos antígenos”, explica Silva.
A última estratégia utiliza o mRNA autorreplicativo. Conhecido na literatura por meio de estudos de vacinas experimentais contra HIV e Influenza, esse mRNA codifica enzimas que permitem sua replicação dentro das células. “Isso aumenta a quantidade de mRNA e dos antígenos codificados nas células que recebem o imunizante, potencializando assim as respostas do sistema imune”, detalha a pesquisadora.
Eficácia em qualquer versão – Mesmo com características distintas, todas as vacinas alcançaram 100% de eficácia na regressão dos tumores quando utilizada uma dose única em tumores com estágio precoce de desenvolvimento, implantados nos animais. As vacinas foram introduzidas em modelos de camundongos em que as células tumorais foram implantadas em diferentes partes do corpo, incluindo vagina e língua, para simular tumores do trato genital, cabeça e pescoço. Uma diferença observada entre as vacinas testadas foi o melhor desempenho das vacinas autorreplicantes e a não replicante sem modificações nos tumores implantados na vagina e na língua.
Outro ponto importante demonstrado no estudo foi a indução de memória imunológica, o que impediu o crescimento de novos tumores em animais previamente tratados e curados com as vacinas. “Eles receberam uma carga dez vezes maior de tumores e continuaram protegidos — sem precisar de uma segunda dose. É diferente de uma quimioterapia em outras vacinas terapêuticas nas quais o reaparecimento do tumor é frequente”.
Além disso, as vacinas não produziram efeitos adversos pois a eliminação dos tumores foi obtida com uma quantidade muito pequena do imunizante. “Isso foi possível porque os imunizantes foram capazes de induzir a proliferação de células T CD8+, que identificam e eliminam as células infectadas pelo HPV-16 sem a necessidade de produção de anticorpos.
Quanto mais cedo, melhor – A regressão de 100% dos tumores foi observada quando os animais foram vacinados no terceiro dia após a introdução das células. Quanto mais cedo as vacinas forem aplicadas, melhor a eficácia. “Quando tratamos os animais em um modelo mais avançado da doença, quando os tumores mediam 9 milímetros quadrados, a eficácia da vacina foi de 80%, superior à eficácia de outras estratégias de vacina baseada em DNA plasmidial ou proteína recombinante, codificando o mesmo antígeno e testadas nas mesmas condições”, explica a pesquisadora.
“Vale destacar que o tumor cresce muito rápido nos animais, diferentemente do que ocorre com humanos. É difícil um camundongo sobreviver mais de 30 dias com a doença. Testamos um modelo em que os tumores desenvolvem com mais velocidade, levando os animais a óbito em até 12 dias. E a proteção das vacinas variou entre 60 e 100%”, finaliza.
Por Gabriel Martino | Acadêmica Agência de Comunicação
É com grande pesar que informamos o falecimento, na data de hoje, do Prof. Dr. Erney Felicio Plessamnn de Camargo, Professor Emérito da Universidade de São Paulo.
Era também o atual diretor presidente da Fundação Conrado Wessel.
Exerceu diversos cargos públicos de grande relevância para a ciência brasileira, dentre os quais: Pró-Reitor de Pesquisa da USP nas gestões dos Reitores José Goldemberg (1986/1990) e Roberto Leal Lobo e Silva Filho (1990/1993); Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), de 2003 a 2007; Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e Membro honorário da Academia Nacional de Medicina; e Presidente da Sociedade Brasileira de Protozoologia.
Em meio à grande tristeza deste momento, a comunidade do Instituto de Ciências Biomédicas, muito consternada com o seu passamento, expressa seu profundo pesar a todos os familiares, amigos e alunos do Professor Erney, que deixa enorme legado para a ciência brasileira.
Atenciosamente,
Diretoria – ICB
Pesquisa recrutará 10 mil brasileiros. O objetivo principal é avaliar o impacto socioeconômico na relação biológica entre o transtorno e o rendimento educacional.

O Laboratório de Genômica Fisiológica da Saúde Mental do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) está em busca de voluntários para participar de um estudo cujo principal objetivo é avaliar o impacto de condições socioeconômicas na conexão biológica entre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e o rendimento educacional.
Indivíduos com ou sem TDAH, maiores de 18 anos, da região metropolitana de São Paulo podem participar do estudo.
Para se inscrever, é necessário enviar um e-mail para tdahbrasil@usp.br. A partir desse contato, a equipe do projeto dará seguimento com o protocolo de pesquisa.
No estudo, o voluntário participará das seguintes etapas:
Pesquisas como essa têm um potencial muito grande de contribuir para o entendimento da neurobiologia envolvida no TDAH, bem como na busca de novos alvos moleculares para novos tratamentos. E são uma oportunidade, principalmente, de estudar em larga escala populações muitas vezes negligenciadas em estudos genômicos, como a brasileira. Tendo em vista que grande parte dos trabalhos nesse sentido estão concentrados em países europeus com elevada renda e baixa desigualdade social.
Com o nome de DNA-USP, o projeto fez um levantamento de 34 empresas, dentre as quais nove concederam entrevistas.
A ICBjr, empresa júnior do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), realizou um levantamento de 34 empresas cujos líderes possuíram vínculos com o Instituto durante sua formação acadêmica. O projeto, que leva o nome de DNA-USP, surgiu em 2019 por iniciativa do então diretor Luís Carlos de Souza Ferreira e teve como objetivo incentivar o empreendedorismo a partir do mapeamento de diferentes negócios, cujas áreas de atuação incluem biotecnologia, biossegurança e outras.
Das empresas contatadas, nove concederam entrevistas, e todas permanecem atuantes no mercado. De acordo com Giovanna Moraes da Silva, diretora presidente da ICBjr na gestão de 2022, o intuito do projeto não foi medir o sucesso ou buscar um número absoluto de empresas existentes, mas sim prestigiar o trabalho realizado por elas, exemplificando como conseguiram aliar o conhecimento acadêmico ao empreendedorismo.
“A ideia era entender o propósito dessas empresas e de que formas o ICB contribuiu para que elas pudessem nascer”, explica. “A partir dessa proposta, conversamos com especialistas em inovação da USP, da Cietec, e buscamos nomes em plataformas como o LinkedIn, em busca de entrevistas e possíveis visitas às instalações das empresas.”
Os vínculos dos fundadores das empresas com o ICB variam. Ricardo Di Lazzaro Filho, um dos sócios fundadores da Genera, empresa especializada em medicina genômica pessoal, realizou iniciação científica em um dos laboratórios do Instituto durante sua graduação. Já Patrícia Beltrão Braga, professora assistente no Departamento de Microbiologia do ICB, tornou-se uma das sócias fundadoras da Tismoo, empresa que busca realizar diagnósticos direcionados a pacientes no espectro autista.
“Todos que entrevistamos destacaram a pesquisa de ponta como principal diferencial trazido pelo ICB”, conta Giovanna. “O networking e o desenvolvimento da empresa podem ter partido de outros lugares, mas a maioria das propostas veio de temas de base biotecnológica que esses profissionais tiveram contato durante sua pesquisa aqui.”
Segundo Ana Chieco, atual diretora presidente da empresa, o projeto trouxe à tona o tema do empreendedorismo, essencial no contexto atual das universidades: “o empreendedorismo e a inovação na universidade são importantes para que os alunos enxerguem além dos horizontes do ambiente acadêmico. Muitas vezes o conhecimento científico é obtido com fim nele mesmo, mas aliá-lo ao empreendedorismo é um bom caminho para se obter produtos comercializáveis que possam ajudar a população em alguma questão ainda não resolvida”, pontua.
A ICBjr foi fundada em 2012 e federada em 2018, e tem como proposta ser um ponto de conexão entre a instituição e o mercado de trabalho, trazendo conceitos de aplicação e comunicação à comunidade da graduação. Além de projetos de divulgação científica, feitos através de redes sociais, e criação de sites para laboratórios diversos, a empresa presta serviços de análise microbiológica de alimentos, marketing científico e consultoria e realização de eventos na área da saúde.
Estudos do ICB-USP demostraram que o alto consumo de sal leva a um quadro de hipertensão arterial, retenção de sódio no líquor e ativação dos astrócitos, as células mais abundantes do sistema nervoso central.
A associação entre o sal (cloreto de sódio) e a pressão arterial é estudada há mais de 120 anos. No entanto, nunca se conseguiu esclarecer por completo a relação entre o alto consumo de sal e alterações no sistema nervoso central (SNC), que contribui para a chamada hipertensão neurogênica. Agora, pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) conseguiram dar um passo importante na compreensão desse processo. Além de descobrirem que parte do sal consumido em excesso fica retida no líquido cerebroespinal (líquor), eles sugeriram um possível mecanismo que desencadeia a doença e que envolve a ativação não somente de neurônios, mas também de células da glia. Trata-se de um avanço importante na descoberta de mecanismos e conexões de entre células neurais envolvidos na gênese da hipertensão dependente do alto consumo de sal.
Os estudos, publicados nas revistas científicas Molecular and Cellular Neuroscience e Experimental Physiology, foram realizados em ratos albinos que consumiram sal em excesso. Os animais receberam uma solução de água com 2% de cloreto de sódio por uma semana e desenvolveram hipertensão. Além do aumento da pressão arterial sanguínea, o que chamou atenção dos pesquisadores foi que o nível de sódio no sangue dos animais se manteve normal, porém, notaram um acúmulo deste íon no cérebro, mais precisamente no líquor.
“Os animais expostos ao alto consumo de sal apresentaram hipertensão e acúmulo de sódio no líquor, mas não no sangue. Dessa forma, podemos presumir que a gênese da hipertensão envolve um componente neural, a qual pode estar relacionada a esse excesso de sódio retido no líquor”, explica Paula Magalhães Gomes, PhD e pós-doutoranda do Laboratório de Controle Neural da Circulação (LCNC), do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB-USP, e primeira autora de um dos artigos. “Em teoria, o sódio que consumimos nos alimentos se distribui de forma equilibrada nos diferentes compartimentos do nosso corpo, num processo que denominamos na fisiologia de osmorregulação, mas aparentemente não é assim que acontece quando o organismo é desafiado ao consumo excessivo de sal. Nosso objetivo futuro é investigar mais a fundo os mecanismos fisiológicos por trás do acúmulo de sódio no líquor e sua relação com a hipertensão”, acrescenta.
Chave do processo – Estudos anteriores já mostraram o envolvimento do hipotálamo, mais precisamente o núcleo paraventricular, na gênese da hipertensão dependente do alto consumo de sal. As células neurais deste núcleo, principalmente os neurônios, participam direta e indiretamente na regulação da pressão arterial em resposta a um aumento de sódio circulante no organismo. Faltava investigar ainda qual o envolvimento das células neurais da glia neste processo.
Os pesquisadores do ICB-USP observaram que os astrócitos (uma das células mais abundantes do SNC), localizados no núcleo paraventricular, estão mais ativados no cérebro de animais que foram expostos ao alto consumo de sal. “De maneira geral, os astrócitos são células que, além de dar sustentação para os neurônios, também são responsáveis por liberar diversos neurotransmissores, dentre eles o ATP [Trifosfato de Adenosina], uma molécula que classicamente sempre foi conhecida pela sua função no metabolismo energético celular, mas que também atua como neurotransmissor. Frente a uma condição de alto consumo de sal, os astrócitos são ativados de forma intensa”, explica Renato Willian Martins de Sá, PhD pelo laboratório LCNC-ICB/USP, bolsista BEPE-FAPESP.
Mecanismo de desativação – “Fizemos um experimento utilizando a tecnologia de farmacogenômica com vetor viral geneticamente modificado. Por meio de uma neurocirurgia, introduzimos o vetor viral na região hipotalâmica de interesse e conseguimos com isso interromper a maquinaria celular da liberação de ATP pelos astrócitos, que se encontrava aumentada numa condição de alta ingestão de sal. Obtivemos uma redução de 50% na liberação do neurotransmissor quando inibimos o transporte vesicular do ATP nos astrócitos”, detalha o pesquisador.
Segundo o professor Vagner Roberto Antunes, coordenador do LCNC no ICB-USP, esta abordagem experimental é exclusivamente utilizada em modelos animais e contribui sobremaneira para o avanço do conhecimento e dos mecanismos celulares envolvidos no controle das funções neurais e cardiovasculares. “A compreensão desses mecanismos poderá auxiliar no desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas farmacológicas para doenças associadas ao alto consumo de sal”, destaca ele.
Ainda, segundo Antunes, existem estudos que demonstram que o acúmulo de sódio no líquor pode estar relacionado ao desenvolvimento de doenças não somente do sistema cardiovascular, mas também neurodegenerativas, dentre elas a Doença de Alzheimer, tendo em vista que o excesso de sal no cérebro pode alterar as funções das células neurais, desde sua maquinaria gênica e proteica até neuroquímica.
Enquanto não há estratégias terapêuticas para resolver esse problema, a recomendação é moderar na ingestão de sal – um mineral essencial para o funcionamento das células, mas que em quantidades superiores ao recomendado de 5g por dia pela Organização Mundial da Saúde – OMS pode levar à hipertensão e outras doenças vasculares que acometem o sistema nervoso central.
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Forjado sob a tutela de Renato Locchi – o discípulo dileto de Bovero, fundador da Escola Anatômica de São Paulo em 1914 – o Anatomista José Carlos Prates atuou na Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP) desde o ano de 1961, onde foi o último Catedrático de Anatomia da EPM (1966) e Diretor da mesma Escola (1975-1978).
Dentre as inúmeras atividades que exerceu durante a sua carreira, foi o primeiro Professor de Anatomia da Faculdade de Medicina do ABC (1969), Chefe da disciplina de Anatomia da Faculdade de Medicina de Santo Amaro e Diretor da mesma Faculdade (1987-1990), e Diretor pro-tempore da Faculdade de Medicina de Taubaté (1979).
Como um dia escreveu Locchi sobre Bovero, o que mais acrescentar àquele que “tanta vida deu às coisas mortas”? Certamente existe muito; não somente sobre a vivência na Anatomia, onde foi reconhecido nacional e internacionalmente, mas na convivência com o ser humano humilde em sua majestade; recatado em sua importância; subordinado, em sua autoridade. Também como professor, cuja função dizia “requerer renúncia, serenidade, bondade, tolerância, respeito aos colegas e alunos, competência e honestidade, mas ainda, sensibilidade moral e social”.
O seu passamento abre, sem dúvida alguma, uma lacuna no seio da nossa Escola; porém, nos conforta a certeza de que irá compor, com todo o merecimento, o Panteão da “Escola Anatômica de Bovero”.
Prof. Edson A. Liberti

É com profundo pesar que comunicamos o falecimento do Professor Gehard Malnic.
Em 25 de novembro de 2021, o Departamento de Fisiologia e Biofísica realizou uma linda homenagem ao Prof. Malnic em função do encerramento de suas atividades junto ao Instituto de Ciências Biomédicas, onde se tornou Professor Titular em 1973, e posteriormente, em 2004, Professor Emérito.
Nascido em Milão, Italia, em 1933, naturalizou-se brasileiro em 1956. Formou-se médico, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde obteve o título de Doutor, em 1960, e de Livre-Docente em Fisiologia, em 1965. Em 1973, tornou-se Titular do Departamento de Fisiologia e Farmacologia do ICB-USP, e contribuiu enormemente para a organização do jovem Instituto.
Realizou diferentes estágios no exterior: Tulane University, New Orleans (USA), Cornell University Medical College, New York (USA) e Yale University Medical College, New Haven (USA).
Sua linha de pesquisa em transporte de íons pelo epitélio tubular renal, acidificação urinária e regulação da atividade iônica celular contribuiu muito para a área de fisiologia renal, e resultou na publicação de 144 trabalhos completos em revistas internacionais, 2 livros, 15 capítulos de livro, e na orientação de Mestres e Doutores. Foi membro do corpo editorial de diferentes periódicos como: Kidney International; Brazilian Journal Biol.Med. Research; American Journal of Physiology, Renal e Physiological Reviews.
Entre as principais atividades administrativas exercidas, bem como relacionadas ao ensino e pesquisa, destacam-se a Chefia do Departamento de Fisiologia e Biofísica; a Diretoria do ICB-USP e do Instituto de Estudos Avançados – IEA-USP; Vice-Presidência da ADUSP; a Secretaria Geral da Associação Latino-Americana de Ciências Fisiológicas, e a Presidência das Sociedades Brasileira de Biofísica, de Fisiologia e da FESBE.
Foi membro Titular da Academia Brasileira de Ciências; da Academia de Ciências da América Latina e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, onde também foi Presidente.
Foi agraciado com o Prêmio GA Borelli Medal, recebido na Itália, e com o título de Comendador Grão-Cruz, recebido da Ordem Nacional do Mérito Científico.
Considerado pela FAPESP o “artesão do laboratório”, o Professor Malnic dedicou sua carreira à produção de conhecimento e à Universidade de São Paulo, tornando-se Professor Emérito do ICB-USP, em 2004.
A cerimônia realizada em 2021 é um reflexo de sua carreira, e da construção de uma rede de amigos, colaboradores e de uma “família” científica.
A homenagem pode ser assistida aqui.
Diretoria ICB-USP
É o que mostra um estudo feito por diversas instituições de pesquisa do Brasil e EUA. Resultados comprovam a importância do reforço da vacina contra a covid-19, capaz de proteger contra a variante ômicron.
Segundo dados do monitoramento realizado pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos (EUA), a média de casos de Covid-19 cresceu 1730% no Brasil entre dezembro de 2021 e janeiro de 2022, em decorrência da variante ômicron. No entanto, nesse período, um grupo de brasileiros se manteve mais protegido: aqueles que haviam tomado três doses da vacina. É o que mostra uma pesquisa feita por diversas universidades do Brasil e EUA, cujos resultados foram publicados recentemente no Journal of Medical Virology.
O estudo revela que as duas primeiras doses da vacina foram eficazes contra a cepa original da covid-19, mas pouco efetivas contra a variante ômicron. Já a terceira dose conseguiu diminuir as proporções de contaminação em cerca de 50% pela ômicron e pelas subvariantes mais recentes à época. “Isso comprova a importância das vacinas de reforço. Portanto, é preciso fazer com que a população volte a se vacinar e que haja imunizantes atualizados e disponíveis contra variantes que irão surgir”, afirma o coordenador do estudo, o professor Jaime Henrique Amorim, da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB).
O estudo foi realizado em parceria com diversas instituições: Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal do Estado de São Paulo (EPM-UNIFESP) e Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia. Contou ainda com a colaboração da Plataforma Científica Pasteur-USP (SPPU), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Brasília (UnB) e as universidades de Wisconsin‐Madison e Columbia, nos Estados Unidos.
Entre janeiro e março de 2022 foram feitas análises em 286 moradores de Barreiras (BA). Desse total, 95 testaram positivo para a covid-19, enquanto 189 testaram negativo. Entre os pacientes com ou sem a terceira dose vacinal, os números de infecção mostraram uma redução à metade no risco de contrair a doença, pois o índice de infecção entre pacientes com duas doses foi de 60% e entre os pacientes com três doses foi de 30%.
“Fizemos o sequenciamento genético dos testes positivos e vimos que praticamente todos os casos eram de ômicron. Além disso, coletamos amostras de sorologia [sangue] para identificar quantas doses os pacientes haviam recebido e como foi a produção de anticorpos de cada um. Posteriormente, foram realizados testes de neutralização, nos quais se coloca o vírus diante dos anticorpos para verificar se eles são capazes de impedir a infecção. Os anticorpos de pacientes com até duas doses conseguiram neutralizar o vírus de início de pandemia (cepa de Wuhan), mas foram ineficazes contra a ômicron — ao contrário dos anticorpos de pacientes com três doses”, detalha o pesquisador.
“No cenário em que foram feitos os testes, menos de 50% da população da região estava vacinada com três doses, embora fosse veiculada pelos gestores públicos uma falsa ideia de ampla vacinação. Isso porque divulgava-se que mais de 90% da população da região tinha se vacinado, mas não levavam em conta o número de doses de reforço”, afirma Amorim.
Outra constatação do estudo bate com os dados oficiais. Apesar de não terem sido suficientes para impedir o contágio, as duas primeiras doses reduziram drasticamente os casos graves da doença. Mais de 99% dos pacientes analisados não estavam internados em hospitais à época do estudo.
Na sorologia também foram identificados quais os imunizantes que os pacientes receberam. Foram coletadas amostras de pacientes imunizados com as quatro vacinas utilizadas no Brasil (Coronavac, Pfizer, Jansenn e AstraZeneca), e não houve diferença significativa no grau de proteção conferido por elas. Vale ressaltar que, até o momento da coleta, apenas o imunizante da Pfizer era aplicado na terceira dose.
O sequenciamento genético e os testes RT-PCR (para a detecção do vírus) e de sorologia foram conduzidos na UFOB, no campus de Barreiras, onde são realizados exames laboratoriais para o sistema de saúde pública do município. Em São Paulo foram realizados os testes de neutralização em laboratórios de nível 3 de biossegurança. Esses exames aconteceram no Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas, coordenado pelo professor Luís Carlos de Souza Ferreira do ICB-USP, e no Laboratório de Retrovirologia, coordenado pelo professor Luiz Mário Ramos Janini na EPM-UNIFESP.
A pesquisa obteve financiamento de diversas instituições de fomento: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); e Instituto Serrapilheira.
Estudo pode ser útil para o desenvolvimento de novos medicamentos probióticos contra a salmonelose – doença infecciosa causada pela contaminação da Salmonella que ataca o aparelho gastrointestinal.
Há milhões de anos, as bactérias competem entre si para sobreviverem. Elas se utilizam de diferentes estratégias para tentar matar suas concorrentes e assim garantir alimento para se proliferarem. A Salmonella, bactéria da família das Enterobacteriaceae que causa infecção alimentar, usa toxinas com essa finalidade contra membros da microbiota intestinal. Faltava, no entanto, descobrir quais eram essas toxinas e como elas atuam – feito que coube a pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).
Publicada na revista científica eLife, a descoberta abre caminho para um novo alvo de terapia contra a salmonelose – doença que ataca o aparelho gastrointestinal e é uma das principais causadoras de infecções alimentares no mundo. De acordo com Ethel Bayer Santos, jovem pesquisadora da FAPESP e coordenadora do laboratório responsável pelo estudo, situado no Departamento de Microbiologia do ICB-USP, foram caracterizadas quatro toxinas, denominadas TseVs, que nunca haviam sido estudadas.
“As toxinas possuem regiões de proteínas que geralmente são encontradas em enzimas que atuam no reparo de DNA [momento no qual a célula identifica e corrige os danos das moléculas de DNA]. No entanto, em vez de reparo, as toxinas causam dano no DNA, e atacam ele no momento da sua replicação, quando são formadas estruturas em formato de Y”, explica.
Elas são disparadas pelo sistema de secreção do tipo 6, que são grandes complexos de proteínas, em formato de uma lança contrátil, que se encontram na membrana das bactérias. A Salmonella encosta na membrana da competidora e libera as toxinas dentro dessas células, eliminando a competição e ficando livre para infectar as células do intestino do hospedeiro. “Já havia sido mostrado que Salmonella pode intoxicar os membros da microbiota, mas é a primeira vez que foi descrito uma toxina antibacteriana que tem como alvo estruturas específicas de DNA”, explica Bayer Santos.
As infecções pela Salmonella ocorrem principalmente por causa de alimentos contaminados, seja pela ingestão de carnes e ovos crus ou malpassados, pela manipulação dos alimentos sem a devida higienização ou contaminação cruzada. As infecções em humanos são causadas por sorotipos de Salmonella enterica, sendo mais comuns S. Enteritidis e S. Typhimurium.
A contaminação geralmente causa gastroenterite, doença caracterizada pela inflamação e irritação no sistema digestivo, ocasionando sintomas como diarreia, dor abdominal, cólicas, náuseas e vómitos. No entanto, novas cepas que surgiram na África mostraram-se invasivas, afetando outros órgãos e causando infecções sistêmicas, que podem ser fatais.
“Ao entender como essas toxinas afetam a microbiota, talvez possamos vir a ter um novo medicamento probiótico que possa promover resistência a infecção por esses patógenos, auxiliando na prevenção e melhora dos pacientes.”
Microscopia e bioinformática – Nos estudos in vitro, os pesquisadores observaram os ataques na dupla fita de DNA em dois ensaios de microscopia. “Observamos as bactérias crescendo e competindo umas com as outras, depois contamos quantas sobreviveram e se era possível ter mutações que possibilitassem sua adaptação. Vários fragmentos de DNA também foram sintetizados artificialmente para verificar em quais estruturas aconteciam os ataques”, detalha Julia Hespanhol, mestranda em microbiologia e uma das responsáveis pela pesquisa.
Além da microscopia, foram empregadas técnicas de bioinformática para encontrar outras bactérias que têm sequencias de toxinas similares em seus genomas. “Nossas descobertas podem ser aplicadas a outros grupos de bactérias, como as Pseudomonas [causadoras da fibrose cística] e outras enterobactérias [bactérias da mesma família da Salmonella]”, destaca Daniel Sanchez, doutorando em microbiologia pelo ICB que também participou do estudo.
Equipe

Angela Trabbold