Há 17 anos, curso do ICB-USP leva atualização em fisiologia aos professores da rede pública

Conteúdo é desenvolvido por alunos do Instituto com o apoio de docentes e funcionários técnico-administrativos. As aulas são no formato EaD, estratégia que atraiu interessados de todo País.


06/08/2021

Todo ano, durante os meses de julho a setembro, o Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) realiza um curso de extensão gratuito para professores do ensino fundamental e ensino médio, que está em sua 17ª edição. O projeto, que há cinco anos ocorre no formato EaD (Ensino a Distância), leva a centenas de professores da rede pública um conteúdo abrangente: do básico às últimas atualizações sobre “Metabolismo e Obesidade”. Os alunos de pós-graduação e graduação do Instituto são responsáveis por elaborar o material didático e ministrar as aulas – uma estratégia importante para o preparo do corpo discente em atividades de ensino.

 

A adesão ao EaD, ainda antes do modelo ser amplamente difundido, foi uma decisão importante para ampliar o acesso ao curso. Antes restrito aos professores da capital paulista, o curso foi aberto para todo o Estado de São Paulo e o número de participantes triplicou. “Já no primeiro ano, passamos de 30 para 100 participantes. E desde o ano passado, disponibilizamos 400 vagas. Foi assim que, nesta edição, o curso passou a ser aberto para todo o País, recebendo inscrições de diversos estados, como Amazonas e Tocantins”, afirma a atual coordenadora do curso, a professora Carla Roberta de Oliveira Carvalho, do Departamento de Fisiologia e Biofísica.

 

Conteúdo – O curso de Metabolismo e Obesidade conta com seis módulos, divididos em seis semanas. Além das videoaulas e dos conteúdos para leitura, os participantes realizam atividades e avaliações em tempo real com o professor, e têm acesso a um fórum pelo qual podem discutir o assunto da semana. O curso também tem uma parceria com outro Projeto de Extensão do ICB, o Biocientista Mirim, coordenado pela Dra. Renata Ligia de Araujo Furlan, que orienta os professores sobre como abordar os assuntos em sala de aula.

 

As aulas incluem os seguintes temas: Introdução e Conceitos de Metabolismo; Digestão e absorção de carboidratos, proteínas e lipídeos; Micronutrientes e a regulação metabólica com a alimentação; Atividade física, dietas e controle fisiológico do apetite e saciedade; Doenças metabólicas; e Microbiota intestinal e epigenética na obesidade. Os participantes também aprendem sobre a relação da Covid-19 com as doenças metabólicas; a aplicação de dietas no dia a dia, muitas vezes perigosas; e as respostas terapêuticas que a ciência tem dado para os problemas metabólicos. “Este ano, decidimos transformar todo o conteúdo produzido para o curso em um e-book, para ser amplamente divulgado entre todos os professores interessados”, destaca a coordenadora.

 

Histórico – A iniciativa de implementar um Curso de Inverno voltado para professores partiu dos próprios alunos de pós-graduação do Departamento de Fisiologia e Biofísica, em 2005. Os temas abordados nos primeiros anos foram “Alimentação: do hábito à célula”, “Fisiologia da Reprodução: do comportamento ao desenvolvimento” e “Fisiologia: do cotidiano ao extremo”.

 

Em 2016, com a mudança para o EaD, o curso passou a ser focado em Metabolismo e Obesidade, uma das competências do departamento. “A escolha desse tema se deu em razão da elevada ocorrência de obesidade e suas consequências patológicas, relacionado principalmente ao aumento do sedentarismo e da ingestão de alimentos muito calóricos. É um assunto importante para ser trabalhado em sala de aula e promover a conscientização de professores e alunos”, conta a coordenadora do curso.

 

Os conteúdos disponibilizados ajudam a preencher uma lacuna no ensino público brasileiro. “Nosso departamento busca oferecer informação e atualização para um público que é carente de renovação de conhecimento, que são os professores do ensino básico, muitas vezes esquecidos pelo Estado”, afirma a vice-coordenadora do curso, a professora Andréa da Silva Torrão.

 

Desde o início, o curso conta com o apoio da senhora Leila Gomes de Morais Affini, responsável pela documentação científica do Departamento de Fisiologia e Biofísica. “Além disso, foi e continua sendo excepcional a relação colaborativa com os senhores Marcos Matsukuma, para inclusão do material e manutenção do curso na plataforma Moodle; do Márcio Villar, com a gravação e edição das videoaulas; e do Itamar Klemps, com a publicação do material nas demais mídias digitais do Departamento”, afirma a professora Carla Carvalho.

 

De aluno a professorEntre os estudantes de pós-graduação do ICB-USP que atuam no curso, há um consenso de que esta iniciativa os deixa mais preparados para enfrentar as salas de aula no futuro – uma experiência que o ambiente acadêmico muitas vezes não traz. Além disso, os alunos têm a oportunidade de aprender a usar diferentes ferramentas, como softwares de edição de áudio e vídeo.

 

“Foi a minha primeira experiência dando aula neste sistema remoto. Sinto que tive uma base sólida e estou preparado para ser não só um bom pesquisador, como um bom professor”, afirma o pós-graduando Paulo Evangelista Silva. “Uma coisa é você treinar para ser professor na universidade, escrevendo textos, pesquisando, publicando artigos, outra coisa é ter essa experiência na prática, como tivemos no curso. Fiquei muito orgulhoso do meu resultado; foi a primeira aula que eu gravei”, acrescenta Talles Moraes de Sousa, outro aluno de pós-graduação.

 

Já a aluna Ayumi Medeiros Komino destaca a importância de aprender a comunicar a ciência para a sociedade. “Na pós, nós não temos o costume de dividir o conhecimento com quem está fora da universidade. O curso é uma boa forma de treinar o uso de uma linguagem mais acessível e se colocar no lugar das pessoas”. Para Mauricio Hideki Yague Leite, da graduação, o desafio foi ainda maior. “O contato com os pós-graduandos e docentes foi muito importante. Tem muita coisa que nós, alunos de graduação, sentimos que não dominamos ainda, e é na hora de explicar que colocamos em xeque o nosso conhecimento sobre o tema.”

 

Letramento científico – Um dos grandes objetivos do curso, ao transformar um assunto complexo em algo mais compreensível, é disseminar o pensamento crítico científico. “Especialmente na pandemia, vemos que isso não foi trabalhado em momento algum na educação básica. Esse é um dos motivos para a situação estar tão grave no Brasil: a falta de conhecimento. Com o letramento científico, nós aproximamos o assunto do dia a dia dos professores. Porque falar de ciências e fazer um experimento em sala de aula, acho que qualquer um faz. Mas traduzir o que você está fazendo é um desafio”, ressalta Renata Furlan, coordenadora do Biocientista Mirim e colaboradora do curso.

 

Por Gabriel Martino | ICB-USP
Edição: Aline Tavares | Acadêmica Agência de Comunicação