O Showcase de Biotechs do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, realizado com o apoio da Emerge, apresentou vinte pesquisas com potencial de mercado.
17/12/2019
Na última quinta-feira (12/12), vinte pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) se reuniram no auditório do Inovabra, em São Paulo, para apresentar suas tecnologias a membros da indústria e da academia. O Showcase de Biotechs do ICB-USP foi feito em parceria com a Emerge, que visitou diversos laboratórios do instituto e avaliou a maturidade tecnológica das pesquisas, selecionando aquelas com maior potencial de mercado. Para isso, utilizaram a metodologia TRL (Technology Readiness Level), desenvolvida pela NASA.
Dentre as tecnologias de maior nível de prontidão, foi introduzida uma terapia tópica para a psoríase, doença de pele inflamatória crônica que afeta até 4% da população mundial. Seu tratamento convencional, com corticoides, apresenta severos efeitos colaterais, como maior suscetibilidade a infecções e supressão da função das glândulas suprarrenais. O grupo das pesquisadoras Soraia Costa e Luciana Lopes desenvolveu nanofármacos contendo moléculas doadoras de sulfeto de hidrogênio (H2S), que inibem a produção de citocinas pró-inflamatórias. A estratégia já foi patenteada pela equipe.
Das 20 pesquisas apresentadas, seis representam novos caminhos para o diagnóstico e/ou tratamento do câncer. Integrante do grupo de pesquisa da professora Vanessa Morais Freitas, o doutorando Ramon Handerson apresentou o Breast Health Check, um método de diagnóstico rápido e preciso para câncer de mama, que pode substituir a mamografia – e inclusive superar a sua especificidade. Trata-se de um biossensor que pode rastrear o tumor em seus estágios iniciais e caracterizar o subtipo da doença por meio de uma análise de amostra biológica (como um exame de sangue, por exemplo). Os anticorpos acoplados ao biossensor permitem a identificação de biomarcadores específicos de cada subtipo.
Já no laboratório do professor e diretor Luís Carlos de Souza Ferreira, foi desenvolvida a Tera-E7, uma terapia contra câncer de colo de útero e lesões induzidas pelo vírus HPV. A doutoranda Mariângela de Oliveira Silva apresentou a tecnologia e explicou que a atual vacina contra HPV não combate o câncer ou as lesões pré-estabelecidas, e que os tratamentos convencionais têm pouca chance de cura, além de provocarem efeitos adversos graves. Baseada em imunoterapia, a tecnologia reprograma o sistema imunológico da paciente para que as células tumorais sejam reconhecidas e eliminadas. Além disso, promove a memória imunológica, que impede recidivas da doença.
Outra tecnologia com grande potencial de mercado é o PEPtarget, peptídeo cardioprotetor do infarto do miocárdio, desenvolvido pelo professor Julio Cesar Batista Ferreira e pelo pós-doutorando Luiz Roberto Grassmann Bechara. Em testes in vitro e in vivo, a administração do peptídeo no momento da reperfusão do miocárdio diminuiu a área de infarto, atenuando a lesão cardíaca e podendo aumentar as chances de sobrevivência após o infarto.
As descrições das demais pesquisas, bem como o processo de avaliação da maturidade tecnológica, podem ser conferidos neste site.
Por: Aline Tavares
Acadêmica Agência de Comunicação
Showcase de Biotechs do ICB-USP apresentará para empresas uma série de tecnologias promissoras desenvolvidas pelo instituto.
10/12/2019
Uma parceria entre o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e a Emerge, organização que apoia cientistas empreendedores no Brasil, resultou em um mapeamento das 20 tecnologias mais promissoras desenvolvidas por pesquisadores do instituto. Os trabalhos selecionados serão apresentados durante o Showcase de Biotechs dos Laboratórios do ICB-USP, no dia 12 de dezembro, às 17 horas, no Inovabra (Av. Angélica, 2529, Bela Vista – São Paulo). As inscrições são obrigatórias e gratuitas e podem ser realizadas neste site.
Voltado para empresas, o evento busca promover a cooperação entre academia e indústria, importante para o desenvolvimento científico, econômico e social. Diante disso, a Emerge selecionou as pesquisas com base na maturidade tecnológica e no potencial de mercado. Grande parte dos estudos envolve novas perspectivas de diagnóstico e tratamento de doenças.
Entre as tecnologias que serão apresentadas, estão um sensor para rastreio e diagnóstico de câncer de mama; um novo teste de diagnóstico da dengue; uma nova terapia alvo direcionada para melanoma, mama e sarcoma; um potencial biofármaco para tratamento de doenças autoimunes e uma estratégia para “ensinar” o sistema imune a reconhecer e combater células tumorais.
Sobre a Emerge – Criada em 2017, a Emerge é uma organização cujo objetivo é fomentar a inovação de base científica no Brasil, impulsionando projetos da bancada até o mercado. Para isso, proporciona o acesso de grandes corporações à tecnologia desenvolvida em universidades e centros de pesquisa, oferecendo um mapeamento estratégico das pesquisas mais promissoras e apresentando-as em eventos para empresas.
Sobre o ICB-USP – Considerado uma das melhores instituições de nível superior do Brasil em sua área, o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) é referência internacional em pesquisa básica e translacional. Nos seus mais de 150 laboratórios são desenvolvidos projetos de pesquisa de alta qualidade e impacto social em saúde humana e animal. Seus docentes têm alta produtividade científica com cerca de 600 publicações anuais em periódicos com alto fator de impacto. O ICB representa a 6ª unidade da USP em número de pedidos de patente depositados no INPI e está entre as três primeiras unidades de pesquisa no Estado de São Paulo com mais recursos captados junto à FAPESP.
Serviço
Showcase de Biotechs dos Laboratórios do ICB-USP
Data: 12 de dezembro de 2019
Horário: 17h às 21h
Local: Inovabra – Auditório, 10º andar – Av. Angélica, 2529, Bela Vista – São Paulo, SP
O evento contou com a presença dos coordenadores da área de biológicas da CAPES para debater sobre os programas de pós-graduação na USP
04/12/2019
A Comissão de Pós-Graduação (CPG) do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) promoveu na última segunda-feira (02) o Seminário “Discutindo a Pós-graduação dentro das Áreas Biológicas da CAPES” como parte das comemorações dos 50 anos do ICB. O evento contou com a presença dos Coordenadores das três áreas Biológicas da CAPES: Prof. Carlos Frederico Menck — Coordenador das Ciências Biológicas 1, Profa. Adelina Marta dos Reis — Coordenadora das Biológicas 2 e Prof. José Roberto Mineo — Coordenador das Biológicas 3.
Representantes dos seis Programas de Pós-Graduação do ICB compartilharam experiências e discutiram com os demais coordenadores os desafios para a manutenção da qualidade dos Programas e as estratégias para contribuir mais e melhor com as expectativas da sociedade, buscando a formação de alunos cada vez mais preparados para enfrentar tanto o mercado de trabalho quanto a academia.
Na parte da tarde, a discussão foi aberta aos demais Programas da USP que se enquadram dentro das 3 áreas Biológicas: Bioquímica (IQ), Fisiologia (FMRP), Biologia Celular (FMRP), Fisiologia (IB), Bioinformática (Interunidades), Biotecnologia (Interunidades), além do Programa de Aconselhamento Genético (Mestrado Profissional, IB), entre outros.
Para os professores Maria Luiza Barreto-Chaves e Carlos Taborda, atuais presidente e vice-presidente da CPG do ICB-USP, o evento foi organizado com o intuito de integrar cada vez mais os Programas de Pós-Graduação, objetivo principal da atual coordenadoria, tanto dentro do instituto, quanto com os demais programas das áreas dentro da universidade. Segundo eles, foi a primeira vez que as três áreas da CAPES se reuniram para discutir os programas.
O concurso propunha que os alunos encontrassem soluções para problemas do bairro de forma criativa e inovadora.
04/12/2019
O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) recebeu, na última sexta-feira (29), cinco estudantes da Escola Estadual Dr. Coriolano Burgos, localizada em Amparo, no interior de São Paulo, para uma visita monitorada às instalações e laboratórios da instituição. Os alunos foram os vencedores do Concurso “Ciência para Todos”, uma iniciativa da Fapesp, do canal Futura e da Fundação Roberto Marinho. O objetivo era premiar os projetos em vídeo dos alunos da Rede Pública do Estado de São Paulo que identificassem um problema da escola ou do bairro e as possíveis alternativas para solucioná-lo.
Os alunos premiados nesta edição elaboraram uma horta orgânica suspensa usando garrafas PET e terra retirada de outros locais, pois além da preocupação com a quantidade de agrotóxicos presentes nas merendas, a escola foi construída em um terreno que antes era um cemitério. Isso impossibilitava o cultivo por conta da contaminação do solo pelo necrochorume, substância liberada durante a decomposição dos corpos que contém inúmeros patógenos e, em alguns casos, formaldeído e metanol, metais pesados e resíduos hospitalares.
Com coordenação da Comissão de Cultura e Extensão do ICB, os alunos conheceram o Laboratório de Bioprodutos, do professor Gabriel Padilla Maldonado, que estuda a biossíntese de compostos anticancerígenos de origem microbiana. Em seguida, visitaram o Laboratório de Genética e Fisiologia Bacteriana de Rita de Cássia Café Ferreira, onde conversaram com alguns pesquisadores e conheceram o projeto Adote uma Bactéria, que propõe aulas interativas utilizando ferramentas digitais e oferece cursos de difusão para alunos do ensino médio.
Os ganhadores do concurso também fizeram um tour pelo Laboratório de Nível de Biossegurança 3 (NB-3) do Departamento de Parasitologia, coordenado pelo professor Carsten Wrenger. Os alunos passaram por todas as salas, conhecendo os sistemas de segurança e a avançada tecnologia que compõem o laboratório. Para completar o passeio, eles ainda visitaram o laboratório do pesquisador Mauro Javier Cortez Veliz, que estuda a imunobiologia celular de Leishmania.
O concurso surgiu com o objetivo de incentivar uma postura investigativa dos alunos diante de problemas e desafios que eles enfrentam no dia a dia. Foi idealizado após o lançamento do programa de TV “Ciência para Todos”, uma iniciativa da Fapesp ao lado da TV Futura. No total, são 52 episódios que retratam os impactos sociais e econômicos das pesquisas científicas financiadas pela fundação.
Rhaisa Trombini | ICB-USP
Várias pesquisas sobre o tema foram apresentadas durante o Workshop Molecular, Cellular and Behavioral Aspects of Neurological Disorders, iniciativa do ICB-USP.
03/12/2019
O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) promoveu em São Paulo, nos dias 25 e 26 de novembro, o Workshop Molecular, Cellular and Behavioral Aspects of Neurological Disorders. Organizado pela professora Marilene Hohmuth Lopes, professora do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do ICB-USP, em parceria com Flávio Henrique Beraldo de Paiva, professor da Universidade Western Ontario (UWO), no Canadá, o evento faz parte do acordo de mobilidade internacional firmado entre as duas instituições, por meio do programa SPRINT (São Paulo Researchers in International Collaboration) da Fapesp.
“O workshop foi uma oportunidade para pesquisadores, tanto da UWO quanto do ICB, apresentarem suas linhas de pesquisa sobre doenças neurológicas. A ideia é que a colaboração se estreite para fomentar novos projetos conjuntos de pesquisa”, explicou a professora Marilene Lopes, que realiza parte de suas pesquisas sobre células-tronco no Canadá.
No total, participaram 13 palestrantes, sendo três do Canadá. Foram discutidas diferentes abordagens para desvendar os mecanismos de ação específicos que controlam doenças neurológicas — Alzheimer, Parkinson, Transtorno do Espectro Autista, Esclerose Lateral Amiotrófica —, como metabolismo, modelos IPSCs (células-tronco pluripotentes induzidas), proteostase, idade, modelo animal, comportamento e optogenética.
Uma das palestrantes, a professora Elisa Mitiko Kawamoto, do Departamento de Farmacologia do ICB-USP, apresentou um estudo apontando a relação de dietas que envolvem jejum, conhecidas como intermittent fasting (IF), e doenças neurodegenerativas – as quais apresentam fatores de riscos como idade, genética e estilo de vida, entre outros. Na pesquisa, Kawamoto aponta que uma dieta composta de períodos de jejum pode ajudar a reduzir o risco de desenvolver essas doenças.
O corpo responde ao jejum desencadeando uma série de respostas adaptativas conhecida como hormese, que pode reduzir o estresse oxidativo, a inflamação e o dano no DNA. Um dos efeitos do jejum é a liberação de corpos cetônicos durante a queima de gordura, componente usado na produção de energia no corpo.
Durante os testes, a pesquisadora submeteu dois grupos de ratos a duas dietas: uma com intervalos de jejum e outra sem. Depois de 30 dias, injetou LPS (lipopolissacarídeo), uma molécula presente na membrana celular de bactérias que causa inflamação e, consequentemente, prejuízos na memória. Em seguida, ao avaliar os resultados, ela verificou que os animais que foram submetidos ao jejum intermitente foram pouco afetados pela inflamação em termos de memória.
Em outro teste, Kawamoto buscou mimetizar o efeito do jejum intermitente usando fitoquímicos, substâncias que imitam os efeitos da restrição calórica no corpo. Para isso, um grupo de animais foi submetido à dieta com cúrcuma (açafrão da terra), que contém curcumina, antes de receber a molécula LPS. A curcumina apresentou bons resultados ao atenuar os prejuízos de memória causados pela molécula.
A professora Patrícia Beltrão-Braga, do Departamento de Microbiologia do ICB-USP, abordou suas pesquisas a respeito do Transtorno do Espectro Autista e da Síndrome Congênita causada pelo Zika Vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.
Em casos de autismo, os estudos apontaram que o astrócito, célula que faz a ligação do neurônio com o sangue, libera muita interleucina 2 (IL-2), uma citocina secretada pelo sistema imunológico que pode ser tóxica se liberada em grande quantidade. Ao aplicar IL-2 de um paciente neurotípico nos neurônios de um paciente com o espectro, o grupo notou que as sinapses e ligações do neurônio melhoraram.
Essas pesquisas tiveram o apoio do Projeto Fada do Dente, uma iniciativa que usa dentes de leite doados, tanto de crianças com autismo quanto sem, que passam pelo processo de IPSCs (células-tronco pluripotentes induzidas). A técnica transforma células-tronco da polpa do dente em células pluripotentes que podem ser transformadas em qualquer outra.
A parceria entre o ICB-USP e a UWO seguirá no evento XX Congress of the Brazilian Society of Cell Biology, em julho de 2020, que também contará com a participação de docentes da universidade canadense.
Rhaisa Trombini | ICB-USP
Em evento no ICB-USP, o senador Cristovam Buarque e o professor Isaac Roitman debateram sobre o papel da universidade e da ciência e a necessidade de estabelecer um diálogo com a sociedade.
03/12/2019
O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) recebeu, na última quinta-feira (28/11), o senador e professor Cristovam Buarque e o professor Isaac Roitman para um debate sobre o cenário da educação e da ciência no Brasil. Mais do que abordar os aspectos da crise que o país enfrenta, os convidados apresentaram soluções e demonstraram que o diálogo com a sociedade é a peça fundamental para a valorização e desenvolvimento desses pilares.
Isaac Roitman foi diretor de avaliação da Capes e assessor da presidência do CNPq, e atualmente coordena o Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília (UnB). Para o professor, a falta de infraestrutura e a desvalorização dos professores são as principais causas da crise na educação. “Nós temos 20 mil escolas públicas que não têm nem água”, afirma. Segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem de 2018, entre 48 países avaliados, o Brasil está em último lugar em relação aos salários dos professores.
Para mudar esse cenário, o senador Cristovam Buarque, vice-presidente do Conselho da Universidade das Nações Unidas, afirma que o principal caminho é que as pessoas vejam a educação como “um vetor para o progresso” – como mais do que um direito, uma necessidade.
Além da educação básica, eles apontaram mudanças necessárias no ensino superior e nas ações da comunidade acadêmica. “O trabalho publicado não pode ser o único indicador de qualidade do professor. A pesquisa é o campo mais valorizado, em seguida o ensino e por último a extensão. Precisamos acabar com essa assimetria; os três têm o mesmo grau de importância”, destaca Roitman. Os palestrantes também defenderam o fortalecimento do intercâmbio nacional e internacional, dos institutos nacionais de ciência e tecnologia e o incentivo à formação científica desde a escola.
Informação é progresso – Como afirmou o diretor do ICB-USP, professor Luís Carlos de Souza Ferreira, os compromissos dos acadêmicos e cientistas são com a sociedade, portanto ultrapassam os muros da universidade. No entanto, o que acontece dentro dela ainda é desconhecido por muitos. Segundo pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), realizada com 2,2 mil jovens brasileiros, 93% não souberam citar o nome de um cientista brasileiro e 87% não conseguiram lembrar de alguma instituição brasileira que se dedica à pesquisa científica.
Roitman enfatiza que para conquistar o apoio da sociedade, é necessário mudar a percepção da ciência no Brasil – e a divulgação científica de qualidade é essencial nesse processo. “É preciso que a população tenha conhecimento do que se faz dentro de uma universidade, para entender a importância da pesquisa em promover uma melhor qualidade de vida a todos”.
Aline Tavares | Acadêmica Agência de Comunicação
Embora tenha um efeito antitumoral já conhecido, a seletividade da pradimicina-IRD pelas células desse tipo de câncer torna a molécula um possível agente terapêutico.
27/11/2019
Na busca por alternativas mais baratas e eficazes para o tratamento de câncer, o Laboratório de Farmacologia de Produtos Naturais Marinhos do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) foca suas pesquisas em produtos naturais, moléculas encontradas na natureza que podem ter efeito terapêutico contra células tumorais. Uma das descobertas mais recentes foi de Larissa Costa de Almeida, doutoranda sob orientação da professora Letícia Veras Costa Lotufo, que apontou, pela primeira vez, a ação da molécula pradimicina-IRD contra células de carcinoma colorretal.
A molécula foi extraída de uma bactéria do gênero Amycolatopsis sp., encontrada no solo, e os estudos iniciais realizados in vitro utilizaram células de três linhagens de câncer diferentes: mama, melanoma e colorretal, sendo escolhida a linhagem de câncer colorretal para os estudos seguintes, por apresentar-se mais sensível a pradimicina-IRD. Na análise, Almeida indica que a molécula tem maior seletividade para células com alta taxa de proliferação, como as do tumor, e é 10 vezes mais seletiva às células do carcinoma colorretal do que às células não tumorais. Os marcadores usados durante a pesquisa apontaram que a molécula ataca o DNA da célula do câncer colorretal, que já possui alta instabilidade genética, causando interrupção do ciclo celular e apoptose (morte celular programada).
O próximo passo da pesquisa é descobrir quais genes de reparo de DNA são ativados pela molécula em estudo. Com isso, a pesquisadora pretende sugerir um novo alvo farmacológico para efeitos sinérgicos (efeitos aditivos) entre a pradimicina-IRD e um outro possível fármaco. “Uma vez que se entende qual é a via de reparo de DNA ativada pela pradimicina-IRD, inibir essa via potencializa o efeito, evitando problemas como resistência”, explica Almeida. O mecanismo antitumoral da pradimicina-IRD já é conhecido em outros agentes que estão disponíveis no mercado; sua vantagem na atual pesquisa é a alta seletividade para as células do câncer colorretal.
Apesar dos resultados promissores, realizar testes translacionais in vivo ainda não é uma realidade. O principal empecilho da pesquisadora é a quantidade de pradimicina-IRD produzida pela bactéria. Em testes in vitro, a quantidade é calculada em micrograma, já os testes in vivo precisam de miligramas, o que demanda mais tempo e suporte para produção da molécula.
Rhaisa Trombini | ICB-USP
A pesquisadora Silvia Lacchini, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, direcionou sua pesquisa para entender a participação do peptídeo angiotensina II na formação de dano vascular nos casos em que não há aumento da pressão arterial.
19/11/2019
A hipertensão é uma doença silenciosa que afeta 35% da população brasileira. O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) computou aproximadamente 388 mortes por dia decorrentes de hipertensão em 2017; contudo, mesmo com os alertas e recomendações, 50% dos portadores da doença não sabem que a tem. A condição tem alguns fatores de risco, como hereditariedade, estilo de vida e idade, e envolve a alteração no funcionamento de mecanismos fisiológicos de controle. Estes mecanismos sofrem alterações mesmo em indivíduos com pressão arterial dentro de níveis considerados normais, os chamados normotensos.
Segundo Silvia Lacchini, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), ainda não está claro até que ponto estas modificações permanecem dentro do nível de “normalidade” e em que momento desencadeiam um processo de doença. A pesquisadora busca entender quais mecanismos de controle podem sofrer alterações perigosas para o sistema cardiovascular mesmo em indivíduos normotensos e se elas podem levar ao desenvolvimento de doenças como a aterosclerose e a hipertensão.
Um dos focos de sua pesquisa analisa o Sistema Renina Angiotensina (SRA), um dos mecanismos de controle da pressão arterial, e que utiliza moléculas como o peptídeo angiotensina II para controlar a concentração de água e sal no organismo. O objetivo de Lacchini é entender se pequenos aumentos nesse peptídeo podem causar alteração vascular, mesmo que os indivíduos se mantenham normotensos. Um estudo recente do grupo realizou testes em camundongos que receberam uma baixa quantidade de angiotensina II, sem causar mudança na pressão arterial – assim, os efeitos observados seriam decorrentes da molécula e não de uma possível hipertensão.
A aplicação do peptídeo desencadeou uma série de respostas inflamatórias sobre a aorta (maior artéria do corpo), tanto de forma precoce (após 30 minutos), como de forma tardia (após 48 horas). Esses resultados sugerem que a angiotensina II induz picos de inflamação vascular, mesmo na ausência de hipertensão. A análise é realizada com a ajuda de marcadores inflamatórios, proteínas liberadas pelo sistema imune, como IL1, IL6 e TGFβ.
Pensando que a perda de função das artérias pode levar a diversas complicações, como a aterosclerose (acúmulo de placas de gordura nas artérias), e mesmo à hipertensão, é importante identificar os mecanismos que se encontram na transição entre o estado saudável e o estado doente. Segundo a pesquisadora, a identificação das respostas inflamatórias causadas pela angiotensina II em indivíduos normotensos pode ser um passo importante para entender o quanto essas oscilações de marcadores inflamatórios podem conduzir a um quadro de dano vascular ou de hipertensão. Isso abriria uma nova perspectiva para buscar formas de prevenção ou tratamento precoce da hipertensão.
Rhaisa Trombini | ICB-USP
Pesquisas do Instituto de Ciências Biomédicas da USP demonstraram que a hipotermia durante a sepse é uma resposta de tolerância ao patógeno e que, em certos casos, pode ser benéfica ao paciente.
Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) propôs uma nova forma de pensar na sepse, inflamação sistêmica potencialmente fatal que pode ocorrer em decorrência de infecções. O artigo, publicado recentemente na revista Trends Endocrinol Metab, aborda a existência de duas estratégias de defesa contra infecções que são opostas, porém, complementares. Em uma dessas estratégias, a febre nos ajuda a eliminar patógenos (resistência); na outra, uma redução na temperatura corpórea, denominada hipotermia, nos ajuda a tolerar os danos causados pelos microrganismos (tolerância). É como se houvesse um yin-yang na defesa contra patógenos. Em estudos realizados com pacientes sépticos no Hospital Universitário da USP, foi observado que ambas são resposta naturais, transitórias e autolimitantes do corpo – ou seja, assim como a febre, a hipotermia também é regulada e coordenada pelo sistema nervoso central.
Alexandre Steiner, docente responsável pela pesquisa, estuda o tema há quase 20 anos e afirma que toda resposta imune de ataque tem um dano colateral. “Se o custo desse dano colateral é muito alto, o organismo acaba optando por tolerar temporariamente o patógeno com o auxílio da hipotermia, enquanto cria condições para voltar a combatê-lo com o auxílio da febre”. Por esse motivo, os pacientes analisados apresentaram variações de temperatura, mas geralmente de forma regulada. Em humanos, a febre costuma ser limitada a 39 ou 39,5ºC, e a hipotermia se estabiliza entre 34 e 35ºC. O paciente volta à temperatura ‘normal’ sozinho.
O conceito de valores “normais” também foi debatido durante os estudos. Segundo Steiner, no caso de pacientes com infecção, estamos lidando com “novos normais” – novos valores de referência de temperatura que o indivíduo infectado precisa para lidar com mudanças no funcionamento do seu organismo. Em outras palavras, manter a temperatura a 36,5ºC não é normal para um indivíduo infectado; o “novo normal” é ter febre inicialmente e, se a condição se agravar, hipotermia.
Uma série de testes realizada pelo grupo em ratos e camundongos demonstrou que, quando a infecção era gravíssima e havia desenvolvimento de hipotermia, o aquecimento forçado aumentava a mortalidade. Por outro lado, se a infecção é menos grave e há febre, existem evidências de que o resfriamento pode aumentar a mortalidade. “É um equívoco achar que a eliminação da febre ou da hipotermia melhora o quadro infeccioso, mesmo que dê a falsa impressão de um retorno à normalidade”, explica o pesquisador.
O caráter regulador da febre se apresenta no próprio comportamento do indivíduo – quando estamos com febre, sentimos frio e procuramos um ambiente mais quente. Em outros testes, quando os ratos vão desenvolver hipotermia durante a infecção, eles buscam um ambiente frio para ajudar a diminuir a temperatura. “Como a febre, a hipotermia nesses casos parece ser um processo ativo do sistema nervoso central, que faz com que a temperatura caia naturalmente”.
Para Steiner, o trabalho representa um importante ganho conceitual, que aborda o sistema imune como uma parte inseparável dos sistemas fisiológicos e não como um sistema independente. Além disso, muda a forma de entender as doenças infecciosas graves, propondo uma visão individualizada para cada paciente. “Pacientes em situações diferentes poderão se beneficiar mais da febre (resistência) ou da hipotermia (tolerância), ou ainda de uma alternância entre um estado e outro. Se continuarmos a procurar terapias que funcionem para todos em um grupo heterogêneo de pacientes, nossas opções ficam muito limitadas”.
Aline Tavares | Acadêmica Agência de Comunicação
Voltada para alunos de pós-graduação, a premiação faz parte da comemoração dos 50 anos da instituição e será concedida pela SBI e SBBC
11/11/2019
O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo irá promover uma série de atividades entre os dias 16 e 20 de dezembro para celebrar o aniversário de 50 anos da instituição. Como parte das comemorações, a Comissão de Pós-Graduação (CPG) lançou o concurso “Ciência em 3 minutos”, com o objetivo de estimular a comunicação e a disseminação do conhecimento científico.
Para tal, alunos(as) regularmente matriculados nos Programas de Mestrado e Doutorado do ICB podem enviar um vídeo de aproximadamente três minutos divulgando suas linhas e projetos de pesquisa, assim como métodos e técnicas comumente usados na área biológica ou vídeos e podcasts visando o ensino de disciplinas na graduação. Após avaliação da comissão julgadora indicada pela CPG, os prêmios serão concedidos pela Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) e pela Sociedade Brasileira de Biologia Celular (SBBC).
O prazo para submissão dos formulários é dia 25/11. A divulgação dos vídeos selecionados será realizada entre 9 e 13 de dezembro – esses vídeos serão exibidos durante a cerimônia de premiação no dia 18/12, às 14h. No final, os vencedores de cada categoria serão anunciados.
Especificações:
Os critérios de avaliação abrangem originalidade, formato do vídeo, clareza e relevância para o desenvolvimento, formação e ensino científico. A inscrição deve ser realizada por meio deste formulário, junto ao upload do vídeo ou produto, com no máximo 5 minutos, que deverá conter o nome do(s) aluno(s) e o título do trabalho em algum momento.
Os inscritos deverão anexar também uma declaração própria e do orientador transmitindo os direitos autorais do vídeo para o ICB-USP, permitindo divulgação nas mídias sociais.
Acesse o edital completo aqui.
08/11/2019
O tratamento do câncer, apesar de eficaz, traz consigo uma série de efeitos colaterais, como queda de cabelo, anemia, infecções, perda de apetite, fadiga e diminuição da massa muscular. Uma pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), publicada no Journal of Cellular Physiology, indica que o exercício aeróbio pode ser uma alternativa para melhorar a qualidade de vida de pacientes durante o tratamento quimioterápico. O doutorando Edson A. de Lima, orientado pelo professor José Cesar Rosa Neto, realizou testes em animais demonstrando que o exercício aeróbio é capaz de melhorar a condição de fadiga, funções metabólicas e desempenho físico.
Um dos fármacos usados para tratamento de câncer é a doxorrubicina (DOX), com um amplo espectro de atuação. Apesar de ter um bom efeito antitumoral, esse fármaco acaba sendo citotóxico também para outras partes do corpo. As principais queixas de efeitos colaterais dos pacientes que usam DOX são: fadiga, perda de desempenho e diminuição da massa muscular, sendo essa última uma consequência já esperada de pacientes com câncer antes do tratamento.
Buscando mimetizar o que acontece com pacientes em tratamento, o experimento foi realizado em camundongos sem tumores – o objetivo era analisar apenas o efeito do fármaco – que receberam 2,5 mg/kg de DOX duas vezes por semana durante seis semanas. Segundo a análise do pesquisador, o fármaco afetou diretamente alguns sistemas do corpo que levaram a efeitos colaterais como:
Aumento de corticosterona, um hormônio que tem função sistêmica no organismo dos animais – seu correspondente no ser humano é o cortisol. Vários tecidos têm suas funções coordenadas por ele, mas a concentração em excesso passa a ser uma das causas que leva à atrofia muscular e perda da musculatura;
Inibição da ativação da AMPk, uma proteína importante para o metabolismo celular.
A corticosterona, conhecido como hormônio do estresse, já tem sua quantidade no organismo aumentada por conta do próprio tratamento, uma situação estressante para o paciente.
Em seguida, os animais foram divididos em três grupos: o controle, que recebeu solução salina; animais que fizeram exercício aeróbio na esteira com 60% da velocidade máxima e animais que receberam metformina, um medicamento usado para tratamento de diabetes tipo 2. Essas duas abordagens, exercício e metformina, aumentam a ativação da proteína AMPk. A intenção do pesquisador era analisar métodos farmacológicos e não farmacológicos para minimizar os efeitos colaterais da quimioterapia.
O resultado apontou uma melhora no condicionamento físico e na resistência à fadiga dos animais exercitados, porém não houve alteração na perda de massa muscular. A diminuição de corticosterona em ambos os tratamentos indicaria uma “atenuação da condição de estresse sistêmico”. “No caso, o exercício físico é uma estratégia não farmacológica, de baixo custo e que no final acaba melhorando a qualidade de vida das pessoas tratadas”, explicou Lima. Na continuação do doutorado, ele pretende testar novamente as terapias na presença do tumor.
Rhaisa Trombini | ICB-USP
No SIBBAS 2019, a imunoterapia se apresentou como a grande promessa de tratamento, mas há pacientes que não têm boa resposta.
08/11/2019
Na última quinta-feira (24/10), aconteceu o SIBBAS 2019, Semana de Inovações Biológicas e Biotecnológicas Aplicadas à Saúde, no Instituto de Ciência Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Organizado pelos alunos do curso de Ciências Fundamentais para a Saúde, com apoio da Comissão Coordenadora, o tema central do evento foi “Imunoterapia no combate ao câncer”.
Quatro pesquisadores convidados falaram sobre suas abordagens de pesquisa. O primeiro foi José Alexandre Barbuto, pesquisador do Departamento de Imunologia do ICB-USP. Para ele, a imunoterapia representa uma quebra de paradigma na resposta imune do paciente com câncer. “Câncer de pulmão, que não respondia a nada, agora tem 30% a 40% de chance de ter resposta”, exemplificou.
Barbuto explica que o sistema imunológico não consegue responder ao câncer, pois o tumor em fase inicial não tem um padrão molecular que induza os linfócitos T (células de defesa) a produzir essa resposta – então, o tumor “escapa”. “O que o sistema imune faz é ‘regular’ o ambiente, mas não impedir o desenvolvimento do tumor”, disse. A imunoterapia muda este cenário pois usa células dendríticas, responsáveis pela regulação do sistema imune, como checkpoint inhibitors. Ou seja, o tratamento desliga essa função reguladora negativa, induzindo o sistema imune a ter uma resposta contra o câncer e atacar as células tumorais. Uma vacina terapêutica desenvolvida no laboratório de Barbuto têm obtido sucesso em testes em pacientes com glioblastoma, um tumor cerebral agressivo.
Alguns pacientes, no entanto, não respondem bem à imunoterapia. No A.C Camargo Cancer Center, um centro de estudos que alia pesquisa clínica com tratamento, pesquisadores vêm usando biomarcadores para descobrir quais pacientes irão responder ou não à imunoterapia e quais deles poderão desenvolver eventos adversos. A informação foi apresentada por Kenneth John Gollob, líder do grupo de Imuno-oncologia Translacional e pesquisador de Imunorregulação do Câncer na instituição.
Segundo ele, no A.C Camargo Cancer Center, pessoas com câncer recebem tratamento de imunoterapia e, em contrapartida, doam sangue e material para biópsia, fornecendo informação clínica para pesquisas. Lá também são realizados estudos com checkpoints inhibitors.
O evento contou ainda com palestras de Martin Hernan Bonamino, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (INCA), e Milena Perez Mak, do Hospital São Luiz (Rede D’OR). Também foram apresentados nove trabalhos de graduação e pós-graduação do ICB-USP.
Rhaisa Trombini | ICB-USP
Durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia do ICB-USP, o pesquisador Alexandre Del Rey apresentou as diversas aplicações da inteligência artificial na ciência e na saúde.
31/10/2019
A inteligência artificial (IA) possibilita que máquinas aprendam com experiências e executem tarefas que o ser humano é capaz de fazer, como aprender padrões, reconhecer pessoas e objetos e até conversar. O assunto foi discutido durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), evento que ocorreu nos dias 21 e 22 de outubro e foi organizado pela Comissão de Cultura e Extensão (CCEx). O pesquisador Alexandre Del Rey, sócio-fundador da I2AI (International Association of Artificial Intelligence), esteve presente para responder à questão: como a inteligência artificial pode impactar a ciência e a saúde?
Para ele, essa tecnologia é a grande protagonista da 4ª revolução industrial, conceito desenvolvido pelo engenheiro e economista alemão Klaus Schwab. Durante a palestra, Del Rey citou uma série de tecnologias de IA que já estão sendo utilizadas para diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças. Os gêmeos digitais, por exemplo, são modelos virtuais de sistemas que são atualizados em tempo real ao serem conectados ao sistema físico, por meio de sensores. Uma dessas tecnologias é o HeartModel, da Philips, que permite criar cópias virtuais 3D de corações de pacientes e avaliar suas funções e estruturas, ajudando a diagnosticar e a identificar a melhor forma de tratamento para cada doença.
Outra tecnologia de inteligência artificial que tem sido utilizada é a visão computacional, que, aplicada à saúde, pode auxiliar pessoas com limitações físicas e pacientes hospitalares. Um exemplo disso é a Wheelie 7, uma cadeira de rodas com sistema de reconhecimento facial que controla o movimento a partir expressões, como arquear as sobrancelhas ou piscar. O produto foi desenvolvido pela startup brasileira Hoobox Robotics, criada em 2016 por pesquisadores da Unicamp, e teve apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da FAPESP.
Além da Wheelie 7, o Brasil também é responsável por outros projetos inovadores. É o caso do Robô Laura, criado pelo arquiteto de sistemas Jacson Fresatto. O sistema lê informações de pacientes e emite alertas que são enviados a cada 3,8 segundos à equipe médica, sinalizando aqueles com risco de infecção generalizada e alertando com antecedência outros casos de deterioração no quadro clínico. Já a startup Anestech desenvolve ferramentas que auxiliam os anestesiologistas, com o objetivo de tornar mais precisos os cálculos envolvidos na anestesia.
Impactos econômicos e sociais – De acordo com uma pesquisa da Accenture e da Frontier Economics, apresentada durante a palestra, estima-se que, até 2035, o setor de Saúde poderá ter um aumento de 55% de participação nos lucros caso as instituições utilizem tecnologias de inteligência artificial. Para os setores de Educação e Alimentos, o aumento poderá ser de 84% e 74%, respectivamente.
Para Alexandre Del Rey, toda tecnologia é um meio, mas quem determina a sua finalidade são as pessoas. “Utilizando a tecnologia a nosso favor, podemos melhorar as relações humanas e auxiliar no desenvolvimento da ciência e da sociedade”.
A I2AI (International Association of Artificial Intelligence), fundada por Del Rey ao lado de Alexandro Romeira e Alexandre Nicolau, é uma associação sem fins lucrativos que tem a proposta de conectar pessoas e empresas interessadas em desenvolver tecnologias de inteligência artificial, além de promover eventos e cursos sobre o tema.
Semana Nacional de Ciência e Tecnologia – A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia é um evento promovido anualmente pela Comissão de Cultura e Extensão (CCEx) do ICB-USP. A última edição, realizada nos dias 21 e 22 de outubro, recebeu professores e alunos do ensino médio da rede pública de ensino e alunos de graduação.
Além de inteligência artificial, os palestrantes abordaram temas como inovações da neurociência, biologia do câncer e farmacologia marinha. Os visitantes também tiveram a oportunidade de conhecer laboratórios do Instituto e participar de oficinas científicas, aprendendo a extrair o DNA de um morango e a visualizar as células de uma cebola. Houve também a apresentação da peça “Com carinho, Rosalind Franklin”, escrita e encenada por Helena de Madureira Marques. A obra conta a história da cientista e a sua participação fundamental na descoberta da estrutura do DNA.
Por: Aline Tavares
Acadêmica Agência de Comunicação
Testes em animais feitos no Instituto de Ciências Biomédicas da USP revelaram que o agonista canabinoide ACEA recupera o prejuízo de memória e evita a morte de neurônios. O estudo foi feito em modelos que simulam o início da doença.
23/10/2019
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa cujas causas ainda representam um desafio para a ciência – 95% dos pacientes têm o tipo esporádico da doença, que aparece por motivos desconhecidos, enquanto os outros 5% são de origem genética. Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) utilizaram um composto canabinoide feito em laboratório, o ACEA (Araquidonil-2′-cloroetilamida), para tratar animais com Alzheimer e verificaram que os danos de memória são recuperados. O artigo foi publicado na revista científica Neurotoxicity Research.
A coordenadora do estudo, professora Andréa da Silva Torrão, do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB-USP, explica que a intenção era estudar a fase inicial da doença. Atualmente, a hipótese mais aceita entre os pesquisadores é que o acúmulo do peptídeo beta-amiloide no cérebro está relacionado ao Alzheimer – assim, outros estudos costumam induzir diretamente o aumento desse peptídeo. No entanto, segundo Torrão, há pesquisas que indicam que nem sempre a proteína está relacionada à doença.
“No nosso caso, injetamos a droga estreptozotocina (STZ) no cérebro dos animais para simular a condição. A substância provoca uma deficiência no metabolismo dos neurônios, o que poderia preceder a deposição do beta-amiloide”, explica a professora. Em seguida, o grupo aplicou nos animais um teste de memória: o teste de reconhecimento de objetos. “O rato é naturalmente curioso e explora tudo. Quando colocamos um objeto novo, os animais controles percebem e exploram mais aquele local. Já os ratos com Alzheimer continuam explorando todo o ambiente por igual”. O teste é repetido uma hora depois e também no dia seguinte, para avaliar a memória de curto e longo prazo.
O próximo passo foi tratar os animais com o composto canabinoide sintético ACEA, que é um agonista canabinoide – ele se liga ao receptor CB1 e o ativa, diminuindo a atividade neural e a produção de radicais livres. O CB1 é um receptor canabinoide (parte de nosso sistema endocanabinoide) presente no cérebro, especialmente no hipocampo, que está relacionado à memória e é afetado no paciente de Alzheimer. Esses receptores têm a função de neuromodulação.
Os testes foram realizados tanto in vivo como in vitro (com células nervosas em cultivo). “O ACEA reverteu o prejuízo de memória produzido pela STZ, melhorou a sinalização de insulina encefálica e regulou os níveis de proteínas indutoras de morte celular”, afirma a pesquisadora Andréa da Silva Torrão. Ela ressalta, ainda, que o ACEA não possui nenhum efeito psicoativo.
O que são agonistas canabinoides – Trata-se de substâncias quimicamente semelhantes aos compostos extraídos da maconha e aos endocanabinoides (produzidos naturalmente pelo corpo humano). De acordo com a professora, o ACEA é um canabinoide sintético que tem sido utilizado por diversos grupos de pesquisa no mundo por ser um agonista específico para o receptor CB1, que existe em grande quantidade no cérebro. Já o receptor CB2, por exemplo, é mais encontrado em tecidos periféricos.
Em 2017, a Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto inaugurou o primeiro centro de pesquisa em canabinoides do país. Lá, os pesquisadores investigam os efeitos do canabidiol (CBD) no tratamento da epilepsia em casos de pacientes que não respondem ao tratamento tradicional.
Possíveis terapias – Outros estudos do grupo de Andréa da Silva Torrão também sugerem que o sistema endocanabinoide pode ser um bom alvo terapêutico para o tratamento de doenças neurodegenerativas. Uma das pesquisas avaliou o efeito protetor do ACEA em modelos de inflamação, comum a todas as doenças degenerativas. “Nós induzimos uma inflamação na célula nervosa e também induzimos o estresse do retículo endoplasmático – onde nossas proteínas são formadas. Em ambos os casos, o tratamento com ACEA resgatou os neurônios da morte”.
Por: Aline Tavares
Acadêmica Agência de Comunicação
O novo kit sorológico IgG, recém aprovado pela ANVISA para comercialização, é capaz de identificar se o indivíduo já contraiu Zika sem apresentar reação cruzada com o vírus da dengue.
23/10/2019
Uma das principais demandas surgidas após a epidemia do vírus Zika no Brasil, que ocorreu entre 2015 e 2016, foi o desenvolvimento de um teste sorológico que permitisse responder se uma pessoa fora infectada pelo Zika mesmo após ter sido infectada pelos vírus da dengue – que compartilham grande semelhança genética e imunológica com o Zika. Nos últimos dois anos, um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) tem trabalhado neste desafio e desenvolveu um kit de sorologia para detecção de anticorpos (IgG) específico para o vírus Zika.
Trata-se de um diagnóstico que identifica se o indivíduo já teve contato com o vírus, mesmo em regiões endêmicas para o vírus da dengue. A pesquisa contou com o apoio da FAPESP e resultou em um pedido de patente, licenciado pela empresa AdvaGen Biotec e recentemente aprovado pela ANVISA para uso comercial. O kit com 96 testes já está sendo comercializado pela empresa e é voltado principalmente para mulheres em fase fértil e para estudos epidemiológicos que visem determinar pessoas que já foram expostas ao vírus. O produto foi testado em cerca de 3200 mulheres de todo o Brasil.
De acordo com Luís Carlos de Souza Ferreira, diretor do ICB-USP e um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, o kit identifica a presença do IgG – anticorpo produzido por indivíduos que já contraíram Zika e que permanece no organismo mesmo após a infecção, conferindo imunidade. “Como os vírus da dengue e Zika são muito parecidos, os testes de sorologia disponíveis hoje no mercado podem dar resultados falsos positivos ou falsos negativos, o que dificulta ou impede o diagnóstico preciso em regiões endêmicas para esses vírus”, explica.
Diferencial – Os pesquisadores do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do ICB, coordenado pelo professor Luís Carlos Ferreira, criaram e analisaram diversas proteínas recombinantes do Zika, avaliaram seu desempenho em testes de diagnóstico e encontraram um fragmento de uma proteína do vírus capaz de evitar a reação cruzada com os vírus da dengue. O teste possui 95% de especificidade para Zika, enquanto os outros do mercado possuem até 75%.
Segundo o pesquisador Edison Luiz Durigon, especialista em virologia que também participou do estudo, a principal vantagem do novo kit é a de facilitar o acompanhamento de gestantes e prevenir a microcefalia em bebês, principal consequência do vírus. Caso a mulher seja infectada só no período final da gestação, o bebê ainda corre o risco de desenvolver problemas neurológicos.
Baseado na técnica de ELISA, o kit também será útil para estudar a prevalência do Zika, uma vez que a maioria das pessoas infectadas pelo vírus não apresenta sintomas. Muitas vezes, as mulheres podem estar infectadas sem saber e passar o vírus para o feto. “Algumas crianças podem nascer sem microcefalia mas nascer com lesões ‘invisíveis’ no cérebro. Até identificar o problema, o indivíduo já pode ter desenvolvido problemas cognitivos severos”, explica Durigon.
Com a disponibilização do kit, as gestantes poderão ser acompanhadas ao longo da gravidez e descobrir se contraíram o vírus durante esse período. Se esse for o caso, o intuito é promover um acompanhamento precoce para a criança como forma de melhorar o seu prognóstico. Já aquelas previamente infectadas pelo vírus estão imunes a novas infecções.
Por: Aline Tavares
Acadêmica Agência de Comunicação
Pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP analisou as reações químicas envolvidas na formação da molécula tetronasina, produzida por bactérias Streptomyces longisporoflavus, e busca diminuir a sua toxicidade ao modificar geneticamente as enzimas que a produzem.
18/10/2019
A tetronasina é uma molécula produzida por bactérias do gênero Streptomyces que possui atividade antimicrobiana, isto é, pode ser utilizada contra algumas bactérias e protozoários. No entanto, não é utilizada clinicamente por ser tóxica às células humanas. Um estudo conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), publicado na Nature Catalysis, analisou como essa molécula de estrutura complexa é produzida pela bactéria. Com sequenciamento genético, os pesquisadores descobriram os genes envolvidos na produção das enzimas que sintetizam a molécula e, usando biologia molecular e estrutural, conseguiram produzir essas enzimas e entender como elas funcionam. A partir disso, é possível modificá-las para que produzam moléculas menos tóxicas, que possam ser utilizadas para desenvolver novos fármacos.
A pesquisa na área estrutural é parte do doutorado de Fernanda Cristina Rodrigues de Paiva, orientada pelo professor Marcio Vinicius Bertacine Dias, do Departamento de Microbiologia do ICB-USP. Atualmente, a aluna está realizando doutorado sanduíche na University of Groningen, na Holanda, dando continuidade ao trabalho. O estudo foi financiado pela FAPESP, CNPq e Capes, e teve colaboração da Universidade de Cambridge, do Reino Unido.
“Nosso grupo colaborador identifica a bactéria produtora de determinado composto e os genes responsáveis pela produção – nesse caso, o Streptomyces longisporoflavus, que produz a tetronasina. Em nosso laboratório, nós verificamos a estrutura das enzimas produtoras usando biocristalografia, obtendo uma visão tridimensional de como elas são e como elas funcionam”, explica o pesquisador.
A tetronasina é um metabólito secundário, ou seja, não é essencial para a vida da bactéria, mas é utilizada como defesa contra outras bactérias no solo. “A molécula geralmente atua na membrana do microrganismo, causando um desequilíbrio na entrada e saída de íons”. Além disso, ela é utilizada na indústria como aditivo em rações de animais para promover o ganho de peso e matar parasitas de bovinos.
As duas enzimas estudadas envolvidas na biossíntese da tetronasina (as Diels-Alderases) fazem uma reação incomum na natureza e de muita importância na área de química orgânica, conhecida como Diels-Alder – responsável pela formação da complexa estrutura de anéis presentes na molécula. Curiosamente, essa reação foi descoberta em laboratório no século XX e rendeu o Prêmio Nobel de Química em 1950 para os pesquisadores de mesmo nome. Mas foi só por volta de 2010 que os cientistas verificaram que a natureza também era capaz de realizá-la.
Segundo o pesquisador, sabendo a estrutura molecular das enzimas, o grupo as modifica geneticamente para que aceitem outros substratos – que não são os seus naturais – e, a partir daí, produzam novas moléculas. “Podemos alterar a forma da cavidade onde se encaixa o substrato da enzima, por exemplo, e os aminoácidos ali presentes. É uma estratégia de desenvolvimento de fármacos que vem ganhando notoriedade nos últimos anos e ainda utiliza métodos não agressivos ao meio ambiente”.