Após o NUCOM-ICB ter recebido, revisado e editado o texto abaixo, da Comunicação do CEPID B3, o qual relata como metodologias ativas aproximam estudantes da pesquisa biomédica , divulgamos abaixo a íntegra dessa matéria produzida por eles, devido à sua qualidade informativa*:
Pesquisa do ICB-USP mostra que metodologias ativas aproximam estudantes da pesquisa biomédica e ampliam a compreensão sobre resistência aos antibióticos.
Por que algumas bactérias conseguem causar infecções tão difíceis de tratar? A resposta pode estar em um fenômeno surpreendente: elas são capazes de “conversar” entre si. Embora o bate-papo seja invisível aos nossos olhos, essa comunicação desperta grande interesse dos pesquisadores, já que compreender seu funcionamento pode abrir caminho para novas estratégias de diagnóstico e terapias capazes de reduzir a virulência das bactérias sem, necessariamente, utilizar antibióticos.
Grande parte desse comportamento é controlado por um mecanismo conhecido como quorum sensing, um sistema de comunicação química utilizado pelas bactérias. Durante esse fenômeno, cada bactéria libera no ambiente pequenas moléculas sinalizadoras chamadas de autoindutores, que se acumulam na medida que a população bacteriana aumenta e se unem a um receptor no interior desses microrganismos. Quando atingem determinada concentração, as bactérias “percebem” que estão em grande número e passam a agir de forma coordenada, aumentando sua capacidade de formar biofilmes, produzir fatores de virulência e resistir a estressores ambientais, como defesas.
Ciência na prática – Mas como ensinar um fenômeno que não pode ser visto? Essa foi a pergunta que motivou pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) a desenvolverem uma atividade investigativa com estudantes do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) que cursavam a disciplina de Bacteriologia.
Durante a metodologia ativa Real Lab Day, os alunos utilizaram as bactérias Chromobacterium violaceum e Pseudomonas aeruginosa – a “bactéria do Ypê” – para dar cor ao processo de quorum sensing. A equipe trabalhou com uma linhagem mutada de Chromobacterium violaceum, que havia perdido o gene responsável por produzir seu próprio autoindutor (a molécula sinalizadora usada durante o quorum sensing). Por conta da mutação, essas bactérias passaram a reconhecer e se unir apenas aos autoindutores liberados por outras espécies. Ao detectar os autoindutores produzidos por Pseudomonas aeruginosa, produzia um pigmento roxo chamado de violaceína, permitindo visualizar um processo que normalmente acontece de forma invisível (Figura 1).
Figura 1. Funcionamento do biossensor. O mutante de Chromobacterium violaceum foi capaz de reconhecer os autoindutores liberados por Pseudomonas aeruginosa e sinalizar por meio da produção de um pigmento roxo conhecido como violaceína.
Mais do que observar um experimento pronto, os estudantes participaram de todas as etapas da investigação científica, levantando hipóteses, analisando resultados e discutindo suas implicações para a pesquisa biomédica (Figura 2).
Figura 2. Estudantes no Real Lab Day. A. Bioensaios de estrias cruzada em placa; B. Pesagem e extração da violaceína; C. Quantificação da violaceína; D. Apresentação de pôster científico.
Após a atividade, os alunos apresentaram maior compreensão sobre o quorum sensing, reconheceram sua importância no desenvolvimento de novas estratégias para combater infecções bacterianas e demonstraram maior interesse pela pesquisa científica na área.
Ensino, pesquisa e extensão caminhando juntos – A pesquisa integra o “Projeto #Adote: Adote uma Bactéria”, coordenado pela professora Rita de Cássia Café Ferreira, do ICB-USP. Desde 2013, o projeto utiliza metodologias ativas para aproximar estudantes da pesquisa científica, promovendo a integração entre ensino, pesquisa, extensão e divulgação científica em microbiologia.
O trabalho foi desenvolvido por Camila Caldas Martins Correia e Pedro Lucas Batalha Marcelino, mestrandos da professora Rita Ferreira, em parceria com o professor José Freire da Silva Neto e com Raquel Sousa Freire, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), todos da equipe do Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3), vinculado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Além disso, teve a participação do professor José Gregório Cabrera Gomes, do ICB, e do doutorando Fábio Moura Cavalcante, do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da USP, promovendo a integração entre diferentes unidades e programas de pós-graduação da universidade.
“O estudante deixa de apenas aprender ciência para fazer ciência” – De acordo com Rita de Cássia Café Ferreira, aproximar os estudantes da investigação científica é um dos principais objetivos da iniciativa. “Quando o estudante participa da construção do conhecimento, ele absorve mais do que conteúdos de microbiologia; aprende a formular perguntas, interpretar resultados, trabalhar em equipe e compreender como a ciência responde aos grandes desafios da sociedade, como a resistência aos antibióticos”, diz.
Formação de pesquisadores – Para a mestranda Camila Caldas Martins Correia, primeira autora do estudo, participar da pesquisa representou um importante passo em sua formação acadêmica e profissional. “Desenvolver este trabalho mostrou que é possível transformar um conceito complexo, como o quorum sensing, em uma experiência de aprendizagem significativa; foi muito gratificante ver os estudantes compreenderem um fenômeno da microbiologia por meio da experimentação”, afirma. “Essa experiência fortaleceu minha formação como pesquisadora e despertou ainda mais meu interesse pela docência e divulgação científica”, acrescenta.
Muito além da sala de aula – Mais do que validar uma nova atividade experimental, o estudo demonstra que metodologias ativas aproximam os estudantes da realidade da pesquisa biomédica, despertam a curiosidade científica e contribuem para formação de profissionais mais preparados para enfrentar desafios contemporâneos, como a resistência bacteriana.
Ao integrar laboratório experimental, sala de aula e divulgação científica, o “Projeto #Adote: Adote uma Bactéria” mostra como a universidade pode formar profissionais, produzir conhecimento de qualidade e, ao mesmo tempo, aproximar a ciência da sociedade.
Agradecimentos – Aos estudantes do curso de Ciências Biomédicas ICB-USP, cuja participação foi fundamental para que pudéssemos realizar essa pesquisa, ressaltamos o nosso mais sincero reconhecimento. Agradecemos também à CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil, 001) e ao CEPID B3/Fapesp (Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, 2023/12063-9) pelo apoio financeiro.
Artigo científico – Os resultados foram publicados no Journal of Microbiology & Biology Education, periódico da American Society for Microbiology (ASM), no artigo de autoria de Correia et al. (2026).
Artigo científico: Correia et al. Journal of Microbiology & Biology Education. DOI: 10.1128/jmbe.00075-26.

*Texto revisado e editado por NUCOM-ICB